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CINEMA

Perdidos em tradução

Márcio Rocha
Especial para O POVO

O diretor mexicano Alexandre Iñarritu subverte o mito bíblico da Torre de Babel e nos apresenta um filme onde a incomunicabilidade humana existe, mas não por limitações de idiomas - o filme se passa em quatro países diferentes - e sim pela distância criada pelos egoísmos e preconceitos que possuímos


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09/02/2007 01:09

RINKO Kikuchi é um dos destaques de Babel/ FOTO DIVULGAÇÃO
RINKO Kikuchi é um dos destaques de Babel/ FOTO DIVULGAÇÃO

O diretor mexicano Alexandre Iñarritu subverte o mito bíblico da Torre de Babel e nos apresenta um filme onde a incomunicabilidade humana existe, mas não por limitações de idiomas - o filme se passa em quatro países diferentes - e sim pela distância criada pelos egoísmos e preconceitos que possuímos.

Duas crianças marroquinas ganham de seu pai um rifle para o pastoril de ovelhas e iniciam uma competição literalmente infantil que leva um deles a atirar em um ônibus turístico e acertar uma mulher americana que viajava acompanhada de seu marido. O casal é informado que não há possibilidade de socorro imediato e a embaixada americana dificulta o envio de ajuda com a hipótese de terrorismo.

Nos EUA, a babá dos filhos do casal vitimado em Marrocos, é informada que não terá folga para ir ao casamento de seu filho no México devido ao incidente ocorrido. Sentindo-se injustiçada, com a ajuda de seu sobrinho, a mulher leva as crianças com ela ao México para retornarem à noite.

Em Tókio, acompanhamos a saga de uma adolescente surda-muda que está com a consciência de que suas limitações físicas a fazem ser tratada como diferente pelos demais, sobretudo pelos garotos. Sua história terá um link com os demais casos apresentados no filme. Esta conexão inclusive representa um elemento fraco do roteiro, sugerindo uma aplicação da teoria do caos. Acredito que a amarração de tudo poderia ter mais originalidade.

Mas a mensagem é bem transmitida. Ao longo de todo o filme, vemos como nós seres humanos somos movidos por nossos pequenos interesses individuais. A falta de comunicação humana se dá no limite do respeito pelo outro e à compreensão mútua. Muitas questões são abertas durante o filme e a única resposta que sai da boca de seus personagens é a de que somos movidos por nosso egoísmo.

A violência parece ser o principal alimento para a estética sádica que o diretor confere à sua obra. Em Babel, o sadismo chega ao ponto de não termos acesso direto às resoluções do filme que tiveram um possível "final feliz". Sobre estes, somos informados por terceiros, policiais e noticiários.

Brad Pitt, Cate Blanchet e Gael Gárcia Bernal cumprem bem seu papel mas são as atrizes Adriana Barraza e Rinko Kikuchi, a babá mexicana e a garota japonesa, que se destacam no elenco. Unir com qualidade o comercial e o intelectual em um momento onde tudo tende a ser de uma vertente ou de outra, é algo digno de premiação. Sabemos que os idealizadores da Torre de Babel não conseguiram alcançar o céu, basta agora esperar para ver se IÀarritu conseguirá ganhar seu Oscar.


Márcio Rocha, 29, é administrador


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