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Antes da serra

Natália Paiva
da Redação

Antes de o frio serrano de Guaramiranga ser embalado pelas ondas jazzísticas e bluseiras do Carnaval, o já tradicional Festival de Jazz & Blues de Guaramiranga passa por Fortaleza. Essa é a novidade da sétima edição do evento, que este ano ocorre antes, durante e depois do período momino. Por aqui, o saxofone, o trompete e a guitarra ganham espaço a partir de hoje, sexta-feira, no Theatro José de Alencar, com a paraense Jane Duboc. No sábado, no Iate Clube, é a vez da banda cearense Marajazz e da gaúcha Jazz 6, com o saxofonista literato Luis Fernando Veríssimo. O cearense Francisco do Cavaco e o carioca Oswaldinho do Acordeon se apresentam no Anfiteatro da Beira-Mar, domingo, em homenagem ao grande compositor e sanfoneiro Sivuca


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02/02/2007 02:02

LUIS FERNANDO Veríssimo com a banda Jazz 6 que faz show no Ideal, amanhã/ FOTO DIVULGAÇÃO
LUIS FERNANDO Veríssimo com a banda Jazz 6 que faz show no Ideal, amanhã/ FOTO DIVULGAÇÃO

SAIBA MAIS

AGENDE-SE: Semana que vem, o pré-Festival em Fortaleza segue com o estadunidense radicado no Brasil JJ Jackson, no Theatro José de Alencar, às 21h. No sábado, os cearenses Ítalo Almeida e Renno Saraiva se apresentam no Anfiteatro da Beira-Mar, às 18h30, e no domingo é a vez do maranhense Papete.

MAIS: Além dos shows, o pré-Festival de Jazz & Blues promove workshops. O primeiro, com Oswaldinho do Acordeon, ocorre na Escola Viva Música Viva, às 14h. A inscrição é uma lata de leite em pó. No outro domingo, dia 11, os músicos Igor Prado (banda JJ Jackson) e Papete também promovem workshops, às 14h. Informações: 3262.7230.


Uma das atrações do pré-festival em Fortaleza é a gaúcha Jazz 6. A banda é composta por Jorge Gerhart (contra-baixo), Adão Pinheiro (piano), Luiz Fernando Rocha (trompete e flugelhorn), Gilberto Lima (bateria) e Luis Fernando Veríssimo (sax alto). Sim, o autor de O Analista de Bagé, Comédias da Vida Privada e As Mentiras que os Homens Contam, dentre outros, também é músico - "metido a músico", como ele modestamente costuma se definir. Mas o fato é que o conjunto atua desde 1995 em Porto Alegre. E, em Fortaleza, a popularidade de um dos escritores mais vendidos e queridos do País deve levar muito ainda-não-amante-do-jazz ao show de sábado, no Iate Clube. O grupo coleciona três CDs: o primeiro Agora é Hora, de 1998, o segundo Speak Low, de 2001, e o terceiro, A Bossa do Jazz, de 2003, que traz clássicos da MPB e do jazz internacional, sempre reiterpretado a partir de sonoridades brasileiras. No show do sábado, antes da Jazz 6, os cearenses da Marajazz passeiam pelo jazz, fusion e bossa nova.


O POVO - Washington, início dos anos 1950, aos 16 anos, morando nos EUA, o senhor começou a tocar sax alto. Como foi esse início musical e esse período da sua vida?
Luis Fernando Veríssimo - Meu ídolo, na época, era o Louis Armstrong. Eu queria aprender a tocar trompete, como ele, mas não tinham o trompete para emprestar no curso de música que procurei, em Washington. Tinham um sax. Eu viajava frequentemente a Nova York e conseguia entrar no "Birdland", apesar de ainda não ter idade. Foi lá que vi tocar o Charlie Parker e o Dizzy Gillespie juntos, e acho que o pianista era o Bud Powell. Eu ainda não curtia o jazz moderno, só depois me dei conta do que tinha visto. Comecei a gostar do moderno com o quarteto do Mulligan, peguei o começo do Modern Jazz Quartet e a regeneração do Miles Davis, ouvi toda aquela turma ao vivo, em Nova York ou em Washington. Menos o Brubeck, que só fui ver em Porto Alegre, depois que o Paul Desmond já tinha morrido. A paixão pelo jazz não sei de onde veio. Na nossa casa sempre se ouviu muito música americana, acho que foi uma progressão natural.

OP - Em 1959, o senhor integrou o conjunto Renato e Seu Sexteto - o "maior sexteto do mundo", com nove integrantes. Como foi a gênese e a trajetória do grupo? Houve outros, antes da Jazz6?
Luis Fernando Veríssimo - O conjunto do Renato estreou em 1961. Era um conjunto de estudantes, o único não-estudante era eu. Fiquei só um ano porque em 1962 me mudei para o Rio. Depois da minha saída, o conjunto se profissionalizou e teve grande sucesso, até se desfazer. Eu voltei do Rio em 1966, já casado e com a primeira filha. Anos depois o Renato decidiu reunir a velha turma, inclusive os filhos, para ensaios na casa dele. Era só por farra mas acabamos voltando a tocar em bailes, já que as pessoas tinham saudade da música daquela época. Eu tinha passado quase 20 anos sem tocar, mas recomecei. Quando a nova versão do conjunto acabou, depois da morte prematura do Renato, passei mais alguns anos sem tocar até que o Jorge Gerhardt me propôs fazermos uma banda de jazz com alguns remanescentes do conjunto do Renato como ele e eu. Tambem era para ser só por farra mas estamos em atividade há 11 anos. O conjunto do Renato se chamava "Renato e seu Sexteto", mas quando estreou já tinha onze figuras. Agora, com a saída de um dos seus componentes, o "Jazz 6" ficou reduzido a cinco e é, portanto, o menor sexteto do mundo. É a minha sina.

OP - O Guia dos Curiosos conta: "Certa vez, em um show de sua banda de jazz, Veríssimo foi subir no palco e caiu. Sua mãe, já com 90 anos, exclamou: 'É isso que dá ir tocar jazz sem beber nada'". Como, quando e onde foi esse episódio? A partir de então, o senhor passou a beber antes de subir ao palco (brincadeira)?
Luis Fernando Veríssimo - Foi em Brasília e não foi com o Jazz 6. Eu também participo, sempre que dá, da banda dos irmãos Caruso, Chico e Paulo, o Conjunto Nacional. Fizemos uma apresentação em Brasília e decidimos entrar no palco no escuro. Todo mundo bebeu muito antes do show menos eu, que tomei água mineral. Resultado: estrei no escuro para o lado errado, cai do palco, me preocupei em proteger o saxofone e quebrei o joelho. Era na época em que ninguém confiava nos hospitais de Brasília, depois da morte do Tancredo, e tive que viajar para fazer a cirurgia em Porto Alegre. Não foi uma viagem agradável. O comentário da minha mãe foi porque ela não dispensava um uisquinho.


PRAZER DE TOCAR

OP - Além de eventuais intertextualidades, de que forma sua relação com a música está presente na sua literatura (em nível formal, como as notas longas ou rápidas do jazz dialogam com seus textos curtos, se é que dialogam)?
Luis Fernando Veríssimo - Eu já tentei fazer uma analogia entre uma crônica e uma interpretação de jazz. Na crônica, você também expõe o tema, faz variações sobre o tema e dá uma amarrada final, para ficar redondo. E dizem que os grandes solos de jazz são os que contam uma história, ou expõem um sentimento, como uma crônica. Mas acho que a analogia é meio forçada. Na verdade, não há muita relação entre uma coisa e outra.

OP - Em uma entrevista, o senhor disse que, apesar da timidez, não sentia dificuldades em se apresentar em público porque "quem está no palco não sou eu, é a minha fantasia de jazz". O que isso significa?
Luis Fernando Veríssimo - Eu aprendi a tocar o instrumento para poder brincar de jazzista. Nunca me aprofundei na música nem me aperfeiçoei no instrumento porque a intenção era só esta. E é isso, brincar de jazzista, que eu faço até hoje. Portanto o que está no palco é a minha fantasia. Não sou eu.

OP - Em termos de prazer, de "satisfação pura-satisfação", como diz a neozelandesa Katherine Mansfield, o que proporciona mais: a literatura, a música?
Luis Fernando Veríssimo - Se eu pudesse voltar atrás, teria me dedicado mais à música. Tocar me dá mais prazer do que escrever.

OP - Como surgiu o encontro, no Café Concerto Majestic em 7 de julho de 1995, em Porto Alegre, dos músicos que formariam a Jazz 6? E, também, o que o levou a abraçar essa proposta musical após tantos anos sem tocar sax com 'compromisso'?
Luis Fernando Veríssimo - Era para torcarmos só uma vez, convocados pelo Jorge Gerhardt, mas deu certo e continuamos. Ficou entendido desde o princípio entre os outros componentes da banda, todos excelentes músicos profissionais, que eu era um músico limitado e é claro que o público nota isto em seguida, e tolera. Pelo menos espero que tolere. Portanto o nivel de exigência sempre foi baixo. Eu estou ali para me divertir e, como eu disse, exercer minha fantasia. Topei por isso.

OP - Como se estrutura a agenda da Jazz 6? Aliado a isso, como é sua rotina de ensaios e de proximidade com o instrumento?
Luis Fernando Veríssimo - A gente tem negligenciado um pouco. Ensaiamos menos do que devíamos. Mas os outros membros tocam regularmente na noite em Porto Alegre, fora do Jazz 6. Quem cuida da nossa agenda é o Jorge Gerhardt, que além de contrabaixista age como manager, recebendo as propostas e os cachês e determinando nossos compromissos, que dependem bastante das minhas viagens para o exterior. Tocamos regularmente em Porto Alegre e no interior do estado, já tocamos várias vezes em Curitiba, Florianópolis, São Paulo e Belo Horizonte e numa dessas chegaremos a Nova York.

OP - A Jazz6 promove diálogo entre o jazzístico estadunidense e a bossa nova brasileira. Que cara tem um jazz feito por um grupo de músicos gaúchos? O de vocês é feito sob quais influências sonoras?
Luis Fernando Veríssimo - Porto Alegre tem uma longa tradição musical, inclusive jazzística. Quando o jazz estava saindo de Nova Orleans e chegando ao resto dos Estados Unidos também estava chegando a Porto Alegre, que já tinha bandas de jazz nos anos 20. Nossas influências são a bossa e os clássicos como Ellington, Thelonious Monk etc.

OP - Nesses quase 12 anos de formação, o sexteto coleciona três CDs gravados - o primeiro Agora é Hora, de 1998, o segundo Speak Low, de 2001, e o terceiro, A Bossa do Jazz, de 2003. Em que pé anda o quarto trabalho, e por quais caminhos ele deve trilhar?
Luis Fernando Veríssimo - Estamos pensando no quarto, que terá composições de membros da banda, como teve o primeiro. Além de ótimos músicos temos ótimos compositores. Eu sempre digo que o melhor de tocar com esse grupo é poder ouvi-los de um lugar privilegiado, que é em cima do palco.

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