Fortaleza
VIOLÊNCIA
Policiais e drogas: combinação perigosa
Na terceira matéria da série sobre falta de acompanhamento psicológico dos policiais, O POVO aborda os problemas de alcoolismo e uso de drogas ilícitas por policiais
Yanna Guimarães
da Redação
26 Set 2008 - 02h37min
O Movimento de Promoção Social (MPS) da Polícia tem hoje 534 fichas cadastradas. São policiais envolvidos com drogas. Um número que representa pouco mais de 3% da categoria. O problema é que esses são apenas os casos assumidos. "Consideramos que esse número é a ponta do iceberg. Esses são somente os policiais que reconhecem o problema e buscam o tratamento. Deve ter, com absoluta certeza, muito mais", afirma o major Plauto Ferreira, especialista no assunto e autor do livro Segurança e Drogadição. A droga mais usada pelos policiais é o álcool. E todos os policiais que partem para as drogas ilícitas começam por ele.
É uma forma de relaxar do estresse da profissão. O problema é quando a forma de diversão vira vício. De acordo com o major, as estatísticas mostram que 15% dos usuários esporádicos passam a ser dependentes químicos. Entre as drogas ilícitas, a mais utilizada é o crack. E boa parte dos policiais começam pela curiosidade. "Não é só por algum problema pessoal, o policial tem uma maior facilidade de manuseio. Isso potencializa a oportunidade. Muitos pensam: tá tão perto, vou ver como é". E, a menos que o vício seja visível, se o policial não procura tratamento, é muito difícil a corporação tomar conhecimento do caso.
Mas, segundo Adalberto Barreto, psiquiatra, antropólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), todo comportamento tem valor de comunicação. "Precisamos ver como os policiais comunicam seus atos por meio de seu jeito de agir". Insônias, acidentes, faltas. Tudo isso pode ser entendido como um sintoma que mostra por qual problema o policial está passando. "Mas a corporação precisa perceber esses sinais", completa. O major Plauto Ferreira afirma que o policial envolvido com drogas esconde o problema como qualquer outra pessoa. Mas quando passa a abusar, acaba não conseguindo mais esconder.
A partir disso, os superiores começam a perceber que há um problema e o policial é avaliado por um psicólogo. Se preciso, tira uma licença para tratamento. O maior problema, conforme o major Plauto Ferreira, é quando esses policiais andam armados em suas folgas. Como aconteceu com o policial Fabrício Giorgan Machado, acusado de matar Ranier Santiago, 18, há quase um ano. Segundo testemunhas, ele estava embriagado quando chegou à churrascaria em que o estudante estava. "O que eu vi no depoimento dele é que ele tinha brigado com a mulher e tinha saído de casa armado, já pensando em beber", relata Ana Maria Santiago, tia do rapaz.
Se o policial for pego em flagrante, nesses casos, pode ser preso e responde administrativamente. Mas o soldado Flávio Sabino, da Associação dos Cabos e Soldados da PM, lembra que os policiais são iguais a qualquer outro ser humano. "Existem comandantes de companhias e batalhões que são sensíveis e acompanham esse tipo de problema, outros são omissos". Ele diz ainda que esse tipo de atitude traz perdas incalculáveis. "Nós trabalhamos diretamente na defesa da vida. É primordial recebermos acompanhamento específico, principalmente quando precisamos. Um erro pra gente quase sempre é fatal".
E-Mais
Um policial que prefere não ser identificado conta que, como ele precisou de acompanhamento psicológico, muitos precisam e não recebem suporte. Apesar de não ter chegado ao ponto de se envolver com drogas, ele afirma que o álcool e o crack são vistos como a única saída nesses casos, principalmente se um policial é afastado. "A primeira coisa que ele faz é beber. Se se sente mal, não sabe o que fazer. E uma coisa leva a outra".
RESUMO DA SÉRIE
Em três dias, O POVO mostrou que os policiais (Civis, Militares e Federais) não recebem nenhum tipo de acompanhamento psicológico ao longo de suas carreiras. Especialistas afirmaram que isso favorece o aumento de ações desastrosas, o que, como conseqüência, faz com que a própria população tenha medo da Polícia. Por não receberem auxílio quando precisam, muitos policiais acabam buscando alento no álcool e em drogas ilícitas, especialmente o crack.
E-Mais
Na Polícia Federal, de acordo com Cláudio Timbó, diretor jurídico do Sindicato dos Policiais Federais no Ceará (Sinpof), o índice de alcoolismo era bem alto, mas foi diminuído pelas ações do sindicato. "Trouxemos o policial para perto, foi uma forma de acompanhá-lo. Ao ser detectado qualquer sintoma, ele é encaminhado ao tratamento". Segundo ele, o acesso às drogas ilícitas é muito difícil. "Poucas pessoas têm acesso, o controle é muito rígido". Hoje, o Ceará conta com 400 policiais federais.
Conforme Mariana Lage, psicóloga da Polícia Federal, não há um serviço normatizado nos casos de envolvimento de policiais com drogas. "Não temos como identificar, não tem nada que a pessoa seja obrigada a ir ou seja encaminhada. Como é uma doença progressiva, que vai desenvolvendo ao longo do tempo, chega um ponto que ele não consegue mais esconder. Mas se o policial procura atendimento, ele será encaminhado".
É uma forma de relaxar do estresse da profissão. O problema é quando a forma de diversão vira vício. De acordo com o major, as estatísticas mostram que 15% dos usuários esporádicos passam a ser dependentes químicos. Entre as drogas ilícitas, a mais utilizada é o crack. E boa parte dos policiais começam pela curiosidade. "Não é só por algum problema pessoal, o policial tem uma maior facilidade de manuseio. Isso potencializa a oportunidade. Muitos pensam: tá tão perto, vou ver como é". E, a menos que o vício seja visível, se o policial não procura tratamento, é muito difícil a corporação tomar conhecimento do caso.
Mas, segundo Adalberto Barreto, psiquiatra, antropólogo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), todo comportamento tem valor de comunicação. "Precisamos ver como os policiais comunicam seus atos por meio de seu jeito de agir". Insônias, acidentes, faltas. Tudo isso pode ser entendido como um sintoma que mostra por qual problema o policial está passando. "Mas a corporação precisa perceber esses sinais", completa. O major Plauto Ferreira afirma que o policial envolvido com drogas esconde o problema como qualquer outra pessoa. Mas quando passa a abusar, acaba não conseguindo mais esconder.
A partir disso, os superiores começam a perceber que há um problema e o policial é avaliado por um psicólogo. Se preciso, tira uma licença para tratamento. O maior problema, conforme o major Plauto Ferreira, é quando esses policiais andam armados em suas folgas. Como aconteceu com o policial Fabrício Giorgan Machado, acusado de matar Ranier Santiago, 18, há quase um ano. Segundo testemunhas, ele estava embriagado quando chegou à churrascaria em que o estudante estava. "O que eu vi no depoimento dele é que ele tinha brigado com a mulher e tinha saído de casa armado, já pensando em beber", relata Ana Maria Santiago, tia do rapaz.
Se o policial for pego em flagrante, nesses casos, pode ser preso e responde administrativamente. Mas o soldado Flávio Sabino, da Associação dos Cabos e Soldados da PM, lembra que os policiais são iguais a qualquer outro ser humano. "Existem comandantes de companhias e batalhões que são sensíveis e acompanham esse tipo de problema, outros são omissos". Ele diz ainda que esse tipo de atitude traz perdas incalculáveis. "Nós trabalhamos diretamente na defesa da vida. É primordial recebermos acompanhamento específico, principalmente quando precisamos. Um erro pra gente quase sempre é fatal".
E-Mais
Um policial que prefere não ser identificado conta que, como ele precisou de acompanhamento psicológico, muitos precisam e não recebem suporte. Apesar de não ter chegado ao ponto de se envolver com drogas, ele afirma que o álcool e o crack são vistos como a única saída nesses casos, principalmente se um policial é afastado. "A primeira coisa que ele faz é beber. Se se sente mal, não sabe o que fazer. E uma coisa leva a outra".
RESUMO DA SÉRIE
Em três dias, O POVO mostrou que os policiais (Civis, Militares e Federais) não recebem nenhum tipo de acompanhamento psicológico ao longo de suas carreiras. Especialistas afirmaram que isso favorece o aumento de ações desastrosas, o que, como conseqüência, faz com que a própria população tenha medo da Polícia. Por não receberem auxílio quando precisam, muitos policiais acabam buscando alento no álcool e em drogas ilícitas, especialmente o crack.
E-Mais
Na Polícia Federal, de acordo com Cláudio Timbó, diretor jurídico do Sindicato dos Policiais Federais no Ceará (Sinpof), o índice de alcoolismo era bem alto, mas foi diminuído pelas ações do sindicato. "Trouxemos o policial para perto, foi uma forma de acompanhá-lo. Ao ser detectado qualquer sintoma, ele é encaminhado ao tratamento". Segundo ele, o acesso às drogas ilícitas é muito difícil. "Poucas pessoas têm acesso, o controle é muito rígido". Hoje, o Ceará conta com 400 policiais federais.
Conforme Mariana Lage, psicóloga da Polícia Federal, não há um serviço normatizado nos casos de envolvimento de policiais com drogas. "Não temos como identificar, não tem nada que a pessoa seja obrigada a ir ou seja encaminhada. Como é uma doença progressiva, que vai desenvolvendo ao longo do tempo, chega um ponto que ele não consegue mais esconder. Mas se o policial procura atendimento, ele será encaminhado".
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