Tiago Braga
da Redação
Muitos fortalezenses madrugam em filas para ter acesso a serviços públicos básicos. Hoje O POVO mostra como funciona a venda de lugares na fila para atendimento no Instituto de Identificação e na Santa Casa de Misericórdia. A prática é considerada crime
18/08/2008 00:41

A venda de lugares na fila que se forma, diariamente, em frente à sede do Instituto de Identificação do Ceará, virou rotina. A abordagem começa na madrugada. É só alguém dobrar a esquina em direção à rua Martinópolis, no Benfica, que logo aparece uma pessoa oferecendo um lugar, no início da fila, por um preço que varia de R$ 10 a R$ 20. Encontrar quem aceite não é difícil. Os que chegam mais tarde compram para ser um dos primeiros a receber as senhas de atendimento.
No dia em que O POVO visitou o local, pouco depois das 4 horas da madrugada, havia mais de 60 pessoas espalhadas pela calçada, algumas delas deitadas no chão. Os quatro primeiros da fila haviam comprado o lugar. A manicure Silvia Helena diz que chegou às 3h30min da madrugada, mas como já tinha muita gente no local, resolveu aceitar a proposta de quem ofereceu o segundo lugar da fila por R$ 10. "A gente compra para ver se é atendido logo. Eu ia pegar a senha 27 e pulei para a segunda", justifica.
Quem chegou cedo e viu as pessoas que compraram o lugar passarem na frente achou ruim, mas não fez nada. "Eles (que vendem os lugares) são mal encarados. Dá medo até de reclamar", comenta a assistente administrativa Karine Costa. "É um negócio muito sério. Se tivesse trazido o celular ligaria para a polícia", diz o estudante Jéferson Pinheiro. Os lugares na fila eram oferecidos à vista de todos. "Fiquem tranqüilos. Ninguém vai fazer nada", dizia um dos vendedores a uma senhora que havia acabado de comprar o lugar.
"Existe a venda porque tem quem compre", lembra o comerciário Igor José, que diz ter chegado ao local ainda na noite anterior, por volta das 23 horas. Ele estava sentado no meio-fio da calçada, calado e com a fisionomia cansada. Na frente dele, havia 14 pessoas, a maioria gente que comprou o lugar na fila. "Eu não compro. Não acho certo. Dá até uma revolta. Parece que não basta a humilhação de ter de madrugar para tirar a segunda via de um documento simples, que é um direito da gente. Não entendo por que o Estado não disponibiliza senha suficiente e descentraliza esse serviço", questiona.
Os que vendem apuram cerca de R$ 600 por mês, já que, em média, dá para negociar três lugares por dia. Isso é possível porque, após vender um lugar na fila, a pessoa volta para o final dela. Como eles começam a vender ainda de madrugada, dá tempo de garantir mais dinheiro até as 6 horas, quando a entrada ao Instituto é liberada. Foi a possibilidade de aumentar a renda que levou o garçom Marcos, 21, a madrugar na rua do Benfica. Ele sai do restaurante onde trabalha às 23 horas e chega ao Instituto por volta da meia-noite. Dorme um pouco e antes das 4 horas já começa a oferecer o seu lugar na fila. Marcos conta que, antes, havia mais gente vendendo, mas depois que o Ronda do Quarteirão passou a circular pelo local diminuiu muito. "Eram umas 30 pessoas. Hoje tem seis aqui."
Já Carlos, 32, é morador de rua. Passou a dormir em frente ao Instituto há três anos, depois que percebeu a movimentação no local. Ele conta que, antigamente, as pessoas vendiam o mesmo lugar para até quatro pessoas, o que "deu muita confusão". "Hoje (5 de agosto) a noite foi boa. Deu para vender três (lugares). Mas bom mesmo foi quando eu vendi para um cara que chegou numa Hilux. Ele deu R$ 50."
O POVO opta por utilizar nomes fictícios para as pessoas que vendiam os lugares na fila.
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ATENDIMENTO NO INSTITUTO DE IDENTIFICAÇÃO
Por dia, são distribuídas 350 senhas, além das voltadas para o atendimento especial (idosos, gestantes, deficientes físicos). "Não há a necessidade das pessoas dormirem na fila. É que se criou essa cultura de que é preciso chegar cedo para conseguir atendimento. Para você ter uma idéia, tem dia que ainda há senha sendo distribuída às 10h30min", diz Aurimar Barreto, gerente do Instituto de Identificação. Ela também informa que há um projeto para ampliação do atendimento - com uma reforma no prédio do Instituto - e para a descentralização do serviço, com a criação de mais postos de atendimento para quem precisa tirar a segunda via da carteira de identidade. Mas, de acordo com ela, ainda não existe previsão de quando o projeto sairá do papel. A porta do Instituto abre às 6 horas.
E-Mais
O POVO visitou cinco locais em Fortaleza onde se forma fila na madrugada: Instituto de Identificação do Ceará, Santa Casa de Misericórdia, Centro de Saúde Escola Meireles, Defensoria Pública do Ceará e posto de saúde Vicentina Campos, no Parque Dois Irmãos. Nos três últimos não havia pessoas vendendo o lugar na fila.
A visita ao Instituto de Identificação foi no último dia 5 de agosto. Dois dias depois O POVO foi à Santa Casa de Misericórdia.
O sereno que costuma cair na madrugada pega muita gente de surpresa. Tanto na Santa Casa quanto no Instituto de Identificação não há local para as pessoas se abrigarem da chuva. Os mais prevenidos levam guarda-chuva.
A maioria das pessoas dribla o sono conversando com os outros que também estão na fila. Muita gente leva casaco por causa do frio. A pouca iluminação nesses locais deixa a rua escura.
O carro do Ronda do Quarteirão passou uma vez em frente ao Instituto de Identificação durante o tempo em que O POVO esteve no local.
Uma senhora que chegou às 5h40min - quando a fila em frente ao Instituto de Identificação estava perto de dobrar o quarteirão - conseguiu comprar um lugar entre os 20 primeiros da fila.
LEIA AMANHÃ
Histórias de quem madruga em filas para atendimento em postos de saúde e na Defensoria Pública do Estado. Há, de fato, a necessidade das pessoas chegarem ainda de madrugada nesses locais? O POVO mostra ainda que muita gente aproveita a demanda nesse horário para vender lanches e ganhar um dinheiro extra.
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Isso é um fato veridico, não somente na busca de uma senha para o Instituto de Identificação, mas também para as filas dos Postos de Saúde e Hospitais, e só acontece devido o péssimo modelo de atendimento que os setores públicos dão a zaúde e a segurança, mas os politiqueiros que ai estão dizem que a saúde, a segurança e a educação são de primeiro mundo. Vamos ter q
Euglaudston Celestino
Não acredito que a senhora Aurimar esteja acompanhando o que acontece na fila de seu instituto. Minha esposa tentou obter senha durante mais de uma semana, chegando sempre por volta das 7h da manhã e não conseguiu em nenhuma das tentaivas. É preciso que a gerente do instituto avalie melhor suas declarações, pois poderá incorrer em inverdades.
Márcio Sena