Mariana Toniatti
da Redação
Por ser tão difícil mudar comportamentos, o investimento em novos hábitos e numa consciência coletiva acaba focando os jovens. Eles não fogem à responsabilidade, mas querem dividir a tarefa
19/07/2008 00:12

É automático. Se não tiver lixo por perto, vai tudo para o bolso de Ítalo Anderson Lopes, 14. O papel do bombom, o panfleto, a embalagem de biscoito. "É costume. Aprendi com minha mãe", diz. Ele já começa a conversa dizendo que educação depende, em primeiro lugar, de "não pensar só em si". Faz parte da geração que cresceu ouvindo falar em sustentabilidade e reciclagem. Mesmo sem querer, essas crianças e adolescentes acabam educando os adultos.
"Elas adotam valores coletivos e cobram isso dos pais", diz a psicóloga Gislene Macedo. Não é à toa que muitos projetos de educação ambiental concentram atenção nas crianças. "Se eles entenderem e incorporarem, vão atuar como fiscais. É mais difícil mudar hábitos de uma geração já formada", explica Mara Calvis, coordenadora de políticas ambientais da secretaria de Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam).
Só não dá para transferir a responsabilidade da boa educação, com o planeta e com os outros, para quem tem menos de 21 anos. "Acham que somos a salvação, que os jovens vão cuidar de tudo. Por que não começam agora? Fica um peso meio injusto", reclama Ítalo. Em casa, ele já mudou um pouco o comportamento do pai. A caixa de papelão onde veio o som novo não foi para o lixo. "Ele me deu para trazer para o colégio, onde tem reciclagem. Foi uma surpresa boa", conta.
Não é só injusto achar que os jovens vão ser baluartes da consciência ecológica e da cidadania. Gislene lembra que ao atingirem a idade adulta, o adolescente de hoje pode enfrentar conflitos e, eventualmente, mudar de atitude. "A criança briga muito com o pai porque ele fuma, mas que escolha ele vai fazer quando crescer? Os pais são reforçadores do que se aprende na escola. O que vejo lá faz parte da vida real? Faz, se em casa for igual". Ana Carolina Bezerra, 13, diz estar preparada para enfrentar o trânsito com educação quando chegar a vez dela. Na lista das deselegâncias que mais a irritam na cidade, a buzina está no topo. "É direto, por qualquer coisa. A cidade é muito barulhenta. Tem muito som alto e não é só em carro, é em bar, no restaurante, em todo canto", reclama. Ela estuda na mesma escola que Ítalo. Lá aprendeu a reciclar o lixo e levou a prática para casa.
Gabriela Furtado, 13, que também está na mesma escola, confessa que tem preguiça de passar uma água no material que vai para o lixo reciclado. "Às vezes deixo em cima da pia para alguém lavar", diz. Mas não deixa de separar. "Não dá para ignorar a importância dessas coisas". As preocupações têm reflexo para toda humanidade, fogem do individualismo, um dos fermentos da má educação. "Não depende só de você, mas não é por isso que vou cruzar o braço", ensina Ítalo.
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