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Fortaleza

TRABALHO X ESTUDO

A escola dos meninos catadores

Em uma escola no Genibaú, muitos alunos catam material reciclável quando não estão estudando. Desde cedo, eles têm de lidar com o fardo de sustentar suas famílias

Ricardo Moura
da Redação

19 Jun 2008 - 01h07min

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Meninos de uma escola no Genibaú sentem dificuldades de levar os estudos adiante quando enfrentam diariamente uma, quase sempre, árdua rotina de trabalho(Foto: ALEX COSTA)
Eles estão pelas ruas, sempre ajudando um adulto a carregar o carrinho com material reciclável. Entre um monte de lixo e outro, uma pausa rápida para o descanso. O trabalho, às vezes, estende-se até a noite. O que muita gente não sabe é que, por trás de um pequeno catador de rua, há um pequeno estudante que é obrigado a dividir seu tempo entre a escola e a luta pela sobrevivência. A Escola Manoel Caetano de Souza, no bairro Genibaú, abriga muitas dessas crianças. O POVO relata algumas dessas histórias.

Júnior,11, e Amanda (nomes fictícios),10, são irmãos. Eles estudam à tarde e, assim que chegam em casa, dão início ao segundo turno de atividades. Para ajudar os pais, saem pelas ruas do Conjunto Ceará catando papelão, latas de alumínio e plástico. Júnior não sabe quanto é apurado pelo serviço. O dinheiro fica com o pai. Ainda assim, ele afirma gostar do que faz. "Prefiro ficar com meu pai do que ficar em casa".

A rotina de Amanda é mais sofrida. Além de ser catadora, ela tem de se desdobrar com os afazeres domésticos porque a mãe, explica, encontra-se doente e prostrada em uma cadeira de rodas. Em casa, ela cozinha, passa o pano na casa e cuida dos três irmãos menores. De manhã cedo, leva o material coletado na noite anterior para ser pesado no depósito.

Amanda tem um semblante sério. Diz que não gosta de assistir a desenho animado e nem de brincar com os outros meninos de sua idade. Revela com orgulho o fato de ter a comida que faz elogiada pelos parentes, mas reclama: "Quando eu faço pouca comida, eles querem mais. Quando eu faço muito, sobra".

Assim como Júnior, a estudante não tem planos para o futuro. Quer apenas ficar em casa, ajudando a mãe e os outros oito irmãos. No entanto, quando perguntada sobre uma profissão que admira, ela responde quase de imediato: professora.

Luís (nome fictício), 11, também arca com uma grande responsabilidade, já no 3º ano do ensino fundamental. A mãe morreu há oito anos. O pai tem um problema cardíaco e epilepsia. Por esta razão, há quase um ano ele é obrigado a trabalhar catando material reciclável de manhã, enquanto o irmão mais velho cuida da casa e faz o almoço.

Além da ajuda financeira, é Luís quem acompanha o pai no médico, chegando até mesmo a faltar aula por causa disso. "Todo dia ele tem de tomar o remédio que ganha no posto. Às vezes ele pede para eu ajudá-lo, às vezes eu mesmo me ofereço", diz. O amadurecimento precoce já causou problemas ao estudante. "Ele apresentava um desgaste muito grande, tanto físico quanto emocional", revela a diretora da escola, Leonice Ferreira.

LEIA AMANHÃ
O dia-a-dia dos dois pequenos catadores que deram origem à matéria

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Com apenas 11, Marcos (nome fictício) já fez de tudo: foi padeiro, trabalhou em vacaria e no Jóquei Club. Atualmente, ele trabalha catando material reciclável. A jornada é dura: começa a trabalhar de manhã, vai para a escola à tarde e à noite volta ao batente, até às 18 horas. Nem no inverno, a atividade foi interrompida. "Botamos um plástico por cima, para não molhar as coisas", explica. De acordo com a diretora Leonice Ferreira, o menino apresentava um comportamento bastante difícil na escola, por causa da vida atribulada que teve.

Amanda revela que trabalhava todo dia até 21, 22 horas. Depois do início da "novela dos vampiros" (na realidade, Caminhos do Coração, da Rede Record), ela passou a voltar mais cedo para casa. O programa é o único que ela afirma assistir. "Não dá tempo de ver os outros", explica.

Acompanhe a série
Desde segunda-feira, O POVO publica uma série de reportagens sobre o desafio da aprendizagem na rede pública de Fortaleza. Na edição de ontem, mostra quais as secretarias executivas regionais (SERs) com as menores taxas de aprovação. As regionais III e I lideram essa estatística.

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