Fátima Guimarães
da Redação
Os pneus inservíveis, descartados em terrenos baldios, espaços públicos, são uma ameaça ao meio ambiente e ao controle da dengue
17/05/2008 01:16
Tempo indeterminado para se decompor no meio ambiente, é o que dizem os ambientalistas. Mais grave ainda é o perigo que representam à saúde da população. Os pneus inservíveis, ou velhos, quando descartados em terrenos baldios, espaços públicos, deixados em locais abertos nos quintais, são um dos principais criadouros do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, doença que virou epidemia em Fortaleza. Por dia, cerca de 600 pneus são recolhidos na cidade e mensalmente, em torno de 80 toneladas.
O Brasil descarta, anualmente, cerca de 21 milhões de pneus. O descaso da população com esse tipo de lixo exige uma atenção redobrado do poder público. Em Fortaleza, ano passado, uma média de 13 mil pneus inservíveis foram "resgatados" do meio ambiente. As secretarias executivas regionais VI, que detém 40% da área do município e V, a maior população da cidade, são regiões onde se coletam mais esse material. Também não é coincidência que as duas concentram o maior número de casos de dengue este ano, respectivamente, 2.991 e 2.501, de acordo com o boletim semanal divulgado ontem, 16.
A médica veterinária Socorro Furtado, assessora técnica do núcleo de endemias da Secretaria Municipal da Saúde (SMS), diz que os pneus velhos representam muitos prejuízos e se não houver um controle, o resultado será cada vez mais criadouros do mosquito, e conseqüentemente, mais mosquitos e pessoas infectadas. Ela acrescenta que, em caso de compra de pneus novos, o recomendado é deixar na revenda. "Nunca deixar em locais descobertos, que possa acumular água."
Especialista em medicina tropical, ela observa que o período das chuvas, que coincide com o aumento de casos de dengue, é a época em que mais pneus são lançados no lixo. "O perigo é grande, pois a parte interna acumula água e a cor é um atrativo para a colocação dos ovos."
Odorico Monteiro, secretário municipal da saúde, diz que o material também dificulta a visualização dos ovos. Embora reconheça que os pneus representem um perigo, ressalta que a preocupação maior ainda é com as caixas d´ águas descobertas, que são em torno de 211 mil.
Segundo Socorro, cinco caminhões fazem o recolhimento do material em vias públicas, terrenos baldios, borracharias da cidade. Evangelista de Souza, agente sanitarista responsável pelo trabalho, ressalta que o ideal seria procurar se informar sobre o dia da coleta na área, a fim de evitar que o pneu seja deixado em locais abertos. "Tem dia que a gente recolhe de 10 a 15 pneus abandonados em calçadas." Jânio Araújo, funcionário de uma borracharia, observa que o material que não pode ser mais utilizado é entregue à Prefeitura. "Não deixamos na rua."
Todo material coletado pela Prefeitura é levado para um "ecoponto" (local de recepção dos pneus inservíveis, possibilitando a destinação ambientalmente correta desses objetos), que fica no Mucuripe. Depois de prensados, são levados para incineração em Sobral, numa empresa credenciada para esse tipo de trabalho, que utiliza o material na produção de cimento. Socorro acrescenta que essa ação foi possibilitada por meio da parceria da Prefeitura com a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip).
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E-Mais
De acordo com a Resolução nº 258, de 26 de agosto de 1999, do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), é proibida a destinação final inadequada de pneumáticos inservíveis, como em aterros sanitários, mar, rios, lagos ou riachos, terrenos baldios ou alagadiços, e queima a céu aberto. A lei também permitiu aos fabricantes e os importadores criarem de recepção de pneus inservíveis, a serem localizadas e instaladas de acordo com as normas ambientais e demais normas vigentes, para armazenamento temporário e posterior destinação final ambientalmente segura e adequada.
Pela legislação em vigor, os fabricantes e os importadores de pneumáticos poderão efetuar a destinação final, de forma ambientalmente adequada, dos pneus inservíveis de sua responsabilidade, em instalações próprias ou mediante contratação de serviços especializados de terceiros. As instalações para o processamento de pneus inservíveis e a destinação final deverão atender ao disposto na legislação ambiental em vigor, inclusive no que se refere ao licenciamento ambiental.
A Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), entidade que representa os fabricantes de pneus novos instalados no País, atingiu a marca de 100 milhões de pneus destinados de forma ambientalmente correta em 2005. A marca corresponde a aproximadamente 500 mil de toneladas de pneus velhos ou inservíveis que foram coletados e destruídos de forma ambientalmente correta.
O Programa de Coleta e Destinação de Pneus foi implantado em 1999 e atinge várias regiões do Brasil, desde o Amazonas até o Rio Grande do Sul, passando por capitais como Vitória, São Paulo, Rio de Janeiro e Macapá. Segundo a Anip, entre outros destinos, os pneus inservíveis são utilizados nos fornos de cimento, na produção de solados de sapatos, pisos industriais e quadras poli-esportivas, na construção civil e tapetes de carros.
A partir desses "Pontos de Coleta", a Reciclanip, entidade sem fins lucrativos, recolhe os pneus e os encaminha para a destinação final ambientalmente adequada, realizada por empresas devidamente autorizadas e licenciadas pelos órgãos ambientais estaduais e reconhecidas pelo Ibama.
A Reciclanip coletou em 2007 140.000 toneladas de pneus o equivale a 28 milhões de unidades. A previsão para este ano é que seja ultrapassada a marca dos 150 mil toneladas ou seja mais de 30 milhões de unidades de pneus de carro. Segundo e entidade, investirá mais de R$ 30 milhões em transporte e pagamento a prestadores de serviço que preparam e destinam de forma ambientalmente adequada esses pneus. Nosso trabalho é buscar alternativas que valorizem o pneu.
Em Fortaleza, as borracharias fazem parte dos quase 3 mil pontos estratégicos existentes em Fortaleza como sucatas, cemitérios, depósitos. Esses locais recebem a visita dos agentes sanitaristas a cada 15 dias. No intervalo, é importante que os responsáveis procurem possíveis criadouros de focos.
SAIBA MAIS
O QUE É:
Pneu ou pneumático novo: aquele que nunca foi utilizado para rodagem sob qualquer forma.
Pneu ou pneumático reformado: todo pneumático que foi submetido a algum tipo de processo industrial com o fim específico de aumentar sua vida útil de rodagem em meios de transporte, tais como recapagem, recauchutagem ou remoldagem.
Pneu ou pneumático inservível: aquele que não mais se presta a processo de reforma que permita condição de rodagem adicional.
Pneus usados (ainda não inservíveis): Podem ser levados para casa pelo cliente, podem ser vendidos no comércio de pneus usados ou podem ser reformados. Este segmento prolonga a vida do pneu usado, impedindo a disponibilidade para a destinação final.
Reutilização dos pneus
Pavimentos para estradas - Pó gerado pela recauchutagem e os restos de pneus moídos podem ser misturados ao asfalto aumentando sua elasticidade e durabilidade.
Contenção de erosão do solo: pneus inteiros associados a plantas de raízes grandes, podem serem utilizados para ajudar.
Combustível de forno para produção de cimento, cal, papel e celulose - O pneu é muito combustível, um grande gerador de energia e superior ao carvão.
Pisos industriais, Sola de Sapato, Tapetes de automóveis, Tapetes para banheiros e Borracha de vedação - Depois do processo de desvulcanização e adição de óleos aromáticos resulta uma pasta, a qual pode ser usada para produzir estes produtos entre outros.
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