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QUEM FOI TIRADENTES?

Moradores reclamam de violência e sujeira na rua Tiradentes

Moradores da rua Tiradentes, no bairro Rodolfo Teófilo, estão mais preocupados com os problemas do dia-a-dia, principalmente a violência, do que em saber a história de José Joaquim da Silva Xavier

Rita Célia Faheina
da Redação

21 Abr 2008 - 01h36min

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O aposentado Francisco Souza Ferreira reclama da sujeira e do perigo do canal na rua Tiradentes (Foto: SEBASTIÃO BISNETO)
A rua começa com uma vila de casas margeando um canal sujo e sem proteção. Nem a placa avisando que "lixo solto traz doenças" sensibiliza os moradores. É saco plástico, copo descartável, mato e até um sofá rasgado. "Não conto as vezes que tirei gente de dentro desse canal. Quando está cheio, o perigo aumenta. Já caiu carro e as crianças não podem nem brincar na calçada porque falta a proteção", declara o aposentado Francisco Souza Ferreira, 63. Ele mora nesse pedaço, o primeiro quarteirão da rua Tiradentes no bairro Rodolfo Teófilo.

Mas tirando os problemas da rua, seu Francisco, o senhor sabe quem foi Tiradentes? "Foi.... (pausa para lembrar). Até que estudei, mas esqueci". A preocupação maior de seu Francisco é com a mulher doente, com dor de cabeça, febre, dor no corpo que ele aposta ser dengue. "Não tenho nem dinheiro pra levar ela num hospital. Ganho um salário mínimo e crio três netos. Estou é pensando nas contas que tenho de pagar". Ele mora há 10 anos na rua Tiradentes porém está querendo vender a casa e ir morar no Interior. "Pode ser qualquer lugar, aqui é que não quero mais ficar".

E os netos, estudantes, será que sabem algo sobre Tiradentes, o mártir da Inconfidência, que lutou pela independência do País? Vanderson Sousa, 18, cursando o oitavo ano do ensino fundamental até se esforça: "Eu lembro, mas no momento não sei responder". O mesmo diz o primo Jackson, 9, que está no terceiro ano do ensino fundamental: "Lembro não". Nessa hora, seu Francisco dá um palpite: "Ah! foi aquele que enforcaram e esquartejaram", mas continua a falar dos problemas do dia-a-dia, do neto que não consegue emprego, da violência na rua, dos postos de saúde superlotados e da mulher, deitada sem forças para fazer o almoço. "Nem comida a gente tem hoje".

Violência
O aumento da violência na rua também é o que mais lamenta o funcionário público aposentado Francisco Edvaldo Barbosa que mora na rua Tiradentes há mais de 50 anos. "Nasci por aqui, brinquei na areia no meio da rua, entre as árvores, e nossos pais sentavam nas calçadas nos fins de tarde. São costumes que a gente tem saudade e agora ninguém pode ficar na calçada por causa da onda de assaltos". Ele recorda as festas e os carnavais no clube Recreativo Tiradentes onde, atualmente, só funciona o Grupo Legião Brasil de Capoeira.

O advogado Wiiliam da Silva Brito também lembra com saudades da rua Tiradentes há 10 anos. "Até uma década atrás era uma beleza. Todos ficavam brincando nas calçadas, sem perigo de aparecer assaltantes. Hoje as pessoas não saem mais de casa". Eliane Vasconcelos que nasceu na rua Tiradentes esquina com a rua Nunes de Melo, diz que as brincadeiras, há mais de 40 anos, estendiam-se até a lagoa de Porangabussu.

E quem foi mesmo Tiradentes, Edvaldo, Brito e Eliane? "Foi o Mártir da Inconfidência Mineira", responde Eliane. "Lutou pela independência do Brasil, mas terminou delatado, enforcado e esquartejado. Amanhã (hoje) é feriado em sua homenagem", respondem corretamente Edvaldo e William Brito.


FIQUE POR DENTRO
Joaquim José da Silva Xavier, ou Tiradentes, recebeu o título de Mártir da Independência do Brasil, nasceu no 12 de novembro de 1748, na Fazenda do Pombal, próxima ao arraial de Santa Rita do Rio Abaixo, entre a Vila de São José, hoje Tiradentes, e São João del-Rei. Ficou órfão aos 11 anos, não fez estudos regulares e ficou sob a tutela de um padrinho, que era cirurgião.

Dedicou-se às práticas farmacêuticas e ao exercício da profissão de dentista, o que lhe valeu o nome Tiradentes. Trabalhou para o governo no reconhecimento e levantamento do sertão brasileiro. Depois alistou-se na tropa da capitania de Minas Gerais.

Insatisfeito por não conseguir promoção na carreira militar, alcançando apenas o posto de alferes, pediu licença da cavalaria (1787). Morou por volta de um ano na capital, período em que desenvolveu projetos como a canalização dos rios Andaraí e Maracanã para melhoria do abastecimento de água do Rio de Janeiro, porém não obteve aprovação dos projetos.

Esse desprezo fez com que aumentasse seu desejo de liberdade para a colônia. Em Minas Gerais, começou a pregar, em Vila Rica e arredores, a favor da independência do Brasil. Organizou um movimento aliado a integrantes do clero e pessoas de certa projeção social. O movimento ganhou reforço ideológico com a independência das colônias americanas e a formação dos Estados Unidos.

Fatores regionais e econômicos contribuíram também para articular a conspiração de Minas Gerais, pois na capitania começara a declinar a mineração do ouro. Os moradores já não conseguiam cumprir o pagamento anual de cem arrobas de ouro destinado à Real Fazenda, motivo pelo qual aderiram à propaganda contra a ordem estabelecida.

O sentimento de revolta atingiu o máximo com a decretação da derrama, uma cobrança forçada de 538 arrobas de ouro em impostos atrasados (desde 1762), a ser executada pelo novo governador de Minas Gerais, Luís Antônio Furtado de Mendonça, visconde de Barbacena.

O movimento se iniciaria na noite da insurreição: os líderes da inconfidência sairiam às ruas de Vila Rica dando vivas à república, com o que ganhariam a imediata adesão da população. Porém, antes que a conspiração se transformasse em revolução, foi delatada pelos portugueses Basílio de Brito Malheiro do Lago, Joaquim Silvério dos Reis e o açoriano Inácio Correia de Pamplona, em troca do perdão de suas dívidas com a Fazenda Real.

Visconde de Barbacena suspendeu a derrama e ordenou a prisão dos conjurados (1789). Avisado o inconfidente escondeu-se na casa de um amigo no Rio de Janeiro, porém foi descoberto por Joaquim Silvério. Preso, assumiu toda a culpa pela conjuração.

Na manhã do dia 21 de abril de 1792, o condenado percorreu as ruas do centro do Rio de Janeiro, no trajeto entre a cadeia pública e o largo da Lampadosa, atual praça Tiradentes, onde fora armado o patíbulo. Foi executado, esquartejado e salgado.

A cabeça de Tiradentes foi colocada dentro de uma gaiola, levada para Ouro Preto e exposta em um poste; suas pernas cravadas em postes na estrada das minas; e os braços levados para Barbacena. Com o sangue lavrou-se a certidão de que estava cumprida a sentença, e foi declarada infame sua memória. Essa conspiração ficou conhecida como Inconfidência Mineira.

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