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Fortaleza

BAR DO PEDIM

Recanto de boas histórias

Mariana Toniatti
da Redação

Numa rua que pouca gente sabe que existe, entre a Torres Câmara e a avenida Santos Dumont, uma confraria de amigos se reúne quase diariamente para jogar conversa fora, falar da cidade de antigamente e beber


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19/04/2008 15:29

O engenheiro Valder Magalhães, 63, anima as noitadas com seu violão e voz afinada (Foto: Natinho Rodrigues)
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O engenheiro Valder Magalhães, 63, anima as noitadas com seu violão e voz afinada (Foto: Natinho Rodrigues)

A velha casa de taipa sobrevive na rua escondida. Há poucos meses ganhou mão de tinta, piso novo e reforma no banheiro. Tudo bancado pelos freqüentadores apaixonados do Recanto do Pedim. O bar é simples. Mesa e cadeira de plástico, decoração feita de memórias, retratos dos amigos na juventude, fotos de quem já foi, nomes rabiscados na parede, cardápio reduzido e um alto astral permanente. O charme fica por conta dos detalhes preservados. Os troncos de carnaúba continuam sustentando as telhas originais, a parede tem as nervuras das construções de taipa e a fachada é a mesma de sempre. Ninguém sabe precisar desde quando a casa está ali, mas lá se vão pelo menos uns 40 anos.

As segundas-feiras são especiais. Dia de Clube dos Amigos da Segunda. "Para combater a ressaca do fim de semana", brinca Toni Amaral, 58, o único bebericando "água que passarinho não bebe". "Ciço não tem lógica", completa o poeta e memorialista Marciano Lopes, que faz troça quando a pergunta é quantos anos o senhor tem. "Isso é Ibope ou IBGE minha filha!?". Não que o grupo de intelectuais, engenheiros e boêmios só compareça no primeiro dia da semana. A freqüência é praticamente diária. É que na segunda-feira é de lei, em homenagem ao hábito do jornalista Milton Dias que brindava a segunda-feira em diferentes bares da cidade.

"Ele era um figura, contava as melhores histórias, tinha um papo fantástico, escreveu um livro melhor que o outro, foi um exemplo de vida. A gente tem saudade dele e essa é uma forma de homenageá-lo", diz o jornalista e advogado Claudio Pereira, 63, grande amigo de Milton, que morreu há 25 anos. Nas segundas-feiras, Nairo Régis costuma ser o único "sub-vinte" na roda. "Um amigo mora perto, passou de bicicleta, viu o bar e me avisou", conta o estudante de Direito, 23 anos. Às vezes ele leva de casa o aparelho de som com toca-discos e a coleção de vinis, interdita a mesa de sinuca e ganha pontos com os amigos graças a seleção das canções.

"Hoje começou com Elisete Cardoso, a divina", diz em tom de elogio Marciano Lopes. Seu antiquário fica de frente ao Recanto do Pedim. Há mais de 30 anos, Marciano bebe ali com os amigos. Antes mesmo do lugar ser oficialmente um bar.

"Era a gente que trazia a bebida pra cá. O Pedro vendia fruta e verdura, mas era mais caro que na Ceasa, vendia pouco. Foi aí que fizemos uma cota. Um trouxe 12 copos de cerveja, outro de uísque, alguém veio com uma garrafa de Campari, um freezer...". Virou bar. O engenheiro civil Marcos Baretta, tem 46 anos e aos 17 já bebia encostado no balcão do Pedrim. "Ele não alardeava, mas sempre teve uma caninha ali", conta. Pedro Rodrigues morreu em janeiro de 2005.

Paulo, seu filho, toma conta do lugar. "A gente respeita os horários do Paulim, né!? A turma sub-vinte é que fica até 2, 3 horas da manhã. A gente não agüenta mais não", sorri Narcélio Pinheiro, 58. Vanda, esposa de Paulim, é a cozinheira. No sábado faz mão-de-vaca. "É tradicional. O pessoal da vizinhança vem pegar as quentinhas", conta sentada na rede nos fundos da casa. Todo santo dia, ela e o filho acompanham Paulo. Começam o trabalho às 10 horas e só folgam no domingo. "Durante todo o dia tem gente. Eles moram por perto e quando vão resolver alguma coisa passam por aqui, tomam uma dose, demoram uns 15 minutos. É muito difícil entrar um desconhecido". Mas pode chegar. O Clube dos Amigos não é fechado. Mas só dura quem é bem-vindo.


Serviço:

Recanto do Pedim. Aberto de segunda a sábado, a partir das 10 horas. Rua Jorge da Rocha, 157, Aldeota. No sábado tem mão de vaca!


E-Mais

- Marciano Lopes é dono do antiquário que leva seu nome e já escreveu mais de dez livros, entre eles Royal Briar, A Fortaleza dos anos 40. Não bebe cachaça graças ao "terrorismo" da mãe. "Nasci no engenho e ela vivia dizendo que cachaça era coisa de gente errada. Ficou aquilo na cabeça", ri. Prefere cerveja gelada.

- Claudio Pereira é o único que tem lugar marcado no encontro do Recanto do Pedim. Chega em sua "cadeira-voadora" e tem direito à cabeceira. Foi ele que resgatou o Clube dos Amigos de Segunda, há menos de um ano. Merece as honrarias da casa. Sente falta de gentileza. "A cortesia acabou. Nos bailes, para dançar com alguém era: senhorita me dá o prazer dessa dança? Muito educado. Jamais você parava, ela que tinha que se cansar. E as serestas!? Eram uma produção. No Carnaval, juntávamos dez casais de amigos, todo mundo fazia uma camisa igual e pronto", recorda. Foi secretário de cultura durante 12 anos e no último mês "comemorou 50 anos de rum".

- Como todo boteco, o Recanto do Pedim também já teve visita ilustre. Silvio Caldas passou por lá e deixou o autográfo na parede. "Só que o o Pedrim era desligado dessas coisas, pintou a parede e apagou a assinatura", conta Paulo Parente Costa, 61, engenheiro civil. A esposa de Pedrim era babá de amigos de Paulo que nem lembra ao certo quando começou a freqüentar o recanto. "Tiraram o canto do Zé Honório? (antigo cliente) Tinha cupim, mas já botei veneno", comenta. Cada freguês é um pouco "dono" do bar e toma conta do lugar.


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