Yanna Guimarães
da Redação
Há pouco mais de um ano, O POVO contou a história do casal cearense João Carlos e Solange Lima. Eles deixaram a vida de empresários para se aventurarem em uma volta ao mundo de barco com as duas filhas. Só que o barco quebrou e a viagem terminou mais cedo
15/03/2008 14:16

Foi a bordo do Casulo que a família Lima teve a experiência mais incrível de toda a sua história, pelo menos por enquanto. Em cinco meses, o engenheiro civil João Carlos Sales de Lima, 50, e a administradora Solange Macedo Lima, 37, juntamente com as pequenas Luana, 7, e Marina, 6, visitaram mais de 50 cidades diferentes na costa de três países: França, Portugal e Espanha. A idéia era navegar por seis meses, mas, um mês antes do previsto, o barco quebrou. Nada que desanimasse a família, que aproveitou a deixa para visitar os familiares e amigos em Fortaleza e sonhar com a continuação do roteiro, que desta vez leva ao Leste europeu já no início do próximo mês.
Mas por que Casulo? "É a transição de dois estilos de vida diferentes no mesmo animal", responde João. E assim como acontece com a lagarta, a segunda fase da vida tem mais liberdade e beleza. A família voltou com uma grande bagagem de histórias para contar. E de lições aprendidas no tempo que passaram longe de tudo. Principalmente do estresse. "Aprendemos a valorizar o silêncio, a solidão e a escuridão. Hoje tá todo mundo ocupado demais. A gente tá tão vinculado à hora, que ela é quem manda. No barco não tem isso. A gente adquire muito respeito à imensidão. Vemos que não estamos no controle e o quanto somos pequenos em relação ao universo", descreve Solange.
Antes de viajarem, alguns amigos chegaram a dizer que seria muito perigoso. E realmente, tudo feito durante a estada no barco requer muito cuidado. "Só que lá, a gente consegue saber a previsão do tempo, sabe se vai ter uma tempestade daqui a duas horas. Aqui, não". João completa e diz que no barco não há chance para erros. "Você tem que tomar a decisão correta e no tempo certo". No momento em que o Casulo quebrou, isso foi essencial. Luana, a filha mais velha, ficou com medo. "Eu pensei que a gente ia ficar lá parado para sempre", conta. O episódio ocorreu em Gibraltar, no sudoeste da Espanha. O carregador do barco falhou, o que deixou-o sem motor em pleno mar sem vento.
"Tínhamos duas opções. Ou aproveitávamos a corrente que estava levando para a África, ou economizaríamos a carga da bateria para seguir à Espanha". João conseguiu dosar exatamente a carga até a chegada, mas foram sete horas à deriva antes de chegar em terra firme. "Imagine você ficar sete horas sem saber o que iria acontecer? Foi muito difícil", lembra Solange. Outro momento complicado foi em Cascaes, em Portugal, onde quase perderam o Casulo. As meninas pediram para ir ver um filme na cidade. A família resolveu ir e deixou o barco ancorado no mar. Na volta, não conseguiram enxergar o barco e decidiram dormir em um hotel. Só que não havia vagas. Encontraram um restaurante de brasileiros que os acolheram.
No dia seguinte, o barco estava na praia. Tinha sido resgatado pela Guarda Costeira. "A viagem poderia ter acabado ali. O barco ficou a deriva, se você encontra um barco nesse estado, ele é seu", conta Solange. Mas os momentos difíceis não desanimam a família. "São lições". Lembranças que ocupam o mesmo espaço que o gosto das frutinhas laranjas que nenhum deles sabem o nome. Encontraram na ilha de Mallorca. "Eram deliciosas", diz Marina. Ou dos novos amigos e das culturas completamente diferentes encontradas em cada local visitado. Tanto para João, como para Solange, o mais difícil é voltar à vida real. "Quando temos que retornar para fazer a mesma coisa é que percebemos que tudo está errado, poderia ser diferente. Queremos tirar a essência dessa experiência e aplicá-la na vida cotidiana para sensibilizar as pessoas que é possível levar uma vida alternativa, mais feliz e melhor".
PRÓXIMO ROTEIRO
No primeiro roteiro, a família saiu de San Jean, na França, onde receberam o barco novo. De lá, seguiram pela costa de Portugal e Espanha. Visitaram mais de 50 localidades. A viagem continua no dia 3 de abril, quando a família segue para Portugal e viaja de carro para a Espanha.
No meio do mês, retomam o roteiro interrompido pelo barco que quebrou. Partem de Barcelona, passarão por Menorca, Sardenha, Sicília, Ilhas Gregas e Turquia. A aventura deve durar cerca de seis meses. Depois disso tudo, seguirão para a África.
A VIAGEM
No início da viagem, o casal conta que os sonhos eram sobre a infância deles. "Você volta muito para o começo. Fizemos um resgate do passado", relata Solange. João, aproveitou a oportunidade para dar mérito a sua mulher. "Eu fui preparado. Mas foi ela que esteve lá, juntamente com as nossas filhas. Sempre do meu lado. É muita confiança".
Em um dos dias da viagem, Marina, a filha mais nova, caiu na água. "Foi muito complicado", lembra Solange. A jaqueta salva-vidas, sempre usada pelas crianças, facilitou o resgate. "Elas sempre ficam com os coletes. Como brincam no barco, correm ao redor dele, é uma forma de garantir a segurança". As visitas também usam colete.
Durante a viagem, Solange sentia falta de não ter que passar tempo demais na cozinha e ter que calcular quanto tempo a comida ia durar. "Aqui é tudo mágico. Você vai em um restaurante, os pratos já estão limpos e a comida já está pronta. Você come e não precisa lavar o prato, tirar a mesa. Você tem tudo à mão".
Por enquanto, o casal está sem casa. Venderam quando decidiram viajar. "Estamos morando esses meses na casa da mãe do João". O futuro sobre essa questão ainda é incerto. Solange só sabe que não quer mais morar em apartamento. "Todo mundo mora em prédios, andam nos carros com ar-condicionado, trabalham em lugares fechados. Nem sabem se choveu ou fez sol durante o dia. Quando voltarmos a morar aqui, queremos uma casa com espaço amplo e muitas plantas".
Uma pergunta recorrente é "como eles se sustentam?". Ao longo da vida, foram comprando imóveis com o dinheiro economizado. Hoje vivem do aluguel arrecadado. "Mas tivemos que reduzir muito as despesas e aprenderam a viver com o pouco", enfatiza Solange.
João conta que, no barco a manutenção é você. "Você é o faz tudo. Se quebra alguma coisa, é você que tem que ajeitar. Você pode fazer um armário, consertar alguma coisa. Nossa educação é primaria. De que a gente não pode aprender coisas simples, básicas".
No mar, a música é uma grande companheira. "A gente podia repetir a música se quiséssemos. O barco nos permite viver uma coisa de cada vez. Aqui, a gente está fazendo uma coisa, o telefone toca, a gente já precisa sair", destaca Solange.
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