No ano passado, cerca de 400 barracos foram derrubados no entorno da Lagoa do Papicu. Segundo a Prefeitura, eram construções feitas para forçar o cadastro no programa de habitação para os moradores antigos da comunidade do Pau Fininho
14/03/2008 00:32
De janeiro pra cá, a favela se formou no terreno colado à avenida Dolor Barreira, nas Dunas, quase em frente à Igreja Nossa Senhora de Lourdes. A história começou mais cedo, lá embaixo, na favela do Pau Fininho. Em janeiro do ano passado, O POVO noticiou a derrubada de casebres construídos na comunidade que ocupa o entorno da Lagoa do Papicu há cerca de 10 anos. A ação da Secretaria Executiva Regional (Ser) II respondia à especulação imobiliária criada com o anúncio do projeto de construção de 478 unidades habitacionais para as famílias residentes no Pau Fininho. Novos casebres começaram a surgir da noite pro dia. A derrubada de cerca de 400 construções não intimidou os invasores e a ocupação só fez aumentar.
Hoje, no topo da duna que fica atrás da lagoa, mais 87 famílias reivindicam entrar no projeto, orçado em R$ 14 milhões. Na porta de cada uma delas, se vê um "X" riscado de vermelho. "Foi o pessoal da regional que já demarcou quem tem direito", diz a dona de uma casa marcada. Mas não são só elas. Na ponta do terreno, além dos casebres já levantados, pedaços de pau e plástico demarcam novos lotes que devem ser ocupados. Por ali, já se fixaram cerca de 200 famílias. "Se tirarem a gente daqui sem dar nenhum direito, nós vamos pra onde?", pergunta Leonardo Gomes, 21, que mora com o irmão na ocupação há três meses. Todos têm o mesmo discurso. As 87 famílias que alegam morar há mais de um ano no local estão mais próximas da Igreja Nossa Senhora de Lourdes.
A energia vem de um poste da avenida. A ligação clandestina passa por baixo do asfalto. É comum ocorrer faíscas nos fios do poste e da "central", o casebre que distribui energia entre os barracos. Ontem, durante a visita da reportagem, cortaram um fio com alicate para interromper um curto-circuito. "São todas casas de plástico, madeira e papelão. Se uma faísca pega num deles, imagine a tragédia! Entendo que vale qualquer coisa quando não se tem onde morar, o que não entendo é o descaso do município", diz Claudeci Cavalcante, moradora das Dunas há três anos. Ela conta que flagrou uma senhora carregando sacos plásticos com fezes para despejar na encosta do morro. Detalhe, toda a área em volta da Lagoa do Papicu é de Preservação Ambiental.
Em janeiro de 2007, a Prefeitura derrubou 100 barracos que não abrigavam ninguém, funcionavam apenas como fachada para justificar o cadastro no projeto da Fundação de Desenvolvimento Habitacional de Fortaleza (Habitafor). A Ser II disse que ia reforçar o monitoramento da região para evitar novas ocupações, mas não conteve o avanço da favela. Em dezembro, o assunto virou novamente matéria no O POVO. O número de barracos derrubados passou a ser 400, mas a invasão já começava a subir em direção à avenida Dolor Barreira. No último dia 5, o juiz Francisco Martônio Pontes de Vasconcelos, da 3ª Vara da Fazenda Pública concedeu uma medida liminar exigindo a expulsão das famílias não cadastradas pela Prefeitura no levantamento feito em fevereiro de 2007. (Mariana Toniatti)
E-MAIS
Em janeiro de 2007, quando foram feitas as primeiras demolições na favela do Pau Fininho, o assessor técnico da Defesa Civil da secretaria, Daniel Joca, afirmou que as casas estavam sendo construídas e vendidas por preços entre R$ 300,00 e R$ 1 mil.
Moradores do bairro denunciam a presença de "seguranças" durante a noite eles protegeriam os barracos vazios, de fachada, durante a madrugada.
Uma equipe de filmagem contratada pela Prefeitura foi roubada na quarta-feira dessa semana na área da favela próxima à Igreja Nossa Senhora de Lourdes. O equipamento foi poupado. Os ladrões levaram objetos pessoais.
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Em simples palavras o que ocorre é o seguinte: a Prefeitura diz que derrubou "trocentos" barracos, mas outros "trocentos" surgiram. Acontece que isso não acontece da noite para o dia. Quem mora nas proximidades vê três ou quatro novos barracos surgirem a cada dia, sem que a Prefeitura nada faça. Nada contra os hiposuficientes, que aliás precisam mesmo ter aonde morar. Mas é obrigação da Prefeitura proibir a ocupação irregular de áreas urbanas, seja por ricos, seja por pobres. Houve e continua havendo omissão. Daqui a pouco veremos barracos na calçada da igreja. Será que essa senhora ainda vai ser reeleita?
Aristóteles Tavares Leite