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Fortaleza

na CAPITAL

Nomes poéticos e fáceis de guardar

Mariana Toniatti
da Redação

Rua do Alto Bonito, Alameda das Borboletas, Rua do Fim, da Saudade, Boa Noite. Elas estão rareando, mas num giro pela saudade ou numa conversa com um taxista, dá para descobrir nomes diretos


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14/03/2008 00:32

(Foto: DÁRIO GABRIEL)
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(Foto: DÁRIO GABRIEL)

O nome é rua do Alto Bonito e não precisa dizer mais nada. Fica do outro lado da rua do Mirante, lá em cima do Morro Santa Teresinha. Dali se vê o horizonte no mar. Os cataventos gigantes da Praia Mansa ficam pertinho e na encosta do morro, a areia é prova do tempo em que tudo era duna. Os meninos aproveitam a sombra para consertar a rede de pesca. "Tem nome melhor não", sorri Fabrício Souza, 16. Na vizinhança a sabedoria popular batizou as ruas com nomes que falam do lugar.

A avenida dos Jangadeiros é a maior do morro, que nasceu como reduto de pescadores e ainda hoje é endereço de muitos. Subindo, a poesia continua. Rua do Sol Nascente, Córrego das Flores, Areia Branca, Estrela do Mar... Nomes singelos, fáceis de guardar e carregados de sentido. "É a cidade tecida e construída pela relação dos sujeitos que nela habitam", celebra o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Tadeu Feitosa. Tem nome de gente também, mas é gente conhecida dos moradores.

"Aida Balaio foi uma professora daqui muito boa para a comunidade. O Chicó Bindá era pescador, um dos primeiros a chegar, desapareceu no mar", vai explicando Manoel Wilton, 55, nascido e criado no morro. O troca-troca matou muitos nomes originais, nascidos espontaneamente, em outros pontos da cidade. "Pegam a rua do Lírio, do Sol Nascente e dão o nome de uma pessoa", lamenta José Bispo Neto, operador de triagem e transbordo dos Correios. Mas ainda dá para descobrir ruas com nomes lúdicos na cidade como a rua do Fim, na Serrinha.

Ela é a última do bairro, faz divisa com o Dias Macedo. "É o fim da linha de ônibus, chegou aqui não tem jeito, acabou, é o fim", diverte-se a moradora Verenice da Silva, 40. Ananias de Abreu, 74, chegou em 1941 e já encontrou a rua com esse nome. "Se mudassem ia ser como a (avenida) Paranjana, que todo mundo ainda chama de Dedé Brasil", diz. Aos nomes que querem dizer àquilo que são, juntam-se nomes de pessoas que realmente tiveram a ver com a história do local.

O professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), Eduardo Amaral, fez uma extensa pesquisa sobre o assunto e descobriu que na periferia muitas ruas levam o nome do primeiro morador e de figuras populares. "Tem nome de parteiras, de líderes comunitários. Não resta dúvida que nomes assim trazem um forte sentimento de identificação, mas isso fica mais entre os mais velhos. A cidade muda muito rápido e o nome se banaliza", diz Eduardo. Chegam pessoas de outros lugares, nascem outras gerações e o nome perde significado.

A memória daqueles personagens da história da rua ou do bairro não sobrevive a três gerações. A dinâmica dos tempos pós-modernos também não ajuda a forjar novos nomes assim. "Hoje a ocupação urbana é muito rápida, não dá tempo de se criar uma história em torno daquele lugar. Temos que preservar o máximo que temos", diz o deputado estadual Lula Morais (PCdoB). "Que botem nomes novos nos bairros de ruas que são letras ou números. Aquilo sim é um horror!", sugere Eduardo. De preferência, com um nome que não seja da mãe do fulano de tal.

Resumo da série
Durante uma semana O POVO discutiu as freqüentes mudanças de nomes de ruas operadas pelos vereadores de Fortaleza e as implicações culturais e práticas disso. Na primeira matéria, um dado que confirma a displicência na conservação dos nomes originais, duas ruas costumam mudar de nome todo mês em Fortaleza. Na seqüência, vieram matérias sobre as inúmeras ruas que têm vários nomes, mas não mudam sua configuração; a existência de ruas com nomes repetidos, inclusive dentro de um mesmo bairro; e as ruas que mudam completamente de traçado, mas mantêm o mesmo nome. As trapalhadas que isso provoca no dia-a-dia dos moradores são contornadas no cotidiano, mas vão contra a preservação da memória e o aprimoramento do planejamento urbano.

FALA, INTERNAUTA

"Um caso interessante é o da avenida dos Expedicionários, que começa no cruzamento com a 13 de Maio e vai até o muro do Aeroporto, depois faz um contorno, passando pelo Montese, Itaoca até chegar na avenida Senador Carlos Jeireissati, próximo ao novo Aeroporto, e a partir daí reinicia seu trajeto até o Conjunto José Walter. Resumindo, são duas avenindas completamente distintas pois há uma significativa interrupção. Essa avenida merecia sim, ter o nome de um de seus trechos alterado, até por que o nome Expedicionários não representa algo significativo para a cidade de Fortaleza".
José Roberto Lopes Teixeira

"Se tenho um comércio numa rua que muda de nome, é como se tivesse realmente mudado meu ponto. Preciso de um aditivo na junta comercial, o que implica burocracia e custo, e tenho que mandar um inventário do estoque de mercadoria para a Secretaria da Fazenda do município. Depois o fiscal ainda tem que vir aprovar. Tudo isso sem sair do canto! Nisso os vereadores não pensam! Que pelo menos façam um projeto de lei acabando com essa 'burrocracia'".
Vicente de Paula Souza

"Mas aquele antigo aldeamento da foz do rio Ceará não se extinguiu, passando a ser conhecido, através dos anos, como Vila Velha, tradição que infelizmente se perdeu. E não tem sido sempre assim? Não existe mais o Couqueirinho, porém o bairro Amadeu Furtado; não mais Marupiara, porém Demócrito Rocha; não mais Mata Galinha, porém Dias Macedo etc. Não que essas personalidades desmereçam a homenagem recebida, que deveriam ter sido prestadas em logradouros novos, sem sacrifício das antigas, apropriadas e belas denominações." Trecho do livro "História abreviada de Fortaleza", de Mozart Soriano Aderaldo, Imprensa Universitária da UFC, 1974

E-MAIS

Durante muitos anos da década de 80, O POVO publicou a coluna "A História do Ceará Passa por Esta Rua". Toda semana, uma figura que dá nome as ruas da cidade tinha sua biografia contada no segundo caderno, o de cultura, que mais tarde ganharia o nome Vida & Arte. Nos primeiros anos, o projeto era feito pelo jornalista Rogaciano Leite Filho. Com sua morte, quem assumiu a coluna foi Angela Barros Leal. O trabalho resultou na publicação de dois volumes, o primeiro assinado por Rogaciano e o segundo por Angela, pela Fundação Demócrito Rocha. As últimas páginas contam com cada rua surgiu, contando também um pouco da história de Fortaleza.

No Alagadiço Novo existe a rua Lady Laura. Lady quem? Lady Laura, mãe do Roberto Carlos.


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marianatoniatti@opovo.com.br

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  • 14/03/2008 00:32:37 - Flores

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Dois fatores motivam a maior parte das mudanças de nomes de logradouros: 1)puxa-saquismo dos outotgantes; 2)a perda de importância que alguns nomes sofrem com o decorrer do tempo. Principlamente aqueles que não eram detentores de grandes méritos para a homenagem.

Comentarista Brasil

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Não vejo vantagem em trocar nomes de ruas que são conhecidas por letras ou números. Essa sistemática facilita a localização.

Comentarista Brasil

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Esta materia é muito importante porque nos faz lembrar dos Bairros antigos, de ruas em que caminhamos em nossa infância e que hoje sob o novo nome pesa uma história de muitas vidas que por ali passaram,como exemplo tem uma Rua no Bairro da Parangaba que hoje ela chama-se Perdigão de Oliveira, na minha infância era Beco Novo. Que saudades!

Sandra Milva de Souza Belarmino

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É verdade, e com essas mudanças vamos perdendo as nossas lembranças e origens, eu conheci no bairro de Otávio Bonfim, hoje Farias Brito, uma rua como o nome de Rua Cambirimbas, depois passou a ser Agapito dos Santos e depois, a Câmara Municipal à batizou de Rúbia Sampaio, que era a genitora do então vereador Herval Sampaio, diga-se de passagem, esta senhora nunca residiu na rua, nunca fez nenhuma obra em benefício da rua, por que o seu nome foi então votado para substituir o nome da antiga rua e não o nome de um morador antigo, que muito tenha feito pelo local? Assim é que vamos perdendo as nossas origens e esquecendo a nossa história. Como era gostosa nos lembrarmos das Rua das Flores e tantas mais que nossos filhos nunca ouviram falar, mas que foram simbolos da nossa tradição e história.

Euglaudston Celestino

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Um vereador que se presta a mudar nome de rua, realmente é muito descomprometido com a história da cidade.

Fernando Cidrão

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