Fortaleza
80 ANOS
Ponte Metálica entre o abandono e a beleza
A Ponte Metálica padece no mar da Praia de Iracema. Abandonada, se desfaz pouco a pouco depois de 80 anos desde sua reinauguração. O olhar atento encontra detalhes do passado e a vista se esbalda com a imensidão do mar e o perfil da cidade de praia
Mariana Toniatti
da Redação
23 Fev 2008 - 15h32min
Os ferros retorcidos vão rasgando o concreto que já caiu em vários pontos da cobertura e do parapeito. Duas colunas que fixam a estrutura no mar caíram. De longe parece que não restou nada do passado, mas olhando com cuidado as surpresas vão aparecendo. Alguns dormentes do antigo trilho estão lá, inteirinhos. "Os vagões de carga pegavam a mercadoria, iam bater na Alfândega, o prédio de pedra onde fica a Caixa Econômica, e de lá seguiam para a Estação João Felipe", conta o memorialista Miguel Angelo de Azevedo, o Nirez.
O caminho deixou outros rastros. Ao lado da Secretaria da Fazenda é possível ver o trilho em perfeito estado. Em frente ao Marina Park Hotel também. "Ele atravessa aquela avenida, mas debaixo do asfalto", diz Nirez. De volta à ponte e ao passado, na lateral esquerda, dentro d'água, resistem as colunas que sustentavam a plataforma de embarque e desembarque. No teto, a marca de um lustre atiça a imaginação. Como terá sido o vai-e-vem quando o porto funcionava?
Mais afastada, uma outra plataforma, onde antes ficavam os guindastes que carregavam e descarregavam navios, não tem mais ligação com a ponte. As máquinas foram retiradas em 1954, anos depois da Ponde Metálica ser substituída pelo Porto do Mucuripe, que começou a funcionar em 1947. A praia rasa fez a ponte ser desativada. Os navios tinham que atracar longe. Eram os catraieiros que levavam os passageiros até terra firme em pequenos botes. "Não havia condição de cavar a ponto de entrar navio", diz Nirez.
Daí o fracasso do primeiro porto, mesmo com a insistência de quem investiu na área, construindo armazéns e galpões que até hoje fazem parte da paisagem da região. Agora a ponte jaz no mar verde. Virou uma espécie de esconderijo dentro da cidade, completamente esquecida, lugar seguro para quem quer usar crack. "Antes, se tinha droga, era só maconha. O pessoal vinha curtir o pôr-do-sol, não tinha esse clima pesado", diz Vicente Hoslande Freire, nascido e criado na Praia de Iracema.
Os casais foram embora. Os pescadores resistem. Geralmente são conhecidos na área e não abrem mão do lugar privilegiado de pescaria. Mas os freqüentadores mais assíduos são mesmo os usuários de crack. Terça-feira de manhã, dois homens admiram o mar e três, sentados no chão, parecem disfarçar as latinhas furadas. Fortaleza adotou a Ponte dos Ingleses e apagou da memória a verdadeira Ponte Metálica, primeira e muito mais importante na história da cidade. Nirez defende a restauração. "Totalmente abandonada há mais de 50 anos e ainda de pé".
Romeu Duarte, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) no Ceará, desconfia que o processo de desgaste da ponte seja irreversível. "Você vê a ferragem exposta, é muito tempo sob efeito da maresia". Uma resposta definitiva só poderia vir de um laudo técnico. Se fosse possível recuperá-la, Romeu sugere que o lugar volte a servir à iniciação da garotada no banho de mar. "Muita gente aprendeu a nadar ali. Poderia ser feita uma ligação entre as duas pontes, formando um aquário". Ou que simplesmente volte a ser lugar de contemplação. O ao redor continua lindo.
SOBRE A PONTE
Na plataforma ficavam os guindastes que desembarcavam e embarcavam mercadorias nos navios. A estrutura era ligada à ponte.
Os passsageiros eram buscados de bote no navio, obrigado a atracar longe da ponte. Essas colunas mais baixas sustentavam a plataforma de embarque e desembarque. Na lateral esquerda e direita, ficavam as escadas.
Ainda é possível ver dormentes do antigo trilho. Os vagões transportavam a mercadoria do porto até a estação ferroviária, passando pela Alfândega.
E-MAIS
No dia 8 de abril de 1930, um pedaço da ponte quebrou no momento do embarque do deputado Manoel Moreira da Rocha. Muita gente caiu no mar, inclusive o próprio deputado e o então prefeito de Fortaleza, Álvaro Weyne.
A Ponte dos Ingleses foi construída depois da Ponte Metálica. A idéia era unir as duas dentro do mar, ampliando a estrutura do porto. A construção da ponte não foi concluída. Antes disso, o governo resolveu fazer o Porto do Mucuripe e a obra foi abandonada. "A gente olha os pilotis lá dentro do mar e acha que o que tinha em cima caiu, mas na verdade nunca foi feito nada ali", conta Nirez.
Antes da Ponte dos Ingleses, Fortaleza já tinha experimentado outras soluções para o embarque e desembarque de pessoas e mercadorias. O chamado mole de desembarque era feito de madeira e tinha uma extensão bem menor. Na pintura de Joaquim José dos Reis Carvalho, membro de uma comissão da Escola da Marinha que visitou o Estado em 1859, se vê a costa da Capital. O mole aparece numa área posterior à Ponte dos Ingleses. O original está exposto no Museu do Crato.
À noite a iluminação era feita com gás.
A ponte Metálica foi oficialmente batizada Ponte Desembargador Moreira da Rocha na segunda inauguração.
"Ao tempo do Governo Campos Sales, foi este o ilustre técnico encarregado de organizar o plano respectivo e dele apenas resultou a construção de um trapiche, levantado em frente ao novo edifício da Alfândega. Era um viaduto com estrutura de ferro e piso de madeira, a chamada ponte metálica, cuja construção, iniciada em 18 de dezembro de 1902, somente foi entregue ao tráfego em 26 de maio de 1906". Livro Geografia Estética de Fortaleza, de Raimundo Girão.
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