Demitri Túlio
da Redação
Justiça Federal condena mulher a 32 anos de cadeia por traficar duas cearenses para a Espanha. Anos antes de negociar com "escravas sexuais", a sentenciada havia sido vendida para Israel e, depois, Europa
03/11/2007 00:22
Os fatos a seguir se desenrolaram entre 1997 e 2007. Histórias de cearenses traficadas para o exterior e vendidas como escravas sexuais. O fio dessa narrativa jornalística parte do último para o primeiro capítulo do enredo. No roteiro da presente reportagem, anote o nome da carioca Rosana Pereira Martins, 35 anos, condenada a 32 anos de cadeia por traficar mulheres para a Espanha. E esquadrinhe, também, uma rota feita entre o Oriente Médio, Europa e Brasil. Um labirinto entre o Rio de Janeiro, Israel, Espanha e Fortaleza.
No episódio mais recente, em setembro último, o juiz federal Danilo Fontenelle Sampaio, responsável pela Vara Especializada no Combate ao Crime Organizado e Lavagem de Dinheiro, considerou Rosana Martins culpada por ter "vendido", na Europa, as cearenses Ariadne e Perséfone para o espanhol Benito Ordas Garcia. O europeu é dono de Hollywood, um puteiro cosmopolita sediado na cidade das Astúrias, na Espanha. Ariadne e Perséfone são nomes fictícios criados pelo O POVO para preservar o anonimato das vítimas. Propositalmente, foram extraídos da mitologia grega e fazem alusão à história de mulheres "roubadas" (ler quadro).
A sentença, assinada pelo juiz Danilo Fontenelle, poderia ser mais uma peça condenatória expedida contra quem faz tráfico de seres humanos para fins sexuais, não fosse um detalhe curioso. Rosana Martins, que mora na Espanha e hoje é uma procurada da justiça brasileira e pela polícia internacional, a Interpol, antes de ser condenada como cafetina e agenciadora de mulheres, também foi vítima da mesma modalidade de crime que cometeu.
Durante um depoimento à Justiça Federal em Fortaleza, Rosana Martins negou ter sido favorecida pela prostituição de Ariadne e Perséfone. As três, por sinal, são primas legítimas. No entanto, ao revelar detalhes de sua vida para tentar provar inocência, acabou presa no mesmo labirinto onde um dia foi confinada e, depois, enfurnou as duas cearenses.
O envolvimento de Rosana com a máfia do tráfico de pessoas começou em 1997, quando foi convidada, aos 25 anos, por duas amigas no Rio de Janeiro, para trabalhar como bailarina em Israel. Na versão dela, após ser obrigada a se prostituir no Oriente Médio, e depois de aprender algumas palavras em hebraico, conseguiu ajuda no consulado brasileiro e voltou ao Brasil. Deixou Israel graças a um salvo-conduto, já que é praxe nos prostíbulos confiscarem a documentação das vítimas.
No Brasil, Rosana Martins voltou a morar no município de Ricardo Albuquerque, na Baixada Fluminense (RJ). A condição de miséria e penúria, segundo palavras dela, teria feito a carioca (filha de cearense) aceitar novo convite para trabalhar no exterior. Simone, uma das agenciadoras que a levou para Israel, prometeu emprego na Espanha. A diferença é que Rosana, dessa vez, sabia que iria se prostituir.
No fim de 1998, Rosana Martins deixou a casa de quarto e cozinha, a mãe, duas irmãs e dois sobrinhos e seguiu para Badajos no sul da Espanha. Lá, trabalhou no clube Arango I e, dois meses após, foi vendida para o prostíbulo de Benito Ordas Garcia na cidade de Llanes. O mesmo Benito que em 2001 comprou das mãos de Rosana as primas Ariadne e Perséfone.
Enquanto esteve no prostíbulo de Benito, a carioca teria trabalhado inicialmente para pagar 780 mil pesetas para o rufião. Dívidas oriundas das despesas que o cafetão teve ao trazer Rosana de Badajos para Llanes. Diariamente, a brasileira pagava pela estadia no cabaré - onde atendia das 21 horas até sair o último cliente.
Rosana Martins teria "pertencido" a Benito Ordas até o ano 2000 quando conheceu um policial espanhol que a ajudou a sair da prostituição. Ao juiz, ela contou que se casaram, tiveram duas filhas e, até a data do depoimento, trabalhava de cozinheira nos bares do tira.
(Leia a seguir, como Ariadne e Perséfone foram levadas por Rosana de Fortaleza para a Espanha).
E-MAIS
Ariadne e Perséfone, nomes fictícios usados na matéria, foram retirados da mitologia grega. Ariadne foi levada por Teseu (herói que matou o Minotauro) e depois abandonada. Já Pesérfone, filha de Demeter (Ceres) e Zeus, foi roubada por Hades, seu tio, e confinada no inferno. Helena, esposa do Menelau, foi raptada por Páris iniciando uma guerra entre os aqueos e Tróia. Na Ilíada, Homero conta a história.
O juiz Danilo Fontenelle, da 11ª Vara Federal, usou citações do livro "O ano em que trafiquei mulheres", do jornalista espanhol Antonio Salas (editora Planeta do Brasil Ltda). As situações descritas na obra narram fatos verdadeiros do submundo do tráfico internacional de mulheres e são semelhantes aos depoimentos das vítimas de Rosana Martins.
Por considerar Rosana Martins "traficante internacional experiente, com grave perigo à sociedade caso permaneça solta, podendo ainda retornar ao Brasil para ameaçar testemunhas e vítimas", o juiz não concedeu que ela permanecesse solta durante a apelação. até o momento, ela não foi presa e, conseqüentemente, nem extraditada.
Rosana Martins foi condenada por tráfico de mulheres e favorecimento à prostituição em sua forma qualificada de emprego e de fraude. Além da pena de 32 anos de reclusão, pagará multa de 266 dias/multa. Sendo cada dia calculado em um salário mínimo, ou seja, R$ 101.080,00.
O POVO tentou o contato com o Rosana Martins na Espanha, através de contato telefônico, mas não obteve retorno. O advogado, que mora no Rio de Janeiro, não foi localizado.
Fonte: site da Justiça Federal
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