Fortaleza
SÃO JOÃO
Amor pela tradição junina
O amor pelo bairro e pela tradição junina é o que motiva os organizadores dos grandes festivais de São João em Fortaleza, que, muitas vezes, gastam dinheiro do próprio bolso para não deixar a festa morrer
Yanna Guimarães
da Redação
23 Jun 2007 - 03h34min
Cumadre Chica sempre foi fascinada por São João. Fã de Luiz Gonzaga, ela tem a coleção completa de discos de vinil do cantor. "Se tocar uma música dele, eu já tô feliz e o festival já valeu a pena". Nascida em Senador Pompeu, a 275 quilômetros de Fortaleza, ela perdeu a mãe quando tinha apenas um ano. Foi criada pela irmã mais velha, que chama de mãe, e chegou à Capital aos 13 anos. "Sou louca por criança, por gente, por amizade. Como tive de batalhar cedo, aprendi a me virar sozinha. Deve ser por isso que gosto tanto da tradição junina, que é onde eu tô com muita gente". Ela ajuda a cuidar dos detalhes da festa, mas, hoje, deixa o trabalho pesado para os filhos. "Já trabalhei demais. Agora é a vez deles".
O mais velho, Jackson Maia, tira férias do trabalho em junho para se dedicar integralmente ao festival. Jacinta Maia, a mais nova, está tomando o lugar da mãe aos poucos. "É ela que resolve tudo". Quando o assunto é dinheiro, Cumadre Chica diz chegou a pedir contribuição em um pires, de porta em porta, para não deixar o "arraiá" morrer. Hoje, tudo é mais fácil. O festival ganhou força e conta com patrocinadores, mas nada que faça Cumadre Chica esbanjar dinheiro. "Já coloquei e ainda coloco dinheiro do meu bolso, ganhado com as confecções que eu fazia e vendia. Mas eu não reclamo, faço com gosto pela tradição e pelo bairro. Foi Deus que me deu esse arraiá. Ele também provou do que uma mulher só é capaz".
Ano passado, ela realizou um de seus sonhos. Conseguiu arrecadar seis mil toneladas de alimentos com o festival. "Foi lindo. Entreguei pra várias entidades. E esse ano tem de novo". Nos dois sábados do arraiá, é pedido um quilo de alimento não perecível na entrada.
A história do aposentado Mateus Alencar, 53, que criou o Festival São Mateus, realizado há 31 anos, 21 deles no Pirambu, é semelhante. Aos 13 anos ele já trabalhava em uma fábrica e acabou não tendo muito tempo de curtir a juventude. "Acho que é por isso que eu tenho tanto prazer, não aproveitei a infância", justifica. Mesmo assim, o gosto pela tradição junina começou quando criança. Aos 10 anos já soltava balão nas festas e aos 16, dançava nas quadrilhas. A idéia do festival surgiu para manter as duas quadrilhas que ele organizava. Hoje, os grupos não existem mais, mas o festival continua para manter a tradição.
"Casei duas vezes na minha vida. Uma, com 23 anos, com minha companheira Nair Paes de Alencar. A segunda foi um ano depois, quando me casei com esse trabalho cultural. É uma coisa que já veio no sangue". E a tradição passou para os filhos de Mateus. Toda a família ajuda a levantar a festa. No entanto, não há muita ajuda de custo. O Festival de São Mateus não tem patrocínio e para se manter cobra R$ 2 por pessoa na entrada. "É só a vontade mesmo de trabalhar. A gente gasta do próprio dinheiro". Ele conta que, na época que tinha as quadrilhas, teve de vender a TV e o vídeo para pagar o sanfoneiro. "Quando cheguei em casa, tinha sido cortada a água e a energia. Mas eu faço com prazer. Tudo pela comunidade e pela homenagem aos santos".
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