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Fortaleza

CENTRO CULTURAL

Auto Filho descarta desapropriar galpões do entorno do Dragão

Mariana Toniatti
da Redação

Encerrando a série sobre o entorno do Dragão do Mar, uma entrevista com o secretário estadual da cultura, Francisco Auto Filho, que exime o Dragão da responsabilidade de interferir nas atividades do entorno e a fala dos artistas que ainda resistem na área


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30/04/2007 02:27

SECRETÁRIO DA CULTURA, AUTO FILHO, diz que pesquisas constatam freqüência crescente no Dragão(Foto: Banco de dados)
SECRETÁRIO DA CULTURA, AUTO FILHO, diz que pesquisas constatam freqüência crescente no Dragão(Foto: Banco de dados)

Os artistas ainda insistem na desapropriação dos galpões do entorno do Dragão do Mar. Auto Filho, secretário estadual da Cultura, descarta a possibilidade. "O Estado não pode ser paternalista e nem tem grana para isso", disse em entrevista ao O POVO. A isenção fiscal, a exemplo do IPTU reduzido para os proprietários de imóveis do Centro que recuperarem a fachada original do prédio, pode ser uma alternativa à intervenção do Estado. Por enquanto, os galpões continuam desmoronando ou pela força do tempo, que corrói as paredes, ou pela força dos homens, que derrubam os antigos armazéns para construir prédios.

Auto é otimista quando se trata da relação entre os bares e restaurantes do entorno com o Centro. Acredita que a nova gestão pode aproximar os interesses. "O diálogo é o melhor caminho". Esse também seria o melhor momento para resolver os problemas de ordenamento urbano do entorno. "Com Prefeitura e Governo alinhados politicamente é hora de integrar ações e manter um diálogo". A seguir, um trecho da conversa.

O POVO - Que problemas você vê na relação do Dragão com seu entorno?
Auto Filho - Primeiro é a relação entre Estado e prefeitura que, como antes do nosso governo eram de partidos e de políticas diferentes, o diálogo era difícil e em certos casos impraticável. Agora é politicamente possível. O segundo problema é que você tem um equipamento público, portanto de acesso para todas as camadas da sociedade, mas devido às condições de extrema pobreza de amplos setores da sociedade, esse equipamento não interage fortemente com as comunidades do entorno que são favelados, desempregados e que estão no processo de marginalidade há muito tempo. A polícia não resolve isso. Claro que dentro dessa marginalidade social ocorre o fenômeno do crime e há um fácil apelo à polícia. Nós da cultura podemos oferecer colaboração, mas a solução está para além da cultura.

OP - A violência é um problema para além da cultura, certo. Mas se os espaços estivessem mais voltados para a cultura, razão de ser do Centro e primeira idéia de uso do entorno, o cenário poderia ser diferente, não? Com o entretenimento e o comércio de bebidas se sobrepondo ao projeto inicial a situação piora.
Auto Filho - Tem um problema na sua questão, separar de forma muito estanque cultura e diversão. Uma das principais funções da cultura, numa sociedade de massa alienante, é possibilitar momentos de relaxamento, catarse e lazer. A relação entre lazer e cultura é próxima. É claro que temos aí um lazer que não é emancipatório, ele é, se pudemos utilizar, um lazer relaxatório. Podemos fazer uma mediação mais tolerante. O Dragão é um centro cultural, não é responsável pela política de ocupação do bairro onde está situado. Aqueles espaços são privados, os seus proprietários ocupam da maneira que consideram mais adeqüada. A existência de bares e restaurantes é um direito constitucional da livre iniciativa, o Dragão não pode interferir ou impedir. O Estado tem uma responsabilidade, e procura cumprir na medida em que as condições econômicas possibilitam, que é ter criado e manter o Dragão. O Dragão está cumprindo sua competência, é muito freqüentado. Há uma impressão de quem passa lá certos horários de que é um equipamento muito pouco utilizado, mas pesquisas anuais constatam uma freqüência crescente. Não há crise de freqüência nem de realização.

OP- Mas há uma crise na relação entre o Dragão e seu entorno. Nem mesmo com os bares do calçadão existe um diálogo forte.
Auto Filho - Realmente falta diálogo e o estabelecimento de um pacto entre o Dragão e essas casas. Acho muito autoritário o Estado impor. O Estado não deve fazer intervenção autoritária para estabelecer um projeto, um modelo, aurido da cabeça dos tecnocratas. A relação entre o Dragão e os bares, restaurantes e casas de espetáculo pode ser resolvida por um pacto de colaboração com regras coletivamente definidas, discutidas democraticamente. É do interesse do Dragão que as pessoas circulem por lá e é de interesse deles que o Dragão funcione e tenha sucesso. Essa audiência (audiência pública realizada na última sexta-feira, 27 de abril) vai abrir um ciclo de diálogos entre os vários setores: Prefeitura e Estado, Dragão e outros equipamentos, poder público e população do entorno e poder público e freqüentadores. Os problemas podem ser resolvidos sem que o Estado tome uma decisão prévia, sem que elabore um modelo higiênico de assepsia social.

OP- Então essa primeira idéia de desapropriar os espaços e priorizar artistas, sebos, galerias... seria autoritária?
Auto Filho - Não é o Estado que vai abrir um sebo, é a iniciativa privada. Ninguém quis montar um sebo lá, percebe?

OP - Por que a especulação imobiliária foi demais. Aí caberia uma intervenção do público sobre o privado, não?
Auto Filho - A especulação imobiliária é um fenômeno absolutamente congênito ao capitalismo, se o Estado beneficia uma área, naturalmente essa área ganha valorização no mercado imobiliário. Imagina se o Estado faz um equipamento e para evitar a especulação imobiliária compra o entorno? Ele vai terminar expropriando a cidade toda. Num modelo ideal aquele deveria ser um bairro da cultura, mas o Estado não vai desapropriar para dar de presente para outro capitalista montar seu negócio. É o Estado que cria um sebo, uma loja de discos?

OP- Não. Poderia existir um aluguel revertido para o próprio Dragão ou uma linha de financiamento com o Banco do Nordeste.
Auto Filho - Isso é o banco que tem que fazer. Acho até que essas coisas foram levadas no começo do Dragão e o banco fez seu julgamento. Ele também é instituição capitalista. O Estado não pode ser paternalista e não tem recurso. Gastou uma soma enorme no Dragão do Mar para dar a Fortaleza um grande equipamento cultural, se for obrigado a comprar os equipamentos circunvizinhos, falta dinheiro. Temos que ter outros mecanismos, políticas públicas consignadas no Plano Diretor, se tivéssemos isso na época da construção, não precisava o Estado desapropriar. O problema é que, na história urbana de Fortaleza, o poder público não teve essa visão de planejamento a longo prazo.


RESUMO DA SÉRIE

Desde sexta-feira, O POVO publica uma série sobre o entorno do Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar. Foram temas de matéria os problemas de ordenamento urbano, questões ligadas ao trânsito e ao descompasso entre espaço público e privado; a violência da noite no Dragão; e o abandono do entorno, primeira área portuária da cidade.

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