Fortaleza
ESTAÇÃO FERROVIÁRIA
História da Parangaba ameaçada
Inaugurada em 30 de novembro de 1873 e repaginada pela última vez em 1941, a Estação Ferroviária da Parangaba é, junto com a Igreja Matriz, um dos prédios mais antigos da região. Ameaçada pela modernidade do futuro metrô, ela ainda é alvo de polêmica
Raquel Chaves
da Redação
11 Abr 2007 - 02h20min
A luta em defesa da Estação passou a integrar as comemorações de aniversário de Fortaleza, que completa 281 anos na próxima sexta-feira, 13. Amanhã, será realizada a abertura da exposição "A Estação e a Parangaba", no MAUC - Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC). No dia seguinte, será a vez de uma mesa-redonda com a participação dos órgãos e organizações envolvidos. Já no sábado, 14, ocorrerá uma trilha histórica pela Parangaba que será finalizada com um abraço simbólico na Estação (ver quadro).
A Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor) mantém nos arredores da Estação um imenso canteiro de obras. E promete construir, após sua demolição, o Memorial de Parangaba, utilizando parte do material original. O CPTEP e a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet) da Prefeitura são contra. "Não questionamos a competência do Metrofor em propor a obra (da Estação Metroviária da Parangaba). Questionamos o local em que ela está prevista para ser construída, defende o historiador Alexandre Gomes, integrante do CPTEP.
O imbróglio começou por conta da posição do Metrofor em implantar a estação aérea. Pelo projeto da companhia, um viaduto ligará a Vila Peri ao bairro Couto Fernandes, atingindo exatamente a estação da Parangaba. "Se não fizermos esse viaduto, teremos muitos problemas, porque aqui já existe um nó viário muito grande", diz o economista Fernando Mota, assessor da Presidência do Metrofor. Se o projeto for mudado, segundo ele, vai implicar em "problemas sérios de custos e de prazos". A estimativa da companhia é de um prejuízo de R$ 12,1 milhões.
Mota rechaça a utilização do termo "destruição". De acordo com ele, o metrô não vai simplesmente "destruir" a estação. "Essa palavra é muito forte. Entendemos a importância do equipamento histórico e nos preocupamos com isso. Ninguém vai tirar a estação dali a troco de nada. Vamos construir um Memorial ao lado". Fernando Mota não soube informar o valor estimado do Memorial, que será de responsabilidade do Metrofor.
Em agosto do ano passado, a Funcet iniciou o processo de tombamento da Estação Ferroviária da Parangaba que, conforme a diretora do Departamento do Patrimônio Histórico e Cultural do órgão, Ivone Cordeiro, já está em fase de conclusão, faltando apenas ser homologado. Ela explica ainda que, aberto o processo, é realizado uma pesquisa arquitetônica e histórica, de avaliação técnica do prédio. "Antes da comunidade pedir o processo ao Conselho (Municipal de Cultura), já tínhamos a indicação da Estação para tombamento. Não há dúvidas quanto ao valor histórico do prédio. O relatório está em fase de conclusão e aponta no sentido do tombamento", informa.
Ao iniciar o processo, o prédio já é considerado tombado, mesmo que não esteja concluído, por isso a Estação não pode ser demolida pelo Metrofor, avalia Ivone. A diretora afirma que a Funcet está aguardando o término do processo de tombamento para planejar algo para o local. O professor de português e técnico em Turismo Paulo Roberto Ferreira, 36, é um dos autores do pedido de tombamento. "Nasci na Parangaba e tenho família aqui. As pessoas queriam que houvesse uma revitalização no centro histórico". O pedido à Funcet foi feito em junho de 2006, tendo sido aceito dois meses depois.
De acordo com ele, com o decreto de tombamento, o Metrofor pode ser processado e obrigado a reconstruir integralmente a Estação caso a destrua. A proposta do CPTEP é reformar o prédio e construir, em seus quatro compartimentos, uma biblioteca, um memorial, uma sala de multimídia e uma sala de aula para cursos gratuitos à comunidade, na área de turismo e pré-vestibular.
(colaborou Rocélia Santos)
"Não há duvidas quanto ao valor histórico do prédio. O relatório está em fase de conclusão e aponta no sentido do tombamento" (Ivone Cordeiro, da Funcet)
SAIBA MAIS
Como é um processo de Tombamento?
O tombamento é uma ação administrativa do Poder Executivo, que começa pelo pedido de abertura de processo, por iniciativa de qualquer cidadão ou instituição pública. Este processo, após avaliação técnica preliminar, é submetido à deliberação dos órgãos responsáveis pela preservação. Caso seja aprovada a intenção de proteger um bem cultural ou natural, é expedida uma notificação ao seu proprietário. A partir desta notificação o bem já se encontra protegido legalmente, contra destruições ou descaracterizações, até que seja tomada a decisão final. O processo termina com a inscrição no Livro Tombo e comunicação formal aos proprietários.
Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)
ESTAÇÃO ANTIGA
- Situado à rua Dom Pedro II, s/n
- Em 29 de novembro de 1873, deu-se a inauguração oficial do trecho ligando Fortaleza a Arronches, hoje Parangaba, com 7,559 quilômetros, a 26,814 metros acima do nível do mar, sendo o trecho e a estação inaugurados ao mesmo tempo. A Estação Central João Felipe foi inaugurada em 30 de novembro de 1873. A locomotiva Fortaleza realizou a primeira viagem de trem sobre o trecho da Estrada de Ferro.
- A primeira estação de Arronches foi demolida, sendo reconstruída em 1927, segundo projeto do engenheiro Estêvão Mansueto, apresentando características da arquitetura residencial européia, aqui adotada na década de 20.
- O prédio sofreu nova reforma em 1939, para a construção da linha do Mucuripe, sendo inaugurado em 28 de janeiro de 1941, sob a gerência da Rede de Viação Cearense (RVC), contando também com supervisão posterior - 1957 a 1998 - da Rede Ferroviária Federal (RFFESA).
- A Estação é, junto com a Igreja Matriz da Parangaba, um dos prédios mais antigos do bairro.
- Por conta do Decreto Municipal 12.099 de 21 de setembro de 2006, a estrutura está em processo de tombamento.
Fontes: Pesquisador Paulo Roberto Ferreira e Funcet
MEMORIAL DE PARANGABA
Proposta de arquitetura, urbanismo e paisagismo
. No lugar da velha edificação, será gravado no piso em concreto a informação da planta original, com suas partições e vazaduras.
. Na área a leste remanescente do atual terminal de ônibus urbano, será implantado o Memorial. O edifício é uma estrutura em perfis "I" em aço patinável. Vedado com painéis de vidro de segurança, apresenta e aproveita conjuntos de elementos construtivos originais, tais como a coberta, a estrutura metálica dos telhados e as esquadrias.
. No interior, será implantada uma exposição referencial sobre Parangaba e a sua estação.
. Arborização proposta é de grande porte.
. A área disporá também de mobiliário urbano adequado.
. Materiais escolhidos: cimentado esponjado, cerâmica, paralelepípedo.
MOVIMENTO PRÓ-TOMBAMENTO DA ESTAÇÃO
Amanhã, dia 12 de abril
Abertura da exposição "A Estação e a Parangaba", no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (MAUC), durante a manhã.
Sexta-feira, dia 13 de abril
Debate/mesa-redonda: "A preservação da Estação da Parangaba: patrimônio, conflito e memória", com a participação do Metrofor, Funcet, Iphan, CPTEP e projeto "Historiando a Parangaba". Às 15 horas, no auditório do Departamento de História da UFC.
Sábado, dia 14 de abril
Realização de uma trilha histórica pela Parangaba, com início às 8 horas na praça da Matriz e finalizando na Estação da Parangaba, onde será dado um abraço simbólico à edificação. Movimento de repúdio à demolição da Estação
Informações
Departamento de História da UFC - Campus do Benfica. Avenida da Universidade, 2.762. Fone: (85) 3366-7742. E-mail: estacaoparangaba@yahoo.com.br.
Fonte: Metrofor e CPTEP
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