Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Fortaleza

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA

História da Parangaba ameaçada

Raquel Chaves
da Redação

Inaugurada em 30 de novembro de 1873 e repaginada pela última vez em 1941, a Estação Ferroviária da Parangaba é, junto com a Igreja Matriz, um dos prédios mais antigos da região. Ameaçada pela modernidade do futuro metrô, ela ainda é alvo de polêmica


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

11/04/2007 02:20

UM CANTEIRO de obras já foi montado no entorno da Estação da Parangaba. No local, será construído pelo Metrofor um memorial(Foto: ALCIDES FREIRE)
UM CANTEIRO de obras já foi montado no entorno da Estação da Parangaba. No local, será construído pelo Metrofor um memorial(Foto: ALCIDES FREIRE)

Ele começou a fazer barulho desde junho do ano passado. Dois meses depois, conseguiu iniciar um processo de tombamento para não deixar morrer um pedacinho de Fortaleza que guarda mais de 130 anos de história: a Estação Ferroviária da Parangaba. Com uma forcinha aqui, outra acolá, o Comitê Pró-Tombamento da Estação da Parangaba (CPTEP) grita para tentar barrar o que está por vir: a demolição do prédio que data de 1873 e que passou por intervenções e reformas até ganhar sua última repaginada, em janeiro de 1941.

A luta em defesa da Estação passou a integrar as comemorações de aniversário de Fortaleza, que completa 281 anos na próxima sexta-feira, 13. Amanhã, será realizada a abertura da exposição "A Estação e a Parangaba", no MAUC - Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC). No dia seguinte, será a vez de uma mesa-redonda com a participação dos órgãos e organizações envolvidos. Já no sábado, 14, ocorrerá uma trilha histórica pela Parangaba que será finalizada com um abraço simbólico na Estação (ver quadro).

A Companhia Cearense de Transportes Metropolitanos (Metrofor) mantém nos arredores da Estação um imenso canteiro de obras. E promete construir, após sua demolição, o Memorial de Parangaba, utilizando parte do material original. O CPTEP e a Fundação de Cultura, Esporte e Turismo (Funcet) da Prefeitura são contra. "Não questionamos a competência do Metrofor em propor a obra (da Estação Metroviária da Parangaba). Questionamos o local em que ela está prevista para ser construída, defende o historiador Alexandre Gomes, integrante do CPTEP.

O imbróglio começou por conta da posição do Metrofor em implantar a estação aérea. Pelo projeto da companhia, um viaduto ligará a Vila Peri ao bairro Couto Fernandes, atingindo exatamente a estação da Parangaba. "Se não fizermos esse viaduto, teremos muitos problemas, porque aqui já existe um nó viário muito grande", diz o economista Fernando Mota, assessor da Presidência do Metrofor. Se o projeto for mudado, segundo ele, vai implicar em "problemas sérios de custos e de prazos". A estimativa da companhia é de um prejuízo de R$ 12,1 milhões.

Mota rechaça a utilização do termo "destruição". De acordo com ele, o metrô não vai simplesmente "destruir" a estação. "Essa palavra é muito forte. Entendemos a importância do equipamento histórico e nos preocupamos com isso. Ninguém vai tirar a estação dali a troco de nada. Vamos construir um Memorial ao lado". Fernando Mota não soube informar o valor estimado do Memorial, que será de responsabilidade do Metrofor.

Em agosto do ano passado, a Funcet iniciou o processo de tombamento da Estação Ferroviária da Parangaba que, conforme a diretora do Departamento do Patrimônio Histórico e Cultural do órgão, Ivone Cordeiro, já está em fase de conclusão, faltando apenas ser homologado. Ela explica ainda que, aberto o processo, é realizado uma pesquisa arquitetônica e histórica, de avaliação técnica do prédio. "Antes da comunidade pedir o processo ao Conselho (Municipal de Cultura), já tínhamos a indicação da Estação para tombamento. Não há dúvidas quanto ao valor histórico do prédio. O relatório está em fase de conclusão e aponta no sentido do tombamento", informa.

Ao iniciar o processo, o prédio já é considerado tombado, mesmo que não esteja concluído, por isso a Estação não pode ser demolida pelo Metrofor, avalia Ivone. A diretora afirma que a Funcet está aguardando o término do processo de tombamento para planejar algo para o local. O professor de português e técnico em Turismo Paulo Roberto Ferreira, 36, é um dos autores do pedido de tombamento. "Nasci na Parangaba e tenho família aqui. As pessoas queriam que houvesse uma revitalização no centro histórico". O pedido à Funcet foi feito em junho de 2006, tendo sido aceito dois meses depois.

De acordo com ele, com o decreto de tombamento, o Metrofor pode ser processado e obrigado a reconstruir integralmente a Estação caso a destrua. A proposta do CPTEP é reformar o prédio e construir, em seus quatro compartimentos, uma biblioteca, um memorial, uma sala de multimídia e uma sala de aula para cursos gratuitos à comunidade, na área de turismo e pré-vestibular.
(colaborou Rocélia Santos)


"Não há duvidas quanto ao valor histórico do prédio. O relatório está em fase de conclusão e aponta no sentido do tombamento" (Ivone Cordeiro, da Funcet)


SAIBA MAIS

Como é um processo de Tombamento?
O tombamento é uma ação administrativa do Poder Executivo, que começa pelo pedido de abertura de processo, por iniciativa de qualquer cidadão ou instituição pública. Este processo, após avaliação técnica preliminar, é submetido à deliberação dos órgãos responsáveis pela preservação. Caso seja aprovada a intenção de proteger um bem cultural ou natural, é expedida uma notificação ao seu proprietário. A partir desta notificação o bem já se encontra protegido legalmente, contra destruições ou descaracterizações, até que seja tomada a decisão final. O processo termina com a inscrição no Livro Tombo e comunicação formal aos proprietários.


Fonte: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan)


ESTAÇÃO ANTIGA

- Situado à rua Dom Pedro II, s/n

- Em 29 de novembro de 1873, deu-se a inauguração oficial do trecho ligando Fortaleza a Arronches, hoje Parangaba, com 7,559 quilômetros, a 26,814 metros acima do nível do mar, sendo o trecho e a estação inaugurados ao mesmo tempo. A Estação Central João Felipe foi inaugurada em 30 de novembro de 1873. A locomotiva Fortaleza realizou a primeira viagem de trem sobre o trecho da Estrada de Ferro.

- A primeira estação de Arronches foi demolida, sendo reconstruída em 1927, segundo projeto do engenheiro Estêvão Mansueto, apresentando características da arquitetura residencial européia, aqui adotada na década de 20.

- O prédio sofreu nova reforma em 1939, para a construção da linha do Mucuripe, sendo inaugurado em 28 de janeiro de 1941, sob a gerência da Rede de Viação Cearense (RVC), contando também com supervisão posterior - 1957 a 1998 - da Rede Ferroviária Federal (RFFESA).

- A Estação é, junto com a Igreja Matriz da Parangaba, um dos prédios mais antigos do bairro.

- Por conta do Decreto Municipal 12.099 de 21 de setembro de 2006, a estrutura está em processo de tombamento.


Fontes: Pesquisador Paulo Roberto Ferreira e Funcet


MEMORIAL DE PARANGABA

Proposta de arquitetura, urbanismo e paisagismo

. No lugar da velha edificação, será gravado no piso em concreto a informação da planta original, com suas partições e vazaduras.

. Na área a leste remanescente do atual terminal de ônibus urbano, será implantado o Memorial. O edifício é uma estrutura em perfis "I" em aço patinável. Vedado com painéis de vidro de segurança, apresenta e aproveita conjuntos de elementos construtivos originais, tais como a coberta, a estrutura metálica dos telhados e as esquadrias.

. No interior, será implantada uma exposição referencial sobre Parangaba e a sua estação.

. Arborização proposta é de grande porte.

. A área disporá também de mobiliário urbano adequado.

. Materiais escolhidos: cimentado esponjado, cerâmica, paralelepípedo.

MOVIMENTO PRÓ-TOMBAMENTO DA ESTAÇÃO
Amanhã, dia 12 de abril
Abertura da exposição "A Estação e a Parangaba", no Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (MAUC), durante a manhã.

Sexta-feira, dia 13 de abril
Debate/mesa-redonda: "A preservação da Estação da Parangaba: patrimônio, conflito e memória", com a participação do Metrofor, Funcet, Iphan, CPTEP e projeto "Historiando a Parangaba". Às 15 horas, no auditório do Departamento de História da UFC.

Sábado, dia 14 de abril
Realização de uma trilha histórica pela Parangaba, com início às 8 horas na praça da Matriz e finalizando na Estação da Parangaba, onde será dado um abraço simbólico à edificação. Movimento de repúdio à demolição da Estação

Informações
Departamento de História da UFC - Campus do Benfica. Avenida da Universidade, 2.762. Fone: (85) 3366-7742. E-mail: estacaoparangaba@yahoo.com.br.


Fonte: Metrofor e CPTEP

Leia mais sobre esse assunto


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato

Publicidade