Jerfson Lins
Especial para O POVO
Se você disser à maioria das pessoas que é columbófilo, no mínimo, vão achar estranho. O termo foi empregado, pela primeira vez, no início do século XIX, quando os pombos-correios, que começavam a perder espaço para as novas tecnologias de telecomunicações, passaram a ser usados em competições
31/03/2007 14:24

Se você disser à maioria das pessoas que é columbófilo, no mínimo, vão achar estranho. O termo foi empregado, pela primeira vez, no início do século XIX, quando os pombos-correios, que começavam a perder espaço para as novas tecnologias de telecomunicações, passaram a ser usados em competições. E columbófilo quer dizer exatamente isso: criador de pombos-correios para competição. No Ceará, o Brasil Clube Columbófilo reúne 23 associados. E a entidade realiza reuniões semanais e organiza competições.
Os encontros são marcados pela troca de "segredos" no preparo das rações e no treinamento das aves. "Aqui o assunto é pombo. Nada de falar de futebol, política e mulher", brinca o arquiteto Delberg Leon, columbófilo há mais de 45 anos. Segundo Leon, o esporte é ideal para quem gosta de aves, mas não gosta de vê-las presas em gaiolas. "Todos os dias os pombos são soltos, voam por algumas horas e voltam sozinhos para os poleiros", descreve.
A entidade organiza as competições no Ceará. As reuniões também servem para troca de informações sobre novas vacinas, rações. "A columbofilia é caracterizada pela grande amizade que surge entre os praticantes. Nós fazemos verdadeiras festas nas casas dos associados. É um esporte em que toda a família participa", afirma o contabilista João Tavares, 64 anos, dos quais 50 dedicados à columbofilia.
Quase todos os columbófilos cearenses têm mais de 50 anos de idade, o que causa preocupação quanto à continuidade da prática do esporte no estado, iniciada na década de 1950. "Há muito preconceito das pessoas, que têm a visão errada de que os pombos-correios causam doenças. Nós criamos atletas, e atletas têm de ter saúde perfeita. Esses pombos vivem à base de ração, medicamentos e vitaminas, diferente daqueles que vivem nas ruas, ou seja, é como comparar um cachorro vira-lata abandonado com um cãozinho de madame", garante Delberg Leon, que lamenta o fato de o esporte não ter, no Brasil, o mínimo reconhecimento, diferente de países como Portugal, onde a columbofilia é o segundo esporte mais praticado, perdendo apenas para o futebol.
Foi no século XIX, na Bélgica, que após o cruzamento de diversas variedades de pombos (hoje mais de 300), chegou-se à variedade que consegue melhor desempenho nas provas, e por isso é a preferida dos columbófilos. O pombo foi um dos primeiros animais domesticados e o homem logo descobriu a utilidade que o faz sempre retornar. Desse modo, ao partir para longas viagens ou campanhas militares, bastaria levar alguns pombos domesticados para mandar mensagens de volta ao lar, amarrando-as em anéis presos às suas patas. A técnica fez com que assumissem função tática fundamental em guerras, ao levarem de volta informações do campo de batalha.
Mas foi com a transmissão de mensagens pessoais, especialmente as de amor, que esses animais ganharam fama. "Um mito comum em torno dos pombos-correios é o de que eles levam mensagens para qualquer lugar. Eles só retornam ao local de origem, por isso só podem levar cartas de amor para o marido ou a esposa que ficou em casa", esclarece João Tavares.
POMBOS-CORREIO NA HISTÓRIA
Usados há milhares de anos para o envio de mensagens, os pombos são personagens comuns em contos, lendas e até na Bíblia. Foram fundamentais em diversos momentos da história, como os apresentados a seguir:
- O faraó egípcio Ramsés III divulgou sua subida ao trono através dos pombos-correios;
- Os pombos também eram usados no Egito para anunciar a subida das águas do rio Nilo;
- No Império Persa havia um representante da administração pública responsável pelo controle do envio de mensagens através de pombos-correios;
- O rei Salomão utilizava, exclusivamente, pombos-correios na transmissão das suas ordens aos governadores das províncias do seu império;
- Na Grécia Antiga, as cidades-estado recebiam, através dos pombos-correios, os resultados dos jogos olímpicos;
- Os romanos, no período da ocupação da Gália, enviavam noticias a Roma através de uma série de pombais escalonados;
- Em 1288, no Cairo, eram empregados 1900 pombos-correios no serviço postal regular;
- O Sultão Nur-Eddin (séc. XII) criou um serviço postal por pombos-correios entre Bagdad e todas as cidades do seu Império;
- Joinville, nas suas "Crônicas", relata o relevante papel desempenhado pelos pombos-correios durante as Cruzadas à Terra Santa;
- Na Idade Média, só aos senhores feudais e ao clero era autorizada a criação e detenção de pombos-correios, regra abolida apenas com a Revolução Francesa, em 1789;
- Em 1815, a primeira notícia que chegou em Londres sobre a derrota de Napoleão em Waterloo, foi transmitida pelo Ministério da Guerra londrino através do telégrafo. Mas a mensagem chegou incompleta, dizendo: "Wellington defeated ..." (Wellington derrotado), esta notícia causou o pânico na opinião pública e a bolsa entrou em queda. O banqueiro Rothschild, que utilizava regularmente os pombos-correios nos seus negócios, tinha alguns deles na zona de combate. Assim, ele recebeu a informação correta e adquiriu, por valores irrisórios, a maior parte dos títulos e ações comercializados na bolsa. No dia seguinte, chegou o telégrafo com a notícia correta: "Wellington defeated french army" (Wellington derrotou o exército francês), o que causou uma alta na bolsa e, consequentemente, lucros gigantescos para Rothschild;
- Por volta do ano 1900, a empresa francesa Compagnie Général Transatlanti recebia noticias dos seus navios através de uma rede organizada de pombos-correios;
- Na Primeira Guerra Mundial, mais de 30 mil pombos foram utilizados nas frentes de combate. A Alemanha, reconhecendo o perigo representado pelos pombos-correios, ordenou seu extermínio nas regiões ocupadas;
- Durante a Segunda Guerra Mundial, sempre que as comunicações via rádio eram interceptadas ou perturbadas pelos adversários, os pombos-correios eram utilizados;
- Em 1948, o governo português concedeu o Estatuto de Utilidade Pública ao pombo-correio.
- Na década de 50, na Argentina, cerca de 60 mil pombos ainda serviam como meio de comunicação postal;
- Durante a Ditadura Militar brasileira (1964-1985), a criação de pombos-correios foi proibida no Brasil, pois segundo os militares, facilitariam a transmissão de informações de caráter subversivo;
- A columbofilia continua, em diversos países, como Espanha ou Cuba, sob a fiscalização do Ministério da Defesa.
Fonte: DUARTE, Joseane Reis. A Comunicação Rural e Suas Formas de Manifestação. Monografia de conclusão do curso de Comunicação Social da Universidade da Região de Campanha (Urcamp), Bagé, 2003. Disponível em www.paginadogaucho.com.br/tese/comrural.pdf