Fortaleza
Em busca de abrigo
07 Mar 2007 - 00h54min
Corpos franzinos e marcados pela violência revelam a dura realidade enfrentada pelas crianças que adotaram o Terminal da Lagoa como abrigo. Os motivos, quase sempre os mesmos: o alcoolismo e a violência física e sexual dos pais ou responsáveis. Uma menina, que de tão pequena não parecia ter os 14 anos que declarava, andava de um lado para outro com sua inseparável garrafinha de cola de sapateiro. "É melhor ficar aqui do que em casa. Minha madrasta não gosta de mim e as filhas dela 'arengavam´ comigo".
A curiosidade logo faz com que outros adolescentes se aproximem, igualmente com suas garrafinhas. Nem adianta os educadores da Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci), da Prefeitura Municipal de Fortaleza, pedirem para "darem um tempo na cola", eles preferem fingir que não ouviram.
"É um trabalho difícil. Nós não podemos tomar a cola deles, só orientá-los. Além de tudo ainda somos xingados pelos usuários do terminal e pelos comerciantes, que dizem que estimulamos os meninos a ficar aqui", desabafa uma das educadoras, que preferiu não se identificar. Segundo ela, os casos de agressões às crianças são freqüentes.
"Semana passada arrombaram meu comércio, pela segunda vez em menos de um ano e meio. Na primeira vez, chamei a Polícia e eles disseram que não podiam fazer nada, que a segurança do local era responsabilidade da Prefeitura. Na última, só registrei a ocorrência e ficou por isso mesmo", reclama Orisvaldo Soares.
Revoltado, o permissionário do restaurante, José Valdeci Sampaio Gomes, chega a discutir com duas meninas que se recusavam a deixá-lo falar. "Já fui ameaçado várias vezes. Esses meninos ficam aí. Roubam, usam droga, transam, e a Prefeitura só manda agentes que trazem brinquedos, em vez de tirá-los daqui", afirma.
A maioria dos adolescentes do local, cujas idades variam entre 8 e 17 anos, afirma ter experimentado drogas como maconha e crack. "A gente compra a cola aqui perto, mas lá vende maconha também. O crack é que vem de outro canto", afirma um garoto de 13 anos. "Enquanto não houver vagas suficientes e trabalhos educacionais atrativos nos abrigos, e não forem dadas condições para as famílias conseguirem emprego e poderem sustentar as crianças, essa situação vai continuar assim", afirma a educadora da Funci.
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