Émerson Maranhão
da Redação
Amanhã é dia de Pré-Carnaval em Fortaleza. Tem opção para todos os gostos. Na Praia de Iracema e na Marechal Deodoro, um bloco anima foliões de todas as idades. Com um destaque para a rainha da bateria
27/01/2007 02:50

Quem já seguiu o bloco Unidos da Cachorra em seus desfiles na Praia de Iracema ou na rua Marechal Deodoro certamente saiu impressionado. Mais que a competência e afinação dos 55 ritmistas da bateria surpreende a performance de sua rainha. Saia diminuta, baby look oficial do bloco, coxas grossas e bem torneadas, rebolado impecável. Layla Theyres faz jus ao título. Empolga os músicos, anima os foliões, distribui simpatia e exibe domínio raro de samba no pé. Tamanhos desenvoltura e carisma tornam secundário o fato de Layla ter nome masculino na certidão de nascimento. Na avenida, à frente de tamborins, chocalhos, surdos, caixas de guerra e repiques, sua majestade é inquestionável e ela reina absoluta.
Moradora da mesma Marechal Deodoro onde o bloco foi criado e tem a sua sede, Layla ganhou o título por aclamação. "Eu fui com meu irmão assistir a um ensaio, gostei e comecei a sambar. Aí o pessoal da rua mesmo, todo mundo, começou a me chamar de rainha da bateria, de rainha, rainha e eu acabei ficando", conta a moça, cujo nome artístico foi presente da professora de dança do ventre, "e, em árabe, significa Morena da Noite. Tudo a ver comigo, né?".
Dos 20 anos de vida, Layla só se chama assim há três. Antes, atendia pela alcunha de Naexcenamom, aceitando sugestão de uma "mona conhecida". A necessidade de adotar um nome feminino surgiu quando decidiu sair do armário e assumir sua homossexualidade, instigado pela mãe.
O ano é 1998 e o passatempo preferido do menino de 12 anos é, shortinho curto e bem apertado, descer na boquinha da garrafa fazendo coreografias de grupos como Gerasamba e Cia do Pagode, na sala da casa, no Tabapuá, em Caucaia. A mãe, atenta aos hábitos pouco viris do rebento, chamou-o e perguntou o que ele era. O garoto disse que não sabia, que não era nada não. A resposta não a convenceu e ela emendou. "Seja o que você for eu lhe aceito. Eu vou lhe amar de qualquer forma, isso é que importante". "E o pai?", arriscou o menino, ainda desconfiado. "Seu pai também vai lhe amar do jeito que você é, não se preocupe. O que a gente não quer é filho incubado dentro de casa, triste, pelos cantos".
A lição da mãe, que já morreu, guia Layla até hoje. Visita o pai de vez em quando, dá-se bem com os irmãos e é uma tia devotada, louca pelos sobrinhos. "A minha maior alegria são meus sobrinhos lindos e maravilhosos. Alguns me chamam de tio, outros de tia Layla, mas eu gosto de todos", garante. Estudante do 3º ano do ensino médio, Layla pretende fazer vestibular no fim do ano para o curso de Artes Cênicas do Cefet. "Sempre quis seguir a carreira artística, sabe? Meu sonho é ser uma super star!", revela entre gargalhadas.
A alegria, aliás, parece ser seu credo. Sua voz só deixa escapar uma nesga de tristeza quando conta do assassinato do irmão mais velho, Wellington, em 2003. Foi ele quem lhe ensinou a sambar, aos oito anos. Era com ele que Layla morava desde os 12. "Ele era guia de turismo. Há oitos anos, ele estava na Praia do Futuro e conheceu um senhor holandês. Os dois conversaram, se gostaram e foram morar juntos. Aí, eles decidiram me adotar, sabe?, e eu fui morar com eles. No dia 10 de fevereiro de 2003 mataram Welington, parece que numa briga, com um gargalo de garrafa", lembra.
O episódio não a separou do pai adotivo, o holandês aposentado Hendrick Vos, com quem ainda mora, junto com um irmão, também adotivo, Marcos, 20 anos. "Veja bem, o Hendrick tem 76 anos e a gente não pode abandonar uma pessoa com essa idade. Então eu cuido dele, tomo conta da casa, não podia deixá-lo na mão", justifica.
Lembranças tristes à parte, Layla já está em contagem regressiva para o Carnaval. O figurino vai ser incrementado por um aplique rastafari, preso à raiz de seus cabelos. "Você não tem idéia do que é desfilar. É uma emoção muito forte, o carinho que a gente recebe das crianças... E a galera levanta mesmo, viu? Uma energia...", enfatiza, ressaltando que sempre foi muito bem tratada por todos no bloco e na rua. "O respeito tem que vir da pessoa mesmo. É a gente que tem que começar se respeitando para os outros verem e respeitarem a gente", ensina.
O comportamento e o desempenho da rainha da bateria são aprovados pelo presidente do bloco Unidos da Cachorra, Gildo Moreira. "Ela samba muito bem. E é um samba muito alegre. Ela faz bonito!", afiança. "Ela é muito respeitosa, muito decente. Toda direitinha, sabe?, se não fosse a gente não aceitava. Porque nós somos um bloco muito família. Temos muito folião de 70, 80 anos, com as suas cadeiras na calçada. E ninguém nunca se incomodou. A gente sabe que hoje é muito moderno, isso é normal. Não temos preconceito com nada. Por que não ter a Layla como nossa rainha?", questiona. E ela, do lado, toda sorriso, já se prepara para subir no salto e soltar o rebolado para a foto que ilustra essa página. Caras e bocas, requebros e passos que nada lembram Raimundo Nonato Sales Lima, nome plebeu de pia e registro civil, devidamente abandonado pela majestade.
ESCOLHA UM BLOCO
1. Que merda é essa!?
Um instrumento na mão e muita vontade de se divertir. Há 24 anos um grupo de amigos se reuniu para sair pelas ruas da Praia de Iracema tocando marchinhas de Carnaval. No começo tudo era muito improvisado. Os amigos brincavam: "Essa 'merda' sai ou não sai?". Tanto saiu que hoje o bloco é um dos mais tradicionais de Fortaleza e chega a reunir cerca de cinco mil brincantes a cada edição. "A gente tem uma banda contratada que só toca marchinhas de Carnaval e músicas de frevo", explica Joaquim Bezerra Junior, um dos organizadores. O bloco tem uma marchinha própria que este ano vai retratar o escândalo dos sanguessugas. O custo da festa é alto e por isso o grupo conta com o apoio de empresários. "Só com a banda a gente gasta cerca de R$ 15 mil", diz.
Repertório: marchinhas de Carnaval e músicas de frevo
Onde? Rua João Cordeiro, 556, Praia de Iracema
Quando? Aos sábados (27/1, 3 e 10/2), de 17h às 22horas
2. Periquito da Madame
O nome do bloco é esse mesmo e faz referência a uma música que marcou o Carnaval de uma turma de amigos nos anos 50. Trinta e dois anos depois, o grupo se reuniu e criou o mais antigo bloco de Pré-Carnaval de Fortaleza: Periquito da Madame. "Tudo começou como uma brincadeira. A gente contratava uma bandinha. Eram poucas pessoas", explica Jânio Soares, um dos organizadores. Com o passar do tempo, a turma foi aumentando e hoje o bloco faz a alegria de centenas de pessoas na Praça dos Estressados, Na Beira Mar. É nesse local que está marcada a feijoada de lançamento da festa a partir das 14 horas de hoje, dia 27. E sabe qual é a primeira música que vai tocar? "O periquito da madame come o milho, come o arroz e come o feijão. Não sei por que todo mês ele sofre de indigestão...". Jânio Soares lembra que para participar do bloco é preciso comprar uma camisa por R$ 20,00.
Repertório: marchinhas de carnaval, samba e "essas músicas novas da Bahia. Entra até forró no meio", avisa Jânio Soares.
Quando? 27 e 28 de janeiro, de 16h às 20h30min.
Onde? Praça dos Estressados, na avenida Beira Mar.
3. Matou a Pau...ta
Alguns jornalistas estavam em uma mesa de bar quando tiveram a idéia de criar um bloco de Pré-Carnaval voltado para a categoria. A organização fica por conta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Ceará (Sindjorce). Nesta segunda edição do evento, será feita uma homenagem ao jornalista e professor universitário Ronaldo Salgado. Um boneco com as feições dele e batizado de "Editor do Bloco" vai desfilar à frente dos brincantes. A concentração é no Centro Cultural Banco do Nordeste. De lá, o bloco segue para a Praça do Ferreira com parada no prédio da Associação Cearense de Imprensa (ACI).
Repertório: marchinhas de Carnaval e frevo.
Quando? Nos sábados (27/1, 3, 10 e 17/2), de 15h às 19 horas.
Onde? Centro Cultural Banco do Nordeste, rua Floriano Peixoto, 941, Centro.
4. Jardim Folia
Neste bloco não são apenas as marchinhas de Carnaval que encontram espaço. Os moradores do Jardim América podem conferir ainda apresentações de grupos de samba e pagode. A festa toma conta do bairro desde 2005 e foi criada graças à iniciativa de um grupo de amigos que resolveram sair pelas ruas do bairro convidando a comunidade a se reunir e curtir o Pré-Carnaval. O presidente do bloco, Ercílio Júnior, conta que nos dias 9 e 10, o campo do Jardim América vai virar palco de uma grande festa com direito a bandas de forró e axé e desfile de maracatu. "É um momento de muita alegria e descontração. Não existia isso no bairro", diz. Ele lembra ainda que 150 camisas serão sorteadas para que todos possam pular Carnaval uniformizados.
Repertório: marchinhas de Carnaval, forró, samba, pagode e axé.
Quando? 27 de janeiro, 3, 9 e 10 de fevereiro, de 18h às 23 horas.
Onde? Campo do Jardim América, na rua Conselheiro Lafayete, s/n.
5. Amor que fica é de Benfica
Cerca de 300 moradores do bairro Benfica participam dessa festa que tem um clima bem familiar. "Tem senhoras de oitenta e tantos anos. Os avós trazem os netos, os tios trazem os sobrinhos", conta Sildácio Matos, um dos organizadores. Ele explica que essa é "uma versão mais simples" de um tradicional bloco do bairro que fez muito sucesso na década de 1990: Quem é de Benfica. A idéia de criar um outro bloco surgiu "como uma brincadeira em mesa de bar". Nesta segunda edição da festa, os brincantes vão dançar ao som das tradicionais marchinhas de Carnaval. A banda conta com instrumentos de sopro e percussão. O grupo fica concentrado na rua Paulino Nogueira em frente a um tradicional bar do Benfica.
Repertório: marchinhas de Carnaval.
Quando? Nos sábados (27/1, 3 e 10/2), de 17h às 22 horas.
Onde? Rua Paulino Nogueira, 91, bairro Benfica.
VEJA NO SITE
A lista completa com todos os blocos de Pré-Carnaval de Fortaleza pode ser acessada no site O POVO On Line - www.o povo.com.br