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Fortaleza

Estilo peculiar, ortografia diferente


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06/01/2007 14:33


"Foi preso ontem e recolhido ao xadrez da Delegacia Especial, o indivíduo Almir Lopes, beberrão inveterado, por se achar completamente emballado e offendendo, com palavrões, a sra. Dona Moral Pública". A notícia está na edição de 13 de fevereiro de 1928, publicada no então novíssimo O POVO. Lida hoje soa, no mínimo, estranha. Bêbados inconvenientes não são mais manchete e o tom quase debochado do texto não tem mais espaço no jornal (a não ser na coluna Das Antigas, assinada pelo jornalista Demitri Túlio e publicada aos sábados no Vida & Arte).

"Essa linguagem desabusada que os jornais tinham vem do tempo dos pasquins", diz o jornalista e professor universitário Gilmar de Carvalho, referindo-se aos tablóides que driblavam a censura vigente nos tempos da Regência até a República com muito bom humor e ironia. "Mesmo tendo sido um fenômeno mais forte em meados do século XIX, os pasquins exerciam uma influência forte nesse início do século XX", explica. Daí nasceu um estilo pitoresco de narrar os acontecimentos da província.

Para contar a prisão de outro bêbado, que confundiu um agente da guarda municipal com uma moça formosa, o narrador descreve: "Julgando-o uma linda e tentadora muchacha, atira-lhe uma declaração de amor!". Em outra edição, a briga entre duas irmãs ganha tom novelesco: "... como a pequena não lhe quizesse obedecer, a jararaca inchou, armando-lhe o bote". E a descoberta do corpo de um rapaz, há dias desaparecido, por um grupo de aprendizes de marinheiro vira enredo trabalhado: "Desvendaram-se destante as dúvidas que pairavam sobre o paradeiro do João Bagé porque outra pessoa não era, senão ele, a encontrada pelos marinhos". Apenas alguns exemplos das pérolas encontradas nos primeiros anos do O POVO.

"Hoje, se você prestar atenção nos programas policiais de rádio, vai ver que é praticamente a mesma coisa. O gênero policial é que adota essa linguagem popular que foi para o rádio e a televisão", diz a jornalista Adísia Sá.

Além do estilo peculiar, a ortografia também chama a atenção. Letras duplas eram comuns. Escrevia-se sabbado, illuminado, ella, litteratura. "As chamadas letras geminadas, dois símbolos que representavam apenas um fonema, foram abolidas. O sistema ortográfico simplificou o que estava complicado", diz o professor de filologia (estudo da origem e evolução da língua), Victor Cintra. Com a mesma intenção, os diagramas gregos foram eliminados e palavras como philosophia e sympathisado ganharam grafia nova. O acento til também foi adotado depois de 1928. "O período ortográfico anterior ao nosso era todo baseado no som. Para indicar a nasalidade, usava-se o 'm' e o 'n'", conta Victor.


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