
OS MENINOS E MENINAS de rua passam o dia e a noite no Terminal da Lagoa. Eles pedem esmola, comida e cheiram cola(Foto: FCO FONTENELE)
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PARANGABA
Meninos de rua ocupam Terminal de ônibus da Lagoa
Usuários do Terminal de Ônibus da Lagoa e comerciantes do local reclamam da quantidade de meninos e meninas de rua que passam pelo terminal. Segundo eles, cerca de 50 meninos ficam no local diariamente pedindo esmolas, comida e cheirando cola
Augusto do Nascimento
Especial para O POVO
20/12/2006 03:03
Eles se reúnem diariamente na área externa do Terminal de Ônibus da Lagoa. Sob as marquises, meninos e meninas conversam e desenham no chão usando pedaços de tijolos. Depois, correm pela praça ou derrubam frutas das árvores para comer. Poderiam ser brincadeiras inocentes comuns a qualquer criança. No entanto, a inocência não faz parte do cotidiano das crianças e adolescentes de rua que se encontram ou moram no local.
De acordo com pessoas que trabalham no terminal, em horários de maior movimento chega a cerca de 50 o número de meninos e meninas que vêm causando transtornos no comércio e na vigilância do lugar. Sem largar os recipientes com cola de sapateiro, que inalam às vistas dos transeuntes, os meninos abordam os usuários do terminal ou das lanchonetes em busca de comida ou dinheiro. Se os vigias ou comerciantes tentam impedir que incomodem os freqüentadores das lanchonetes, os adolescentes podem reagir com violência.
Para a Equipe Interinstitucional de Abordagem de Rua, a área do Terminal da Lagoa é atualmente o ponto mais crítico de Fortaleza, no que diz respeito à presença de crianças e adolescentes de rua. Embora se concentre no terminal, a ação deles estende-se a outros pontos do bairro, como a praça da igreja ou a feira de carros usados que funciona às margens da lagoa da Parangaba.
O administrador do terminal, Flávio Queiroz Leitão, afirmou que os usuários constantemente pedem providências em relação aos transtornos causados pelos meninos. Segundo ele, os programas sociais de abordagem das crianças e adolescentes de rua realizados pela Prefeitura e pelo governo do Estado não têm se mostrado eficientes para solucionar o problema, que tende a se agravar com a concentração cada vez maior de meninos. Leitão informou que os meninos chegam a pular as grades do terminal para pedir dinheiro ou tomar lanche dos usuários.
Os programas de abordagem de rua procuram identificar a situação de cada menino e menina, para em seguida encaminhá-los de volta às famílias, a abrigos ou ao Conselho Tutelar da região. Paulo Guedes, coordenador do Programa Criança Fora da Rua, Dentro da Escola, desenvolvido com recursos estaduais, informou que a abordagem de crianças e adolescentes nos terminais de ônibus e no Centro é responsabilidade da Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci), da Prefeitura Municipal de Fortaleza. Além disso, ele diz que os educadores sociais do Programa atuam na Parangaba para reforçar as ações de abordagem, atendendo pedidos ou denúncias dos comerciantes e usuários do terminal e da própria prefeitura.
Guedes reconhece a razão da população e dos comerciantes que reclamam da lentidão dos resultados dos programas sociais. Mas aponta para a necessidade de se compreender a dificuldade das famílias em manter os meninos em casa, gerada pela situação de pobreza e desemprego, violência doméstica e sexual e pela ausência dos pais.
A Funci desenvolve o projeto Ponte de Encontro, que atua no terminal da Lagoa com três duplas de educadores sociais que se revezam no trabalho com crianças e adolescentes. Segundo Leila Cidade, gerente do projeto, muitas vezes não se acessa a família dos meninos e meninas por que estes já estão há muito tempo fora de casa. Isabel Diógenes, conselheira tutelar da Secretaria Executiva Regional IV, que atua na Parangaba, avalia que as vagas disponíveis nos programas são insuficientes para atender à demanda das crianças e adolescentes em diversas situações de vulnerabilidade, como o consumo de álcool e drogas ou exploração sexual.
Enquanto não se encontra uma solução definitiva para o problema, os meninos e meninas permanecem sem perspectiva no entorno do terminal da Lagoa, sobrevivendo como impõe a realidade das ruas. Alheios à convivência familiar e com a comunidade, sem freqüentar a escola e expostos aos riscos e violências diários.
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