
(Foto: PATRÍCIA ARAÚJO)
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NA AMÉRICA LATINA
Transgênico do Ceará
O professor Vicente José coordenou a equipe que conseguiu desenvolver o primeiro caprino transgênico da América Latina. Em entrevista ao O POVO, ele fala sobre o projeto e os desafios enfrentados por quem quer fazer pesquisa no Brasil e no Ceará
Carlos Henrique Camelo
da Redação
11/12/2006 01:09
Há seis anos, um grupo de pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará (Uece) apostou que era possível desenvolver caprinos transgênicos no Estado. Este ano, eles conseguiram atingir o objetivo, criando o primeiro espécime da América Latina. O resultado coloca o Brasil em um seleto grupo de nações capazes de realizar tal feito. À frente deste projeto está o professor doutor Vicente José de Figueirêdo Freitas, 44 anos.
Mesmo enfrentando muitas dificuldades, Vicente Freitas acreditou na idéia e resolveu levar o projeto adiante. A persistência acabou sendo recompensada com o êxito do experimento e com o destaque nacional e internacional conquistado, principalmente no meio científico.
Mas a produção do caprino transgênico é apenas um dos passos do projeto, que tem como objetivo final a utilização do leite de cabra como matéria-prima para a produção de medicamentos. "O principal benefício para a população seria no tratamento das imunodeficiências. A Aids é a principal delas, mas as pessoas que têm outro tipo de imunodeficiência poderão ser beneficiadas por esta pesquisa, como as que tem câncer e estão sendo tratadas por radioterapia ou quimioterapia".
O POVO - Este ano, o Laboratório de Fisiologia e Controle da Reprodução da Uece conseguiu criar o primeiro caprino transgênico da América Latina. O que representa um projeto desta natureza ser realizado no Ceará?
Vicente Freitas - Primeiramente, a gente tem que falar que a transgênese é uma técnica que envolve pesquisa de ponta. Para você imaginar, os caprinos transgênicos obtidos no mundo foram conseguidos por países desenvolvidos, como Estados Unidos, França, Inglaterra, Canadá e Coréia do Sul. Ou seja, isso fala da delicadeza, da infra-estrutura necessária e da capacidade da equipe. A idéia começou com a possibilidade de associar duas habilidades, no caso a caprino-cultura no estado do Ceará com a possibilidade de usar a cabra como uma farmácia viva. Utilizando a elevada capacidade de produzir leite destes animais e o seu custo pequeno em relação ao bovino. A idéia da transgênese é justamente essa, produzir proteína nas glândulas mamárias que tenham um interesse farmacêutico, industrial.
OP - Como vocês conseguiram chegar a este resultado?
Vicente Freitas - Foi feito um trabalho de engenharia genética que pegou uma parte do gene humano e uma parte do gene caprino. E essa união chamada construção genética foi microinjetada nos embriões caprinos. Essa microinjeção é uma atividade muito delicada, raramente com sucesso. E esses embriões são transferidos para o útero de cabras receptoras, as chamadas barrigas de aluguel, que vão desenvolver a gestação e para nascer filhotes. Estes filhotes, uma grande parte deles vai ser não transgênico, porque a transgênese é um evento raro. A literatura fala de 1% dos embriões microinjetados e transferidos. E realmente foi o conseguido. Nós microinjetamos 129 embriões e transferimos para 27 receptoras, destas 10 ficaram gestantes. Produziram 14 cabritos e um foi transgênico.
OP - O anúncio da criação do primeiro caprino transgênico ocorreu somente em outubro, um mês após o animal ter morrido. A morte deste animal de alguma forma frustrou a equipe que participou do projeto?
Vicente Freitas - Frustração existe, de você pensar que o animal transgênico ficou apenas 17 dias conosco. Agora foi bem menor do que a nossa alegria de na primeira vez que nós fizemos a experiência em boas condições já obtivemos um transgênico. E se nós conseguimos é porque dominamos todas as etapas do processo e seremos capazes de repetir. Tivemos azar porque o transgênico nasceu justamente da receptora que teve um problema infeccioso, e teve um parto prematuro o que dificultou a sobrevivência dos seus dois filhotes, o transgênico e o não transgênico. Mas eu preferi ver a situação de uma outra maneira. Se ele não está vivo agora, no próximo experimento a gente tem todas as condições técnicas de repetir o êxito. Em maio deveremos estar iniciando um novo experimento.
OP - Que tipo de benefícios este projeto pode trazer para a população brasileira?
Vicente Freitas - O principal benefício seria no tratamento de imunodeficiências. Não para a cura, mas no tratamento de todo tipo de imunodeficiência. A Aids é a principal delas, mas as pessoas que têm outro tipo de imunodeficiência poderão ser beneficiadas por esta pesquisa, como as que tem câncer e estão sendo tratadas por radioterapia ou quimioterapia. Nestas pessoas cai a imunidade e as vezes elas pegam infecções. Elas poderiam passar a ser tratadas com estes medicamentos conseguidos a partir do leite de caprino transgênico.
OP - Atualmente este medicamento é conseguido de que forma? E o que mudaria no mercado com a produção do medicamento por meio do leite da cabra transgênico?
Vicente Freitas - Hoje é conseguido através do cultivo celular tradicional ou seja, pega-se o gene da proteína humana, faz-se o cultivo celular tradicional e este cultivo vai dar tantas miligramas do medicamento. Mas você imagina que com o cultivo celular a produção é mínima. Saindo no leite de cabra a possibilidade de aumentar essa produção é grandiosa. Se a gente tiver um rebanho de uma dezena de cabras produzindo a proteína hG-CSF (Fator Estimulante de Colônia de Granulócitos) você tranqüilamente atenderia à necessidade do Brasil para esta proteína. Atualmente, um tratamento completo com hG-CSF não sai por menos de três mil dólares. Aí nós iríamos baratear o medicamento por duas vias. A primeira seria produzindo em grande quantidade e a outra seria criando uma industria nacional que evitasse a importação deste medicamento, porque atualmente ele está sendo importado.
OP - Essa proteína utilizada na pesquisa está entre as primeiras necessidades da população?
Vicente Freitas - Essas imunodeficiências ainda são o grande problema de saúde pública. Além disso, a cada dia se encontra uso para o hG-CSF. Em 2006 saíram dois trabalhos muito importantes. Um falando do uso do hG-CSF no infarto do miocárdio e o outro nas isquemias cerebrais. Seriam dois usos que demonstram a importância dessa proteína. Na realidade, existem outras necessidades, porém, a mesma técnica pode ser utilizada para produzir outros medicamentos. A partir da identificação de outras demandas poderiam ser feitas construções genéticas e aí a gente repetiria o experimento não mais com essa construção do hG-CSF, mas com outras a serem preparadas. Nós temos duas possibilidades bem fortes: uma é para o tratamento em hemofílicos e o outro seria o tratamento de diarréias.
OP - Quanto tempo levaria até estes medicamentos chegarem ao mercado?
Vicente Freitas - Como é um medicamento para uso humano ele vai necessitar de pesquisas pré-clínicas, clínicas, e todo um protocolo que se usa para a validação de medicamentos para esse fim. Nós tivemos recentemente o exemplo do primeiro medicamento a partir de um caprino transgênico. Foi nos Estados Unidos pela empresa GTC Bhioterapeutics que aprovou o uso do medicamento. O nascimento desse animal foi há quase 15 anos e só agora saiu a aprovação para a comercialização do medicamento. Essa é outra área que a gente tem que trabalhar que é a ética e a biossegurança. Ninguém pode brincar de Deus, a gente tem que respeitar os limites da ética e da biossegurança.
OP - Até onde vai este limite da ética na pesquisa científica?
Vicente Freitas - Todos estes projetos passam por comitês de ética e biossegurança. Foi o caso do nosso projeto. Ele foi aprovado nos comitês da Uece e aprovado no órgão máximo que lida com a transgenia que é a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança. Os comitês de ética avaliam todo o respeito à vida do animal. Se ele vai sofrer dor não necessária, se vai ser manipulado com respeito, se todos os hormônios dados a este animal são seguros. Todas essas questões foram abordadas antes de iniciarmos o projeto.
OP - Que fatores levaram a escolha de caprinos para a realização do experimento?
Vicente Freitas - A cara do Nordeste é a cabra, esse foi um fator. O outro é que nós precisávamos de leite como matéria-prima, então qual é o primeiro pensamento que você tem? A vaca, mas este animal tem características que não são desejáveis para a transgênese. É um rebanho com elevado custo de manutenção, que tem uma gestação longa, que só pare um filhote. Já a cabra tem uma gestação muito mais curta, que pare dois a três cabritos por parto, as vezes cinco, e no local onde você cria uma vaca você pode criar 10 cabras. Então essas duas razões, uma regional e a outra específica do animal, nos levaram a utilizar a cabra como modelo da transgênese e isso está se repetindo no mundo todo.
OP - Quanto tempo foi necessário para se chegar ao primeiro caprino transgênico?
Vicente Freitas - Esse foi um projeto que começou há seis anos, numa parceria entre a Uece e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. Nós passamos cinco anos com muita dificuldade financeira, aí recebemos um financiamento do Ministério da Ciência e Tecnologia e do Banco do Nordeste e conseguimos dar um salto grande de infra-estrutura e com certeza isso influenciou para que a obtenção do resultado fosse mais breve. Primeiro nós recebemos R$ 600 mil e numa segunda etapa, R$ 972 mil.
OP - Então, dentro desta realidade, quanto custaria uma pesquisa deste tipo?
Vicente Freitas - Não é barata, principalmente se você considerar que para chegar a este resultado não foi só este financiamento. Foi todo um histórico da criação do laboratório, da formação do pessoal, até chegar a um ponto em que nós pudemos propor a execução do projeto. Para você ter uma idéia, a Nexia Biotechnology, empresa canadense, que conseguiu um caprino transgênico, tem como parceiro o Exército Americano. Daí você pode imaginar os números envolvidos nesta parceria.
OP - Os recursos para a nova pesquisa já estão assegurados?
Vicente Freitas - Em parte, porque o financiamento que recebemos ainda não acabou. Nós ainda estamos gerenciando o dinheiro deste projeto. Temos ainda uma boa parte para a compra de materiais de consumo, para a compra de animais. Mas a gente precisa garantir os próximos três anos, pelo menos. Então enviamos um projeto para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), que se mostrou interessado. O projeto ainda está em fase de avaliação.
OP - Como é fazer pesquisa no Brasil e mais especificamente no Ceará?
Vicente Freitas - Infelizmente em um país em desenvolvimento, como nós somos, fazer pesquisa é normalmente um luxo. Eu me pergunto muitas vezes como é que eu tenho um equipamento desse aqui e bem pertinho da gente tem crianças passando fome. Agora, a gente não deve esquecer que os países que conseguiram esse desenvolvimento, foi investindo exatamente em ciência e tecnologia. A Coréia do Sul, por exemplo, há 40 anos era um país pobre e decidiu investir em educação e ciência e tecnologia. Hoje, a Coréia é um monstro em desenvolvimento, publica pesquisas em quantidade igual a países como Estados Unidos. Mas acho que na nossa condição de Brasil, a gente melhorou bastante. Sem nenhuma direção partidária, eu te digo que nesse Governo Lula, nunca se viu tantos editais de pesquisa e tantas condições de se buscar financiamento para as universidade. Ao mesmo tempo aqui no Ceará a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap) foi uma grande auxiliadora desse projeto. Respeitando as proporções de financiamento, ela participou na infra-estrutura destes laboratórios e ainda está participando porque recentemente aprovou um pedido nosso para continuar com esta linha de transgênese. Acho que a gente recebeu um apoio substancial. Logicamente, bem diferente que recebe um pesquisador nos Estados Unidos. Mas respeitando as proporções foi suficiente para dar este passo grande.
OP - Então qual seria hoje a maior dificuldade de se fazer pesquisa no País?
Vicente Freitas - Ainda é a questão do investimento. Acho que melhorou mas ainda não é o ideal. Por isso que em questão de desenvolvimento de patentes e publicações o Brasil está muito atrasado. E o Nordeste está muito atrasado em relação ao Sul do País, mas acho que mesmo assim vale a pena o esforço. Esse projeto da transgênese é um exemplo disso, porque nós começamos sem dinheiro, acreditando na idéia. Fizemos os primeiros experimentos com muita dificuldade. Os resultados foram pequenos, mas nós fomos criando experiência. Fomos adaptando protocolos, desenvolvendo métodos, e aí quando chegou o momento de melhorarmos nossa infra-estrutura, o resultado foi muito rápido.
OP - Então, como o senhor avalia o apoio dado pelo Governo do Estado à ciência e tecnologia?
Vicente Freitas - Acho que o que falta no Ceará para ciência e tecnologia é a gente respeitar o que foi decidido em São Paulo, onde 2% do PIB (Produto Interno Bruto) do estado vai para a pesquisa. Isso é garantido por lei. Tenho impressão que se cumpríssemos isso no Ceará já ia melhorar bastante.
OP - E a atual legislação brasileira está em consonância com as pesquisas realizadas no País?
Vicente Freitas - Acho que alguns itens ainda estão muito defasados e prejudicam as pesquisas. Por exemplo, na questão das importações. Se eu for importar um equipamento para pesquisa, ele vai ser tratado do mesmo jeito que a importação de uma moto. Vai pagar impostos semelhantes, demorar para ser liberado. Eu estou com dois equipamentos para serem importados e o pedido foi feito em julho e até agora não recebi estes equipamentos por causa dos entraves e burocracia.
OP - A transgênese ainda encontra muita resistência na sociedade, principalmente de grupos ecologistas como o Greenpeace. Como o senhor vê isso?
Vicente Freitas - Acho que alguns são radicais em excesso e outros são mais realistas, no sentido de policiar todas estas pesquisas. Não podem ser feitas à toa, porque a gente está trabalhando com manipulação genética e tem que ser avaliada, tem que ser policiada. Agora tem aqueles que ouvem a palavra transgênese e associam ao mal. Mas isso é uma questão de cultura e vai ser difícil a gente se livrar rapidamente. Recentemente houve uma pesquisa nos Estados Unidos onde perguntavam qual era a primeira palavra que vinha à mente quando ouviam a palavra transgênese e muita gente respondeu "Arquivo X". E isso ocorreu em um país desenvolvido.
OP - O senhor falou que às vezes precisa dar plantão no laboratório, como é conciliar o trabalho de pesquisador com a vida familiar?
Vicente Freitas - Isso aí é complicado, mas eu tenho a sorte de ter casado com alguém que está fazendo um doutorado, adora pesquisa e me compreende. É mais ou menos o que ocorre no casamento de um médico. A pesquisa é isso, as vezes você precisa ficar 24 horas direto, cuidando dos cabritos que nasceram, dando mamadeira de duas em duas horas. Essa é a parte menos glamourosa da pesquisa. O pesquisador é uma pessoa comum que faz apenas uma atividade diferente, mas não melhor ou pior do que um motorista de táxi ou um militar.
SAIBA MAIS
TRANSGÊNICO
É um ser vivo que recebeu um gene de uma outra espécie de animal ou vegetal. Eles começaram a surgir a partir do fim da década de 70, quando a revolução que ocorreu na engenharia genética transforma a biotecnologia clássica dando origem à nova biotecnologia. A manipulação do código genético possibilita induzir uma célula a fazer algo para o que ela não estava programada. O primeiro produto derivado de um organismo transgênico a chegar ao mercado foi a insulina, em 1982. Produzida por uma bactéria geneticamente modificada com um gene humano, ela substituiu com vantagens a insulina de bois e porcos.
GENE
Unidade hereditária ou genética, situada no cromossomo, e que determina as características de um indivíduo.
IMUNODEFICIÊNCIA
É um grupo de doenças caracterizadas por um ou mais defeitos do sistema imunológico. Como conseqüência destas alterações, o indivíduo se torna mais propenso a apresentar grande número de infecções.
hG-CSF (FATOR ESTIMULANTE DAS COLÔNIAS DE GRANULÓCITOS)
É uma proteína produzida por um gene humano que atua no combate de diversos problemas de imunodeficiências.
BIOSSEGURANÇA
É uma designação genérica da segurança das atividades que envolvem organismos vivos. É voltada para o controle e a minimização de riscos advindos da exposição, manipulação e uso de organismos vivos que podem causar efeitos adversos ao homem, animais e meio ambiente.
NEXIA BIOTECHNOLOGY
Empresa canadense especializada no desenvolvimento de tecnologias transgênicas para aplicações em produtos.
GTC BIOTHERAPEUTICS
Empresa americana que produziu o primeiro medicamento conseguido a partir de animais transgênicos aprovado para a comercialização. O ATryn, um agente anticoagulante para pessoas com uma doença genética rara - a deficiência antitrombina hereditária, que os torna vulneráveis à trombose -, chegará ao mercado europeu em meados de 2007.
GREENPEACE
Organização não governamental, nascida em 1971, no Canadá, que atua na defesa do meio ambiente. A ONG possui escritórios em mais de 40 países e foi a primeira a estabelecer uma base na Antártida.
PERFIL
Vicente José de Figueirêdo Freitas, 44, fez história ao coordenar o projeto que desenvolveu o primeiro caprino transgênico da América Latina. Formado em medicina veterinária pela Uece, em 1986, desde 1988 leciona na universidade. Desenvolveu o amor pela pesquisa durante a realização do mestrado em Reprodução Animal, em 1991, estimulado pelo seu orientador, doutor José Ferreira Nunes. Em 1996, concluiu o doutorado em Ciência da Vida, na França.
Atualmente dá aulas nos cursos de graduação e pós-graduação em Medicina Veterinária da Uece e desenvolve trabalhos nas áreas de reprodução de caprinos e ovinos e produção de embriões. É autor dos livros Biotecnias Aplicadas à Reprodução Animal, juntamente com Paulo Bayard Dias Gonçalves e José Ricardo de Figueiredo, e Biotecnologia da Reprodução em Pequenos Ruminantes: produção de embriões por transferência nuclear. Além disso, participou do livro Reproduccion ovina y caprina, publicado para o Mercosul, sendo o único brasileiro a ter um capitulo na publicação.
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