Ângela Bessa Linhares
28/06/2008 13:59
Lá havia uma luminosidade que nunca se acabava, de modo que entre a escola e a casa, a rua e o quintal baldio de onde se imaginava o que as coisas poderiam ser, a menina colhia histórias. As palavras, descobriu a menina, tornavam visíveis o que se trazia por dentro e isso era como repartir certo calor. A menina dizia também da tentativa de desvendar o que a realidade traz de divino, na intenção de construir uma espécie de sabedoria espiritual.
A menina notava que havia algo no mundo espírita que ela percebia importante - ela dizia a mim: o que se falava ali fazia a paz ficar como uma coisa tão perto como um braço ou como uma pele. E a menina disse mais: - "Às vezes, quando eu perguntava pela minha avó, pelo seu tempo de muda, por onde ela estava agora, minha mãe dizia que ela tinha morrido; quando eu dizia que tia Miloca via a minha avó pedindo prece e paciência para nosso jeito de ser uns com os outros lá em casa, a mãe dizia que isso era história de alma. E acabava o assunto". - "Também muitas vezes minha mãe mesmo vê pessoas do invisível, ela diz; mas quando a gente pergunta mais, ela reprime e cala, escondendo esse lado da vida se dizer".
Esta questão trazida pela menina nos leva a pensar: como uma consciência espírita pode se erguer considerando o diálogo entre a experiência de si e a experiência social da comunidade onde estamos?
As narrativas permanentemente estão a produzir sentido; e as histórias de alma são formas simples de nossa cultura dar conta dos fenômenos mediúnicos (esse diálogo explícito entre o mundo físico e o espiritual) no cotidiano. Sabe-se, porém, que tocar a questão da mediunidade é visto por muitos como algo contrário às formas de explicação religiosas dominantes. Esquece-se que a sublimidade do plano espiritual e seu convite à nossa evolução se expressam também nas misérias e esperanças que a nossa condição humana possibilita.
Problematizar o presente seria ver suas possibilidades de transformação no miúdo do dia-a-dia e é a partir da experiência concreta que vivemos, nos situando como implicados nestas transformações, que alcançamos realmente pensar no futuro e sua infinitude em nós. O elemento sublime da espiritualidade, então, é reconduzido, nas histórias simples "de alma", à realidade cotidiana.
Vejamos ainda a menina contando aparições: - "Minha mãe, que já morreu, chegou na beirinha da rede de minha irmã e deu três cravos, e disse que cada um seria o amor que ela devia deixar sempre aceso por seus filhos, fizessem eles o que fizessem; isso veio numa hora em que ela morria de medo e dor e estava a ponto de desistir. Veio como um remédio, que aguçou o gosto de viver, amando mais. Foi uma resposta".
Com os filtros de uma ciência e cultura atravessada por interesses de classe, e nos contextos onde a modernidade se pensa desencantada, diminuiu-se muito o manancial rico de escuta do pensamento e da experiência social popular. Como diria o sociólogo Boaventura Santos, isso é um "desperdício de experiência". Deixou-se de fazer uma "escuta sensível" a essa necessidade de desenvolver crença e reflexão sobre espiritualidade; fomos calando e reprimindo uma ordem de fenômenos que não confirma a lógica da mercadoria, mas propõe que se busque outra ordem de valores.
Tecendo mais esse bordado de histórias: é muito comum que nossos sonhos, sentimentos e impressões afetivas que se relacionam com fenômenos mediúnicos nos acordem para questões decisivas, que chamam para uma resposta pessoal diante de dilemas e nos convocam para nos situarmos na vida como ser espiritual em evolução. Na verdade, temos necessidade de produzir sentido e crença para viver. Parece ser preciso, então, construir uma experiência de si que envolva a auto-compreensão de nossas escolhas ético-morais; e isso se relaciona com uma visão de nosso eu infinito. Nesse caminho de conhecer o mundo, lembremos que todo conhecimento do mundo é auto-conhecimento também.
E as histórias e narrativas de nossa cultura, desde a escola, como em casa e na rua, trazem perguntas sobre a experiência de nossas misérias humanas, mas também trazem a expectação e a esperança - por que não desenvolver reflexões sobre o mundo ético-moral junto a questões sobre Deus, alma, perispírito (o corpo espiritual que sobrevive ao físico após a morte), diálogo entre planos físico e espiritual, entre outros temas?
Precisamos criar novas perspectivas educativas para modificar, no humano, as condições no eu e no mundo que produzem a barbárie, as guerras, o patriarcalismo, a desigualdade imensa de riquezas. Pensar em uma cultura da educação, portanto, implica uma nova visão de sujeito humano que o considere como ser espiritual.
Nossa precisão de "atender ao Bem", como nos diz o Espírito Emmanuel - que supervisionou, do plano espiritual, a tarefa gigantesca de Chico Xavier em seus 437 livros psicografados - significa realizar transformação.
"- E assim vou colhendo histórias fundamentais", concluía a menina em seus quintais de crescer. Pode-se ver como a experiência espiritual é um espaço formativo importante e uma experiência de transformação sem par! Repare!
Ângela Bessa Linhares é professora da Faculdade de Educação da UFC e membro da Federação Espírita do Estado do Ceará
Olá, Angela! Tenho enorme respeito pelo Espiritismo, embora divirja profundamente de grande parte de sua doutrina. Uma coisa reconheço: o espírita é, geralmente, alguém caridoso. Quanto a alma(s), à luz das Escrituras Sagradas (velha Bíblia) não há a menor possibilidade de contato entre vivos e mortos. Mas "histórias-de-almas" ainda fazem parte do consciente e subsconciente hu-mano, provocando ora medo, ora curiosidade... Paz e bem. PCSampaio, pastor, palestrante sobre espiritualidade.
Paulo César Sampaio