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Espiritualidade

ARTIGO

Religiosidade x Injustiça

Padre Almir Magalhães


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07/06/2008 13:27

Vivemos hoje um grande paradoxo: de um lado, a explosão do fenômeno religioso da sociedade moderna e "pós-moderna" e, de outro, a injustiça social como algo extremamente normal.

Apesar de os mestres da suspeita Marx, Nietzsche e Freud através de seus escritos, haverem decretado a morte de Deus na perspectiva da emancipação do homem, assistimos hoje, espantados, a uma busca desenfreada por religiosidades marcadamente emotivas, com uma expressiva presença na mídia, a multiplicação dos mais diversificados templos a cada esquina e o próprio espaço que a mesma reconquista na sociedade.

Este já reconhecido retorno do religioso configura-se com novo rosto, predominando nele um estilo utilitarista. O recente documento nº 87, da CNBB (Diretrizes Gerais, 2008-2010), ao analisar esta situação, afirma que o perfil da religião hoje acaba por oferecer um bem-estar interior, terapia, sucesso na vida e nos negócios e que esta modalidade de religião é muito procurada pela mídia, que acaba por reduzi-la a mais um espetáculo (cf.nº 39). Segundo o teólogo Mário de França Miranda, isso leva ao desinteresse pelo bem comum e pelas grandes causas e, ao mesmo tempo, esta irrupção do religioso pode estar querendo nos dizer que o ser humano não consegue suportar uma sociedade totalmente secularizada (isto é, sem Deus).

Neste retorno do sagrado, há uma tendência, em setores da sociedade, de admitir a prática religiosa apenas na esfera privada, com base numa sociedade laicista e que acaba por criticar as manifestações da Igreja em matéria de moral e sua presença na vida pública, destituindo a religião e as Igrejas da dimensão profética e desconhecendo, numa sociedade pluralista e democrática como a nossa, a liberdade de as Instituições manifestarem seus ideais e colaborarem na construção da história.

A grande questão é que tudo isso acaba dando um corpus, uma configuração à religiosidade hoje, que estranhamente convive com a injustiça, com a miséria e outras formas de desumanização, sem articular seus adeptos para a mudança, para a transformação desta situação. É muita religiosidade, muita busca de Deus e paradoxalmente muita injustiça, muita miséria, muita fome, muita exclusão social, falta de ética, corrupção, morte prematura, tudo isto contemplado por quem reza muito, por quem ora muito, por quem tem a oportunidade de se formar biblicamente, por quem se reúne tanto, por quem recebe o Cristo Eucarístico, por quem participa do Mistério Pascal (Missa) e dos respectivos cultos e, principalmente, por quem preside estes cultos em suas respectivas comunidades.

No caso do cristianismo, podemos lembrar da prática de Jesus que, no início do seu ministério, era seguido por multidões. Mas a partir do momento que começa a colocar as exigências para o seu seguimento a situação muda. Esta realidade é de fácil constatação no Evangelho de João, depois da realização do quinto sinal (Jesus caminha sobre as águas). Logo em seguida, transmite a mensagem do pão da vida na Sinagoga de Cafarnaum. Após ouvirem essas coisas, muitos discípulos de Jesus disseram: "Esse modo de falar é duro demais. Quem pode continuar ouvindo isso?". Jesus sabia que os discípulos estavam criticando o que Ele tinha dito. Então, lhes perguntou: "Isso escandaliza vocês? As palavras que eu disse a vocês são espírito e vida. Mas entre vocês há alguns que não acreditam". A partir desse momento, muitos discípulos voltaram atrás, e não andavam mais com Jesus. (Ver João, 6, 60-66).


Fazendo uma ponte entre este trecho de São João e a realidade religiosa hoje, nota-se que muita gente não se sente aberto para escutar vozes proféticas as quais chamam a atenção para a configuração de uma experiência eclesial que atualize a memória de Jesus Cristo. Elas apontam para o sofrimento de milhares de irmãos nossos que encaram a vida a partir unicamente da ótica da sobrevivência e portanto sem dignidade e perante a nossa insensibilidade diante dessa realidade. É uma verdade inconteste que sempre há algum trabalho pelos pobres, mas como destinatários de nossas esmolas e não como sujeitos, protagonistas que precisam crescer. Vozes proféticas convidativas a um novo estilo de pastoral que não se reduza à Matriz paroquial e que parta das comunidades, que passam a ser o eixo de articulação da estrutura eclesial, que clamam por um jeito circular de ser Igreja, eliminando-se assim toda forma de autoritarismo, de relação senhor x escravo.

Convido a retomar, a partir daqui, todo o ensinamento de Jesus, confrontando-o com a experiência religiosa hoje, como já foi dito, marcada por características não articuladas com o compromisso para se fazer valer uma história que não tenha como valor supremo o mercado e o lucro, gerador de exclusão, tornando as pessoas objetos desprezíveis.

Tudo indica que a grande questão hoje chama-se conversão-abertura: uma mudança radical de nossa mentalidade apegada a estruturas e que acha que lutar contra as injustiças não faz parte da nossa agenda porque não diz respeito à religião (e vamos mantendo o que já existe). Se não fazemos hoje como os discípulos do Evangelho acima citado, que abandonaram Jesus e não mais o seguiam, é porque, como disse o papa Bento XVI, estamos diante de nossa maior ameaça: "O medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez" (Doc. Aparecida , nº.12).

Vamos, portanto, partilhar o modo de vida do mestre, assumir o seu destino.


Padre Almir Magalhães é sacerdote da Arquidiocese de Fortaleza, reitor do Seminário Arquidiocesano de Filosofia, professor do Itep e mestre em Missiologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma


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Comentários

Prezado Nelson e Magnífico Reitor (Pe.Almir), à guisa de informação sobre a "Santa Inquisição", tenho uma histórinha bôba pra relatar, cuja origem se fundamenta em registros documentais da própria entidade. Um verdadeiro "tiro no pé": um pessoa era "denunciada" especialmente os Judeus - visto que a Igreja queira mesmo era o seu patrimônio e não é ela prega(va) - se a pessoa no decorrer do processo chegasse a FALECER, o processo continuaria e, se, quando do seu julgamento ela fosse CONDENADA, as autoridades inquisitórias ezumavaM o corpo e, seus OSOS eram QUEIMADOS em Praça Pública !!! Tudo em nome de DEUS !!! Fonte: BETHENCOURT, Fco. História das inquisições. S. Paulo: Cia.Letras. Sr. Nelson e Magnífico Reitor, eu duvido que a TV Canção Nova traga temas como este para ser lido, analisado e discutido, ao vivo, mesmo tendo como "publico" essa massa inculta que a assiste !!! Duvido !!!

José Célio Gomes Andrade.

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Prezado Padre Almir, desculpe-me dizer-lhe, mas o Bento VI que o sr. cita é o mesmo Bento XVI que no reinado anterior comandou com mão-de-ferro a Congregação para a Doutrina da Fé, nova denominação (conveniente) para o antigo Tribunal do Santo Ofício, mais conhecido do grande público como Tribunal da Inquisição. Aquele das fogueiras. O mesmo que foi da juventude hitlerista, e que os vaticanistas apelidaram pouco carinhosamente de ?Panzercardinal? e ?Rottweiler de Deus?. O mesmo que o jornal inglês The Observer (ver revista Carta Capital de 03.05.05) acusa, com provas documentais, de ter obrigado seus bispos ao redor do mundo a encobrir, sob pena de excomunhão, milhares de casos de pedofilia praticados por clérigos católicos pelos quais a Igreja se viu obrigada a pagar mais de US$1,5 bilhão! Não seria tudo isso o mesmo "medíocre pragmatismo da vida cotidiana da Igreja, no qual, aparentemente, tudo procede com normalidade, mas na verdade a fé vai se desgastando e degenerando em mesquinhez"?

nelson castelo branco eulalio filho

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Pe. Almir, suas referências a Max, Nietzsche e Freud, são sem fundamentos !!! Oxalá tivessem os cientístas, ateus e agnósticos comandadas todo o sistema educacional e político do mundo, desde seu princípio, !! Afora o desenvolviemento das artes e da arquitetora que a Igreja patrocionou em seu PROVEITO, desconheço outro à humanidade que ela tenha patrocinado. A ciência, a tecnologia a cultura deve ao estágio em que se encontra, não à Igreja, e sim, à sociedade laica. Já com relação a explosão das religiões, também não é verdade que estamos no fundo do poço! Antes foi muito pior. Veja a TV Canção Nova. O que se vê e ouve de barbaridades lá, não é brincadeira! Pe. Almir, hoje Países como: Austrália, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Holanda, Inglaterra, Japão, Suíça e Suécia estão entre as sociedades MENOS RELIGIOSAS da terra.Estas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa de vida, da ONU em: alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxas de homicídios e mortalidade infantil !!!!Inversamente, os 50 Países que ocupam os lugares mais baixos, segundo o índice de desenvolvimento humano da ONU, são inabalavelmente RELIGIOSOS !!! Agora, enquanto o poder público estiver comprando a Bíblia (livro cheio de contradições e com uma gênese altamente questionável)para que seja "ensinada" nas escolas, em vez dos filósofos acima citados e outros tantos, não sairemos desse fundo do poço em que se encontra a séculos nossa sociedade. Uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade.Autor: JOSEPH GOEBBELS, marqueteiro de Hitler. Pe. Almir, ao escrever, não precisa dizesr que é isso, aquilo e aquilo outro. Deixe estas vaidades para a sociedade laica !! P.S.: Este Jornal deveria abrir espaços para pensamentos diferentes !

José Célio Gomes Andrade.

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