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Especial Fortaleza

PONTO DE VISTA

Olhar de filho

Ivonilo Praciano


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15/11/2007 01:24


Passear pela cidade me anima bastante. Sem nenhum tipo de ranço, ou talvez por um amor muito profundo, acabo observando Fortaleza com aquele olhar filial. Embora perceba que existem senões, dedico-me também a ver, com cuidado, seus recantos e sua beleza. Nosso decantado cartão postal: a Beira Mar. Andar preguiçosamente, voltando-se para o mar, sentindo as curvas da sensualidade litorânea é um grande prazer, quase sexual. Em noite de lua cheia, é um êxtase. Uma louca emoção se apodera da gente e faz com que esqueçamos as calçadas mal cuidadas, pedintes mal cheirosos e aquela feira de artesanato, tão bonita, e tão mal localizada. Mas, ainda assim, é linda a Beira Mar.

A Praia de Iracema é cheia de vida, de jovens, ritmos e sensações. Alguns vêm com saudades. Outros vivem, vivenciam, se deleitam e, quando podem, dançam enlouquecidamente, o pré-carnaval mais animado, badalado, preferido da cidade. O lado próximo ao mar está depredado. Outros recantos permanecem lotados distribuindo noitadas inimagináveis. Convive-se com as diferenças. Continua democrática e viva. Cheia de vida como se fosse uma adolescente encantada.

Mirante é uma saudade. O Morro de Santa Terezinha conquistou seus momentos de glória. Todas as tribos passaram por lá. Ele, o Mirante, recebeu todos de braços abertos, desejando-os e provocando desejos. Até que foi deixado à deriva como se fosse um velho navio. Sofreu e nós que o amávamos padecemos todas as angústias. Em vão! Nada feito. Só promessas. São poucos os espaços para se vislumbrar nossa cidade de cima. O Mirante permitiu muitos olhares, diferentes, afetivos, sentimentais sobre Fortaleza. Ele está lá, no mesmo Mucuripe, lindo e descortinado, aguardando ser novamente privilegiado com sensações e amores inesgotáveis.

No Centro histórico, muitos casarões resistem. É um rebuliço! Uma esculhambação delirantemente viva. É o espaço do povo. Dominam descaradamente as ruas, calçadas, cafés, camelôs e as lojas que estão sempre cheias. Compram mais a dinheiro do que no crediário. Nome sujo ou “desceu”, como eles dizem, referindo-se ao Serasa. Interessante a alusão porque quando se é preso o povo também trata com o mesmo palavreado. Quando não, é porque simplesmente não gostam de crediário. Não querem ficar devendo. É uma louca convivência daquele povo ávido, em busca de chegar a lugares diferentes ou até próprios do seu imaginário. Mas, eles não abandonam o velho Centro histórico por nada desse mundo, nem pelos shoppings mais sofisticados. Visitam.

Porém, não se apropriam como se estivessem em sua casa. Essa nossa cidade precisa ser mais observada. Cotidianamente. Não só quando há uma polêmica urbana. Ela é como todas as pequenas que começam a botar a cabeça de fora e virar metrópole. É importante discuti-la agora enquanto há tempo. Assim como é fundamental abrir seu olhar e ampliar sua maneira de vigiar. Ela é tão amorosa e bonita que precisa muito ser amada.


Ivonilo Praciano - Jornalista

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