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Especial Fortaleza

POSSÍVEIS CAMINHOS

Cidade dos sonhos

Com respeito ao passado e olhos voltados para o futuro. É dessa forma que a cidade pode requalificar áreas de caráter afetivo e histórico, como a Praia de Iracema e o Centro. Um debate de qualidade é apontado como caminho. A reativação do Instituto de Planejamento do Município também


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15/11/2007 01:24

(Foto: Sebastião Bisneto)
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(Foto: Sebastião Bisneto)

Uma cidade onde se possa ir a pé. Seja para trabalhar, morar, passear, fazer compras, namorar, conviver e circular. Parece tão simples, mas é essa a definição de uma "cidade ideal" segundo conceitos do Novo Urbanismo, movimento que emergiu na última década do século XX, em reação ao planeamento praticado nas áreas suburbanas dos Estados Unidos, desde a década de 40, com o baby boom, os novos life-styles e as migrações das zonas rurais para as grandes áreas urbanas.

Com o novo pensamento, o homem e a mulher, a cidadã e o cidadão recuperam o seu legítimo lugar e regressam à rua, à praça, ao quarteirão, ao jardim. A idéia é o oposto do que se configurou nas metróples brasileiras nos últimos 20 anos. Pressionadas pelo crescimento da frota de veículos, as grandes cidades executaram enormes projetos de ajuste viário com avenidas que rasgam seus bairros. Em Fortaleza ou Florianópolis, no Rio de Janeiro ou Recife, os resultados foram muito parecidos: enormes perturbações cujo efeito é desvitalizante e desurbanizador. A avenida Washington Soares segue esse exemplo.

Segundo o Professor de Antropologia do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Ceará, com mestrado em Antropologia Urbana pela Sorbonne, de Paris, Paulo Linhares, a expansão da cidade para o Leste a partir de grandes vias, como a Washington Soares, é vista equivocadamente pelo censo comum como um avanço, quando, na realidade, é um retrocesso. "A verticalização é uma coisa boa, desde que feita dentro de regras de urbanismo. Quanto mais uma cidade se espalhar, mais a vida pública fica cara e prejudicada a população de baixa renda", explica. Autor do livro Cidade de Água e Sal (Editora Fundação Demócrito Rocha), sobre a formação urbana de Fortaleza e a relação da cidade com o mar, Linhares acredita que a questão fundamental que se coloca para a capital cearense - diante do esvaziamento do Centro histórico e da deterioração da Praia de Iracema - é a reabilitação urbana, ou seja a mudança de função de áreas degradadas. De acordo com Linhares, convivem hoje duas visões - ambas enganadas - sobre essa questão: uma saudosista da esquerda política e outra especulativa pela lente da direita.

Por um lado, é impossível trazer de volta uma Praia de Iracema dos anos 30. Do outro, o turismo especulativo de cidades cenários não convence. "Essa mudança urbana exige hoje alguns consensos sociais que dependem de uma comprensão de extrema qualidade e complexidade. A gente não tem esse consenso, por isso que a cidade é dominada por esses pulsos sem qualidade", acredita. Para o professor, a solução desses problemas urbanos de Fortaleza - ligados a espaços afetivos e históricos da cidade - está na criação de novos equipamentos públicos nessas áreas e de um nova economia que mude a função urbana do lugar. Ou seja, na implementação de novos usos desses espaços. Perpassando por habitação e por um mix de serviços e atividades. "O centro tem vitalidade. Não é uma questão de revitalização, é uma questão de qualidade", acentua. Entre exemplos bem-sucedidos de reabilitação, ele cita o bairro La Villete, em Paris, onde foi construído um centro cultural na área do mercado velho da cidade.

Para o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Ceará (IPHAN), Romeu Duarte, o caminho para soluções urbanas para a cidade deve começar com a reativação do extinto Instituto de Planejamento do Município (Iplam). "Eu ainda acredito num planejamento desde que seja feito profissionalmente e com a participação da sociedade. Acho fundamental. Eu defenderia a volta do instituto com uma boa retarguarda de informática. As secretarias executivas regionais - que hoje trabalham de maneira fragmentada - poderiam trabalhar com diagnósticos e ao mesmo tempo elaborando termos de referências". O arquiteto Jayme Leitão, diretor da Reata Engenharia, concorda. "A administração pública da cidade tem que passar por um processo de revolução do instituto de planejamento de caráter exemplar, com profissionais de carreira e urbanistas que venham enriquecer, e com um trabalho que esteja acima do prefeito de plantão", diz.

Para ambos, a solução para a deterioração da Praia de Iracema não está na construção de museus, referindo-se a proposta da Prefeitura de desapropriar 27 imóveis na área. "Isso não funciona, só vai criar despesa. O poder público não tem poder para fazer tudo, tem que ser indutor, tem que criar uma operação consorciada", diz Jayme. (Juliana Girão)


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