Juliana Girão
da Redação
Depois da surpresa, a opinião quase unânime. Arquitetos e urbanistas de Fortaleza desaprovam a escolha da avenida Washington Soares para sediar o Pavilhão de Feiras do Ceará
15/11/2007 01:24

As idéias de uma dona de casa, moradora da Nova York da década de 60, servem ainda hoje para explicar as questões urbanas das metrópoles. Observadora arguta do universo cotidiano, a norte-americana Jane Jacobs criticava megaprojetos de reurbanização nos quais uma arquitetura monumental, de viadutos, vias expressas e florestas de concreto, configurava a nova paisagem das grandes cidades. A solução pregada por Jacobs - que lhe conferiu grande prestígio e tornou a sua obra Morte e Vida de Grandes Cidades uma leitura obrigatória nos cursos de Arquitetura e Urbanismo - recaía sobre a necessidade da diversidade urbana: usos combinados que geram a presença de pessoas em horários diferentes, valorização de quadras curtas, edifícios de diferentes idades. Quer dizer, ao contrário das megaproporções, o microcosmo dos bairros constituíam uma vida rica e densa de significados. O exemplo da dona de casa - que virou referência crítica - serve para apontar como os projetos urbanísticos brasileiros andam na contramão do real funcionamento de uma metrópole. E Fortaleza não fica de fora.
Nas últimas duas semanas, uma polêmica reforça (e acentua) essa constatação. A notícia - antecipada pelo O POVO no último dia 6 - de que o Governo do Estado irá construir o Pavilhão de Feiras do Ceará na avenida Washington Soares, num tereno de 16 hectares entre o Salinas Casa Shopping e o Centro de Convenções, causou rebuliço entre arquitetos, urbanistas e pensadores da cidade. Sem um estudo técnico conhecido ou uma série de debates na cidade, a definição da localização foi comunicada a um grupo de 12 deputados federais e ao senador Inácio Arruda (PCdoB), durante encontro com o governador Cid Gomes, para discutir a inclusão de emendas em favor do Estado no Orçamento Geral da União. Diante da falta de pedido de sigilo, o relator-geral do Orçamento e um dos participantes do encontro, deputado José Pimentel (PT), informou que o governador solicitara prioridade para a obra.
Depois da surpresa inicial, a opinião parece ser quase unânime: o local escolhido é um equívoco. Pelo menos é o que pensam os arquitetos ouvidos pela reportagem. Ficou difícil até encontrar um contraponto para a questão. Entre os motivos apontados, a iminência da degradação ambiental às margens do Parque do Cocó, o esgarçamento da avenida Washington Soares e a necessidade de se levar o projeto - pela sua magnitude - para uma área degradada da cidade. "Fortaleza perde essa chance de ter um grande equipamento que possa ser âncora dessa requalificação do entorno do Centro, pela direção oeste", diz o presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento do Ceará (IAB-CE), Antonio Martins Rocha Junior. Outro erro comentado pelos arquitetos: a decisão de dividir o Centro Multifuncional de Eventos e Feiras do Ceará em partes. O projeto anterior previa Centro de Convenções, Pavilhão de feiras, teatro e grande auditório numa mesma área. "É uma lástima resolver dessa forma. A gente fica oscilando entre o imediatismo, a megalomania, a falta de proposta, a falta de conhecimento da morfologia urbana de Fortaleza", diz o superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Ceará (IPHAN-CE), Romeu Duarte.
A decisão do Governo soou, no mínimo, antipática. Tanto para Romeu Duarte quanto para Rocha Junior foi um espanto o Governo não ter levado em consideração as discussões realizadas em março deste ano na Conferência de Busca de Estratégias e Ações para o Centro de Eventos que Queremos, em Beberibe. Na ocasião, o governador Cid Gomes abriu o encontro para legitimar junto à sociedade a intenção de iniciar a construção de um novo centro de eventos no Ceará, capaz de atender às demandas do setor turístico pelos próximos 30 anos. O seminário reuniu representantes de cerca de 12 grupos de influência e 51 setores que devem sofrer impacto direto com o desenvolvimento do turismo. "Os dois pontos mais votados para a construção foram a Praia Mansa e o Centro da cidade. A Washington Soares foi votada, mas por poucos. Outra coisa que ocorreu é que muita gente se mostrou contra aquele projeto anterior do Poço da Draga", diz o presidente do IAB, referindo-se ao projeto elaborado pela empresa Price Watherhouse Coopers, que envolveu no segundo governo Tasso Jereissati cerca de 50 arquitetos e engenheiros de várias especialidades, sob coordenação da a Associação Técnico-Científica Engenheiro Paulo de Frontin - Astef (UFC).
DISCÓRDIA
Enquanto o equívoco da escolha da Washington Soares para o Centro de Feiras é unânime, as demais opções de localização que se colocam em pauta para o Centro de Convenções (ainda sem definição) é motivo de discórdia. Procurado pelo O POVO, um dos arquitetos envolvidos no projeto inicial do Poço da Draga preferiu não se pronunciar mais sobre o assunto. "Já falei o que tinha para falar. Já escrevi o que tinha para escrever", resumiu. Para Romeu Duarte, o projeto era "absurdo e megalomaníaco". "Simplesmente queriam fazer um aterro de 29 hectares como se Fortaleza fosse uma Holanda, como se não tivesse terra, numa área delicada que é um sítio histórico como aquele", diz. O superintendente defende que a melhor localização para o equipamento seria no entorno do Centro da cidade, no terreno da Escola de Aprendizes Marinheiros do Ceará, especialmente, pela facilidade de acesso.
O arquiteto e empresário Jayme Leitão defende que o Poço da Draga não seja descartado pelo atual Governo. "O governo do estado (na era Tasso Jereissati) fez uma coisa incomumente bem feita em termos de processos. Contrataram uma consultoria internacional. Chegou-se à conclusão óbvia de que tem que ser no Poço da Draga. Vai juntar a cidade rica do leste com a pobre do oeste. É uma zona de interesse histórico, abre o centro da cidade para o mar, revitaliza o Centro e garante o surgimento de um pólo hoteleiro espontâneo". O arquiteto lamenta a descontinuidade renovada pelo executivo "de plantão" que impede o planejamento de longo prazo para a condução de projetos e metas que não cabem no espaço de um mandato, num processo de desmonte. "O que vemos é mais do mesmo", resumiu.