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Moradores do Pecém temem desapropriação

Na comunidade de Bolsas, no Pecém, o desenvolvimento que se quer para o Ceará assusta. Moradores temem desapropriação, sendo que muitos já receberam a visita de enviados do Governo


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19/07/2008 14:13

Dona Clarice e seu Salomão moram em um sítio na comunidade de Bolso, com risco de desapropriação:
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Dona Clarice e seu Salomão moram em um sítio na comunidade de Bolso, com risco de desapropriação: "seria a pior coisa que poderia acontecer" (Foto: Edimar Soares)

A casa simples de dona Clarice, 75, e seu Salomão Aguiar, 70, tem cheiro de mandioca e limão. Lá, criaram os filhos e netos, mas temem ter que sair da propriedade em que moram desde sempre para da lugar ao desenvolvimento. É que o terreno do casal está na área de interesse público para receber os grande empreendimentos previstos para o Ceará. "Há duas semanas chegou um casal aqui dizendo que estavam a mando do Governo. Entregaram o cartão e disseram que nossa família ia ser desapropriada para a Siderúrgica", conta dona Clarice.

Dona Clarice explica que eles chegaram a sugerir uma reunião entre a família dela e os vizinhos mais próximos, que também são da família, mas não falaram em valores. "Na hora eu disse, ´meu amigo, mas que conversa é essa?! Poderíamos comprar um terreno do outro lado da CE (085)? Eles disseram que não, que a intenção é que as desapropriações sigam até a BR-222", diz. Para a surpresa da família, há alguns dias pessoas estranhas teriam entrado no terreno sem pedir autorização e feito uma espécie de medição. "Cortaram até uns galhos do cajueiro", reclama.

Com os olhos marejados, dona Clarice diz que a desapropriação "seria a pior tristeza que poderia acontecer", mas prefere não se preocupar antes da hora. "Não estou preocupada porque até agora pra mim isso não existe! Meu marido e meus filhos passam noite sem dormir, mas a minha ficha ainda não caiu", conta.

A família do casal Aguiar vive da agricultura. Ao lado da casa, fazem farinha e se orgulham de ter no quintal de casa boa parte da alimentação que consomem. "Nós vamos pra onde? Aqui temos tudo que precisamos, coco, goiaba, água boa", diz. O medo principal da família é com a termelétrica, que deve funcionar a carvão. "Dizem que a termelétrica vem acabando com tudo. Contam que o carvão vai passar por uma esteira pelo ar", repercute o boato local. "Medo eu não tenho. Mas não tenho vontade de sair daqui", conta seu Salomão. A propriedade de 32 hectares é o orgulho. "Não venderia nem por um milhão. Não sei nem lhe dizer sobre esse desenvolvimento. Acho que pro pessoal novo tá certo. Mas na minha idade só se quer cuidar da casa e das galinhas", finaliza seu Salomão.

Resistência
Um dos grandes questionamentos em torno da desapropriação das terras da comunidade de Bolsas está no fato das terras em questão terem sido habitadas pelos índios Anacés. "Estamos agindo para que a comunidade seja realmente reconhecida como sendo indígena. Assim não poderiam desapropriar", diz Andréa Rodrigues, da Pastoral do Migrante, que tem reunido comunidades para discutir a posse das terras. "Queremos uma linguagem única. Que ninguém assine nada. Falam dos empregos, mas os empregos que aparecem são temporários, não temos mão-de-obra qualificada aqui", diz.

Antônio Balhmann, presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico do Ceará (Adece) confirma que já está havendo o diálogo com pessoas que vão ser atingidas pelos empreendimentos. Balhmann reconhece ainda que as desapropriações feitas para a construção do porto foram polêmicas, fazendo com que as famílias que ainda resistem na região fiquem apreensivas. "Como no passado as comunidades foram mal informadas e mal abordadas, a idéia é conhecer os anseios de cada um deles para construir uma interface entre Governo, empresa e moradores. Todas as pessoas das áreas devem ser beneficiadas com treinamento e capacitação. Não deve ser uma desapropriação por desapropriação", defende. Ainda não se sabe quantas famílias serão desapropriadas. "Cada caso é um caso. O processos vão nos dizer o que é melhor: discutir as desapropriações em conjunto ou individualmente", diz Balhmann, complementando que a situação agora deve ser entendida como definitiva. (Dalviane Pires)


Dicionário

Desapropriação - Procedimento pelo qual o Poder Público transfere, compulsoriamente, para si a propriedade de bem móvel ou imóvel pertencente a terceiro, para atender interesse social, utilidade pública ou necessidade pública, em regra, mediante pagamento de justa e prévia indenização. Na desapropriação há aquisição originária da propriedade, por meio de uma transferência forçada, não importando que o terceiro tenha o justo título e boa-fé do bem expropriado.

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Comentários

O que vemos são desapropriações à baixo custo, que não leva em conta o ser humano, a sua cultura e o valor sentimental do bem. Desapropriam por valores irrisórios e não fazem o acompanhamento social dos que são atingidos. O que é pior: muitas vezes o pagamento sai depois de muitos anos, sem correção.

Francisco Mendes

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Chamar de grande empreendimento esse desrespeito aos moradores da área do complexo do Pecém, é ludibriar a população daquela localidade dos efeitos nocivos que tal progresso vai de encontro aos anseios do município de São Gonçalo do Amarante. Primeiramente, os custos do investimento na instalação de uma usina de carvão mineral no complexo do Pecém, representa uma significativa economia para o governo do Estado do Ceará, pois o carvão importado da Colombia sai em torno de U$S 24,00 por tonelada e apenas 80 funcionários são necessário para o controle dessa usina. Daí já se descarta essa promessa mirabolante do governo em se tratando de emprego. O mais agravante são os efeitos provocado por esse carvão (mineral), pois 40% dos gases lançados na atmosfera, decorrem desse minério que está causando o efeito estufa e conforme estudos, estabelece que para cada 1 tonelada de carvão queimado quadruplica o dióxido de carbono (CO2), como também o CO ( óxido de carbono),enxofre e material particulado. Tudo isso, causa um impacto irreversível à terra, contaminando o lençol freático de água potável, a fauna, a flora e a vida humana no âmbito da saúde, ao contrair doenças respiratórias, cancerígenas dentre outras prejudicias para a vida animal. Especialistas já alertaram a possibilidade de chuvas ácidas num raio de até 300 Km, enquanto o litoral cearense tem na sua extensão, um pouco acima de 500 Km, o que favorece o retorno dessas águas pluviométricas eivadas de poeiras lançadas na atmosfera junto com resíduos e efluentes líquidos sobre o lençol freático, comprometendo o abastecimento dágua. Sobre essa desapropriação, percebe-se uma celeridade do governo em tangenciar os moradores da região o quanto antes, no intuito de beneficiar as obras da empresa MPX Energias S/A, de propriedade do empresário Eike Batista, expulso recentemente da Bolivia e envolvido na operação ?Toque de midas? da Polícia Federal, governo do Amapa-Pa, na construção de uma estrada de ferro naquele estado.

Antonio Ricardo Viana Câmara

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