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Economia

CRISE DO TRIGO

Primeiro semestre recheado de aumento

Wânia Caldas
da Redação

Sucessivos aumentos nos preços de pães, massas e biscoitos estão previstos para este primeiro semestre


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27/03/2008 01:10

Matéria-prima: as sucessivas quebras de safra também estão influenciando o aumento dos preços (Foto: Edimar Soares)
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Matéria-prima: as sucessivas quebras de safra também estão influenciando o aumento dos preços (Foto: Edimar Soares)

O preço da farinha de trigo será reajustado em 20% nos próximos dias no Ceará e vai repercutir em toda a chamada "cadeia do trigo", que inclui massas, biscoitos e pães. O valor do saco de farinha de 50 quilos vai passar dos atuais R$ 100 para R$ 120 até a primeira quinzena de abril. A previsão do setor é que até o fim deste semestre aconteçam aumentos sucessivos em todos os produtos derivados do trigo para compensar a alta da matéria-prima.

No caso do pão, já estão previstos dois aumentos até o dia 30 de abril, somando três reajustes em apenas quatro meses, já que em fevereiro houve alta de 10%. O próximo também será de 10%, aumentando o quilo do pão carioquinha de R$ 6 (média atual) para R$ 6,60 até o fim desta semana. "No mês que vem, teremos mais um rejuste de 15% e esse não deve ser o último deste semestre porque é praticamente certo que o preço do trigo vai continuar subindo", afirma o presidente do Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria no Estado do Ceará (Sindpan), Ricardo Sales.

De acordo com ele, o problema está nas sucessivas quebras de safra de trigo que vêm afetando os principais produtores do mundo: Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina. "De março de 2007 para março de 2008, o preço do trigo em grão aumentou 104% e o da farinha, 50%, o que repercutiu em todos os produtos derivados. O pão sofreu reajuste de 20% nesse período e até junho não vemos previsão de melhora no cenário. Para piorar, a Venezuela, que deixou de comprar trigo dos Estados Unidos, fez um acordo com a Argentina para trocar gás natural por trigo. É a situação mais grave dos últimos 20 anos", reforça Sales.

Já o presidente da Associação de Moinhos do Norte e Nordeste, Roberto Schneider, diz que a causa do aumento exorbitante do trigo, que passou de US$ 160 em 2006 para US$ 430 este ano (valor por tonelada), não é a falta de oferta. "Os estoques mundiais de trigo realmente vêm caindo ao longo dos anos, passando de 149 milhões de toneladas para 110 milhões no início de 2008, mas tem muito trigo para comprar, o problema é que é muito caro. A grande crise não é de desabastecimento, é de preço", analisa.

Schneider acrescenta que a alta no preço do trigo fez com que o Governo Federal interrompesse a cobrança da Tarifa Externa Comum (TEC) até junho para que o Brasil possa comprar a commodity sem o acréscimo de 10%. "Isso anulou as vantagens de se comprar da Argentina, que parou de vender o produto para não prejudicar seu consumo interno. O Brasil então recorreu a Estados Unidos e Canadá, mas sofre com o valor do frete que passou de US$ 30 no ano passado para US$ 70 este ano e ainda tem que pagar 25% sobre o valor porque os fornecedores não fazem parte do Mercosul".


EMAIS

- Ontem, sindicatos e associações relacionados à "cadeia do trigo" reuniram-se no Brasil inteiro para discutir a crise e os aumentos que serão repassados aos produtos derivados do trigo.

- O Brasil consome cerca de 10,3 milhões de toneladas de trigo por ano, mas só produz de 4 milhões a 4,5 milhões de toneladas.

- Este ano, o Brasil já comprou 3 milhões de toneladas da Argentina e vem negociando com países como Estados Unidos e Canadá.

- A Argentina produziu 14,5 milhões de toneladas na safra 2007/2008 e vendeu 7 milhões de toneladas em apenas um mês.

- Os 7,5 milhões de toneladas restantes atenderão ao consumo interno daquele país, que é de cerca de 5,5 milhões, e cerca de 2 milhões de toneladas serão comercializados até abril.

- O Brasil terá que enfrentar a concorrência da Venezuela para comprar o trigo da Argentina no próximo mês, já que o país do Hugo Chavez parou de comprar a commodity dos Estados Unidos.


NÚMEROS

168,75% foi quanto o preço do trigo aumentou no mercado internacional de 2006 até esta semana, passando de US$ 160 para US$ 430 (a tonelada).

3 é o número de reajustes que o pão carioquinha sofrerá em apenas quatro meses (de janeiro a abril de 2008).

110 milhões de toneladas é o estoque mundial de trigo.


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