Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio - textos e Evilázio Bezerra (Fotos)
Enviados a Cococi (Parambu)
Na aridez de Cococi, poucos pés de gente. A cidade hoje esvaziada já foi o marco de riqueza
31/10/2007 02:55

Sobre Cococi, a poeira e o deserto humano. Casas sem gente. Rua sem barulho, fachadas despedaçadas, ruínas, mato alto. Todas as portas fechadas. Uma igreja secular silente. No fim de tarde, projeta sua silhueta portuguesa para a parede vizinha. É a maior construção do lugar. Só se abre para missas três vezes ao ano. Em frente, uma cadela esquecida com fome e seus filhotes, galinhas ciscando pedra e comendo insetos. Ao lado, a escolinha que recebe alunos dos distritos vizinhos. Na outra ponta da rua, a única propriedade habitada regularmente. Por um caseiro, sua mulher, uma neta e um afilhado pequenos. O resto é vazio. O catavento range para puxar um fio de água. Os animais, 160 reses, badalam o sino do pescoço em algum lugar próximo. Berram por entre sobras de pasto dos arredores. A época é de secura.
O prédio que era o cartório desabou. O hotel tem só a parede da frente e as de lado. A casa maior está cerrada, com teias nas venezianas e no trinco da porta. As pessoas ainda passam por Cococi, mas sempre para outro rumo. Aos distritos vizinhos. Ou são curiosos, como pesquisadores ou jornalistas. "Por que vêm sempre gente aqui para filmar, hein?", pergunta dona Ana Alves das Neves, 55, moradora restante, ao lado do marido Antônio Pereira Feitosa, 46. Estão lá há três anos. Quando chegaram, ainda havia mais três famílias. Por que abandonaram o Cococi? "Ah, sei não", responde seu Antônio. Silêncio para o resto da resposta.
Cococi significa "lugar perto da água, também pode ser coco pequeno", conta dona Dolores Feitosa, 83, estudiosa por conta própria do lugar. Ela é superintendente do Meio Ambiente de Tauá e guardiã do memorial da família Feitosa. O distrito pertence a Parambu, mas fica também próximo à sede municipal de Tauá. Chega-se pela estrada das sete porteiras. Dona Dolores tem uma fazenda na vizinhança do distrito. O marido dela, falecido há três anos, era da família que desbravou a caatinga e habitou o lugar pela primeira vez.
Os Feitosas fundaram o Cococi. Colonizaram os Inhamuns por lá. Pelo início dos 1700. A igreja é da segunda década do século XVIII. Cococi já chegou ao status de município, em 1955, por decreto. Mas, após três gestões, em 1968 foi extinto e voltou à condição de distrito.
Aos pés da dita igreja, nos meses de maio, agosto e dezembro, Cococi ainda renova-se de gente por alguns dias. Justamente quando sua igreja se abre. Em festejos da padroeira, Nossa Senhora da Conceição, em maio, agosto e dezembro. Dona Ana diz que a rua se encobre de barulho, pisadas, bandeirinhas, música, rezas, promessas. "Fica lotadim", de festa e gente. De tudo que não tem quase sempre.
Dona Ana tem a chave da igreja e, a pedido, escancara as portas e janelões no fim da tarde para uma sessão de fotos. Seu Antônio não acompanha, sai para aboiar. Dentro, bancos azulados, paredes pintadas, santos bem cuidados. Aos pés do altar, retratos de anjos, com olhares fixos, tão reais como o de crianças.
- E as histórias sobre visagens que existiriam em Cococi? A senhora já ouviu falar?
- Eu vejo o povo falar, mas eu num sei porque nunca vi. Nós morava pra lá, vinha nas missa pra cá. Depois de três anos que nós tamo aqui morando, eu fico sozinha aqui de noite. Durmo no alpendre às vezes até doze horas e nunca vi nenhuma alma. Graças a Deus. Não sei se isso é história de trancoso ou é história de verdade.
Cococi segue sua história silenciosa.
PARAMBU
Área: 2.303,40 km
População (2006): 33.945
IDH (2000): 0,613 (126º no Ceará e 4.435º no Brasil)
Localização: Inhamuns
Distância de Fortaleza: 408,8 km
Índice pluviométrico (média histórica): 532,1 mm
Toponímia: Palavra originária do tupi que significa "pequena cachoeira".
O distrito de Cococi pertence ao município de Parambu desde o final dos anos 60. Antes, Cococi e Parambu pertenciam à cidade de Tauá. Cococi também já existiu autonomamente como município, entre os anos 50 e 60, mas foi extinto por inviabilidade econômica e administrativa. O último prefeito de Cococi foi Eufrásio Alves Feitosa, da antiga Arena, eleito em 1966. Só precisou de 370 votos.
Fonte: Anuário do Ceará 2007 e Tribunal Regional Eleitoral.
Na história oficial, a prefeitura de Tauá conta pela internet que o capitão-mor Lourenço Alves Feitosa ganhou uma sesmaria da coroa portuguesa em 1708 e se abancou nos Inhamuns onde hoje é Cococi. Nasceu lá o povoado Sertões dos Inhamuns.
Dezesseis anos depois, mais sesmarias foram concedidas aos Feitosas. Dizem as lendas e dona Dolores que eles foram donos de mais de 50 delas. Uma riqueza que se alastrou Inhamuns afora. Vieram a família e os agregados.
Os Feitosas não foram de fato os primeiros moradores da região de Cococi. Havia índios, os jucás, pertencentes à nação cariri. Viraram aliados, mas sempre sob o domínio feudal dos Feitosas, segundo dona Dolores.
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