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Desertos do Sertão

O jardim esquecido de cococi: começo, meio e abandono


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31/10/2007 02:55


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Foram quase duas horas de entrevista no oásis do jardim da casa dela. Qualquer jardim nos Inhamuns é um oásis. Dona Dolores Feitosa estuda o município de Tauá e o distrito histórico de Cococi, da vizinha Parambu, porque viveu esses lugares intensamente. E ainda os vive, em seus 83 anos. Como personagem e pesquisadora autodidata, incentivada pela convivência de cinco décadas com o marido Joaquim de Castro Feitosa, falecido em 2004. Por ela, a conversa sobre a região poderia ter seguido por quantas horas fossem necessárias.

Já na primeira resposta, a confissão de amor a "Cócoci" - como ela pronuncia, acentuando a primeira sílaba. Segundo dona Dolores, Cococi é o marco zero da colonização dos Inhamuns. Foi o primeiro jardim da região. Surgiu com a chegada de dois irmãos portugueses, com feições de mouros, que trouxeram do interior sergipano as malas, cuias e suas riquezas pessoais. Início do século XVIII. Encontraram água, ergueram um engenho, uma igreja, o casario e ficaram. Hoje, a desolação e as ruínas.

Dona Dolores diz que o abandono atual do lugar, com apenas um caseiro cuidando de um sítio, se deu pela falta de zelo e interesse da própria família Feitosa. "Eles achavam que aquilo nunca iria se acabar". Cococi virou jardim esquecido. (CR/DT)

O POVO - A senhora morou em Cococi?
Dolores Feitosa - Cococi é a menina dos meus olhos. Eu tive uma fazenda perto e passei lá ano de muita seca. Ainda tenho a fazenda. Eu me atraio a Cococi não pela parte sociológica. Ali foi onde os primeiros colonizadores dos Inhamuns se estabeleceram.

OP - Especificamente dentro daquele povoado?
Dolores Feitosa - Ali.

OP - Aquela igreja...
Dolores Feitosa - É de 1721, que eles começaram. Eles vieram para lá já no descambar do século XVIII.

OP - Eram, portugueses?
Dolores Feitosa - Não. Portugueses eram os Feitosas. Eles vieram das barrancas do São Francisco. Eram dois irmãos.

OP - Eram judeus?
Dolores Feitosa - Não sei. Penso que tivessem mais a ver com os mouros. Pelo tipo de fisionomia. Não dizem o que eram, não sei nem se querem que eu diga, eu que acho que seja. Sei que eles vieram de Portugal, se estabeleceram em Serinhaém (um antigo engenho em Sergipe). Inicialmente vieram atraídos pela produção da cana. Instalaram lá um engenho.

OP - Qual era o nome desses dois primeiros colonizadores do Cococi?
Dolores Feitosa - Era Francisco Alves Feitosa e Lourenço Alves Feitosa, irmãos. Trouxeram família, dinheiro, gado, tudo. O que me acha atenção é porque não eram aventureiros. Vieram para ficar. Requereram as sesmarias, lá em Icó parece que chegaram a ter 50 e tantas sesmarias, desenvolveram um certo recurso. Mas não sei bem porque eles vieram de lá pra cá.

OP - O marco da região dos Inhamuns é Cococi?
Dolores Feitosa - O começo da colonização. Ali eles se fixaram e foram se expandindo, a família aumentando. Mas colonizando, não vieram como aventureiros. Por isso foi mais fácil se estabelecerem porque vieram para ficar. Ali no Cococi, no pé daquela serra, tem vários olhos d´água.

OP - A senhora vai lá sempre?
Dolores Feitosa - Quando posso, menos do que gosto. Sobre a igreja, não sei como aqueles desgraçados construíram uma igreja daquelas naquele meio de mundo sem dispor de transporte, sem nada. Chegar de carro é difícil (risos). Uma coisa muito interessante, tivemos em julho o 3º Encontro Nordestino de Museus, mas extrapolou do Nordeste porque tínhamos 10 Estados presentes e 30 museus. Eles queriam uma excursão fora e não podíamos nos aproximar das inscrições rupestres (recém-encontradas em Santo Antônio de Carrapateiras), o que seria o ideal pela proximidade e importância, então resolvemos fazer uma excursão lá por ser um centro histórico.

OP - Ainda não tombado.
Dolores Feitosa - Um museu vivo. Eu não fui porque adoeci. Mas já estamos pensando em tombar, o pessoal do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) está trabalhando nisso. Mas foi uma coisa linda a festa. Revivemos, ajeitamos uma parte da casa grande, restauramos, mobiliamos e decoramos como seria na época. Ficou uma beleza. Até uma visita de cangaceiros botamos. Com esse museu vivo, despertamos a atenção para o Cococi. Aquela é uma propriedade enorme, de 6 mil hectares aproximadamente.

OP - Aquelas casas abandonadas são de quando?
Dolores Feitosa - Essa que a gente restaurou já havia passado por uma reformazinha. Deve ser de 1700 e qualquer coisa. Já caíram muitas. Eu ainda alcancei.

OP - Cococi foi abandonada por causa da seca?
Dolores Feitosa - Eu não lhe disse que era social? Não sei se vão gostar, mas vou dizer. Ali foi um pouco resultado do poderio que os Feitosas tiveram. Eles tinham muita terra, eram muito fortes economicamente. Uma vez minha sogra me disse: "minha filha, eu pensava que o que nós tínhamos não acabava nunca". Então os Feitosas tinham essa idéia, que aquele status econômico não precisava ser cultivado. Achavam que aquilo nunca iria se acabar.

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