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Desertos do Sertão

Aridez dos governantes


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31/10/2007 02:55


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Mesmo tendo provado que o Sistema de Produção Agrosilvipastoril da Embrapa é uma alternativa eficiente para prevenir e atacar o problema da dessertificação no semi-árido, a experiência ainda não foi adotada como política pública de governo. "São dez anos de estudos e resultados práticos. Contribuiríamos, ainda mais, para a reduação de CO2 na atmosfera", explica o pesquisador João Ambrósio.

O POVO - Onde está sendo implantado o sistema?
João Ambrósio - Em terras degradadas onde se pratica a agricultura tradicional. A aplicação é pra banir a queimada, o desmatamento e fixar a agricultura. É um modelo agrosilvipastoril (Sistema de Produção Agrosilvipastoril) pois integra agricultura, pecuária e floresta.

OP - Há preocupação com a sustentação econômica do homem?
João Ambrósio - Sim, nos oito hectares temos 20% destinado a área agrícola. Por que 20%? Porque em 1,6 hectares, num dia de produção, se produz alimentos pra família e suplementação para o rebanho. Veja, em um ano como o de 2007 - que foi muito crítico para o Estado - nós estamos aqui nadando em produção. Tivemos a maior safra em um dos piores anos para o Ceará. Foram 2.350 quilos de grãos por hectare. Você sabe qual é média de Sobral? 570 quilos.

OP - Por causa da Embrapa?
João Ambrósio - Por causa desse trabalho. Todo ano a área agrícola recebe de nove a dez toneladas de matéria orgânica, nada de fora. Tudo produzido dentro do sistema, que não importa nada. Ele é auto-suficiente e sustentável. Temos dez anos (de funcionamento) e a produtividade está subindo. No primeiro ano de produção, foram 170 quilos milhos.

OP - O que se produz além do milho?
João Ambrósio - Depende do ano. A gente vende para o produtor a filosofia. O que ele vai plantar? O milho, o feijão, o algodão, a mamona, a mandioca. É o que ele quiser. O que ele vai criar? Cabra, ovelha, a vaca. Aqui no Centro (Embrapa), trabalhamos com a ovelha e cabra porque só temos isso. Mas isso não quer dizer que o sistema não sirva pra bovinos de corte ou leite.

OP - Quantos municípios do Ceará adotaram esse sistema?
João Ambrósio - Existem mais ou menos umas 15 ou 16 unidades demonstrativa. Morrinhos, Quixadá, Quixeramobim, Carnaubal e no Rio Grande Norte. O sistema é a tecnologia mais demandada pelos produtores na Embrapa. A última estatística que eu fiz apontava para mais de três mil produtores em todo o Nordeste. Até a BBC de Londres já veio aqui. Itália e outros países mandam técnico para conhecer.
Nilzemary Lima - Ambrósio, agora com o projeto da Contag a experiência está em todo o Nordeste.

OP - Como surgiu a idéia do projeto?
João Ambrósio - Com a curiosidade sobre o que se chamava de agrofloresta. A agrofloresta praticada na Amazônia é uma, aqui é outra. No semi-árido nós temos que ter pecuária agregada, porque ela dá estabilidade da renda e pode absorver a seca. Em 1995, fui pra Inglaterra para fazer um pós-doutorado e tive acesso a uma literatura riquíssima em agrofloresta. Quando nós voltamos, preparamos o projeto e foi aprovado pela Embrapa. Em 1997 começamos a montar e em 1998 foi o primeiro plantio.

OP - O que é básico no sistema?
João Ambrósio - Árvore é o nome do jogo. Vinte por cento da área é agricultura, 60% é para o pasto e 20% é da reserva exigida por lei. Então, na área agrícola, a árvore é o primeiro ponto chave. Elas têm de ser preservadas. Quantas? Duzentas árvores por hectare. Por quê? Porque com 200 árvores eu produzo cerca de duas toneladas de matéria orgânica que é depositada no solo. Você tá vendo aí! Duzentas árvores não atrapalham com sombreamento o crescimento da cultura. O segundo ponto básico: nada de queima. Os garranchos, depois de feito o corte e de separada a madeira para outras utilidades, você faz cordões de retenção (de sedimento) que, com o tempo, são absorvidos pela natureza.

OP -
Há a introdução de outras espécies de árvores?
João Ambrósio - A gliricídia e a leucena. São plantas que em plena seca estão verdes e suportam seis cortes por ano. Produzem uma forragem excelente e um adubo verde de qualidade. Quais são as finalidades delas? No inverno, elas são cortadas duas ou três vezes e o material é composto ao solo. São cerca de três toneladas de adubo verde por hectare, que elas dão. Aí você soma: duas toneladas das árvores mais três da leucena e glicídia, dá cinco. Durante o inverno, elas são fonte de adubo verde. No último corte do inverno, é feito o feno pra suplementar a alimentação dos animais no período de seca. Depois desse corte, vocês estão vendo, há uma rebrotação e serve ao pastoreio.

OP - Trabalha-se respeitando os ciclos naturais?
João Ambrósio - Sim. Nesse sistema a área que no inverno produz grãos, no verão é um banco de proteínas para os animais. Ovelhas e cabras pernoitam aqui (uma casa curral) e, por noite,
eles depositam - cada uma - cerca de meio quilo de esterco. Ele é armazenado e quando é janeiro, época do plantio, ele é jogado aqui dentro. São três toneladas por hectare. Então, fazendo assim se garante a produtividade do solo ano após ano. Essa área vem sendo cultivada há 10 anos. Esse solo está muito melhor do que antes. A história é manter essa circulação de nutrientes.

OP - Professor, a água...
João Ambrósio - Só tem água aqui pra beber. Não tem água pra nada, é sequeiro. Eminentemente seca. Sessenta por cento dos produtores, com os quais trabalhamos, mal têm água pra beber. A ênfase aqui é trabalhar o semi-árido como ele é: sem água.

OP - Por que essa experiência da Embrapa ainda não virou política governo?
João Ambrósio - Ah, eu não sei responder. A gente vem lutando para que isso se transforme em política pública. Isso influencia até no combate ao aquecimento global. Você sabe quantas toneladas de CO2 as queimadas dos roçados cearenses lançam todo ano? Cerca de 40 milhões de toneladas. O Ceará planta, por ano, cerca de 1 milhão e 200 mil hectares em agricultura de sequeiro. Desse número, pelo menos 500 mil são queimados todos os anos. A nossa agricultura é migratória. Ela fixa apenas dois anos. O cara broca esse ano, planta no ano que vem, planta do ano seguinte e, no outro ano, já está brocando e queimando. O manejo que se faz aqui (em Sobral) faz o caminho inverso.

OP - Pode-se usar essa técnica pra recuperar Irauçuba?
João Ambrósio - Em algumas áreas. Nós tínhamos um projeto lá, de quatro anos. Era para recuperar áreas degradadas. Ele tinha quatro etapas. A primeira era a recuperação da fertilidade via adubação orgânica e mineral. A resposta mais importante foi do fósforo e adubação orgânica. Para se ter uma idéia, onde cercamos, tivemos uma produção de 900 quilos por hectare de forragem. No primeiro ano da aplicação do fósforo, subiu para 5.200 quilos. E aí ninguém aplicou mais e notava-se uma diferença dessa área em relação a que não recebeu fósforo. O terceiro passo era a avaliação de leguminosas para o repovoamento das áreas. Entramos com 12 leguminosas diferentes e chegamos à conclusão que tínhamos como boas opções a gliricídia e as nativas catingueiras, como a jurema preta, o angico e jucá. O projeto era dentro de uma propriedade particular. Quando a fazendeira morreu, o filho dela arrebentou a cerca e colocou o gado pra comer. Destruiu tudo e perdeu a chance de se beneficiar do resultado.

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