Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio - textos e Evilázio Bezerra (Fotos)
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Enviados a Canindé e Aratuba
Em Canindé, moradores viam o solo "derreter". Agora ensinam aos filhos como lidar com a terra de forma sustentável
31/10/2007 02:55

Seu Antônio Napoleão de Sousa Furtado, 61, já não ensina mais aos nove netos tudo o que aprendeu do pai e do avô sobre como trabalhar na terra. Agora ensina o certo. Até seis anos atrás, ele via o chão "derreter" em voçorocas gigantescas. O que era folhagem de milho e feijão ia para o fogo nas coivaras, antes do replantio. Deixava a tarefa limpa e a areia no pretume. Pensavam ser o melhor jeito de limpá-la. Seu Napoleão, como o pai e o avô, plantava em linhas morro abaixo. Quando chovia, aguardava o estrondo de água alguns minutos depois. O que escoava levava tudo abaixo e se perdia.
Na comunidade de Iguaçu, em Canindé, os erros aprendidos por seu Napoleão já não se perpetuam. Também nas comunidades Cacimba de Baixo, Lages, São Luís e Barra Nova. Os técnicos do Programa de Desenvolvimento Hidroambiental do Estado (Prodham) até encontraram a resistência natural quando chegaram, em 2001, para discussão de um projeto-piloto que mudaria o cenário de degradação existente. Desinteresse por receio. As famílias temiam perder suas propriedades para o governo.
O que o Prodham lhes ensinou foi que a degradação da terra em seu nível máximo confirma um estado de desertificação. E que as condições de clima semi-árido e as práticas do homem no solo seriam propícias para tal situação. Coordenado pela Secretaria Estadual dos Recursos Hídricos (SRH), o Prodham ganhou o voto de confiança dos moradores e espalhou técnicas de manejo ordenado e conservacionistas. "Passamos dois anos em reunião debaixo dum pé de juazeiro. Aí nasceu o Prodham daqui", conta seu Napoleão, um dos mais envolvidos no projeto.
Seis anos depois, já são mais de 50 mil metros de cordões de pedras, lineares nas cinco comunidades, que não deixam a chuva se perder morro abaixo. Não chove quase nada em Canindé, mas quando isso acontece a umidade na terra se mantém. A área total trabalhada é de 7.500 hectares. As plantações agora são em curva de nível. Ambas as técnicas armazenam água no solo e recuperam material orgânico perdido nas queimadas. O que é palha seca serve de cobertura para adubar e proteger onde está plantado. O programa construiu 102 cisternas de placas (de 16 mil litros cada) e serão feitas mais 41 na região.
Segundo Ailson Rabelo, coordenador do Prodham em Canindé, há quase 500 barragens sucessivas nas cinco comunidades. Mais de 50 mil mudas nativas e frutíferas foram plantadas na mata ciliar do rio Cangati. "No começo do projeto tinha erosão aqui que entrava a gente dentro. Mas difícil demais agora da pessoa ver. Eu tenho o Prodham como educador do agricultor. O pessoal hoje já ta ciente de que se não tratar do meio ambiente vai ser pior. Pelo menos aqui a produtividade aumentou". Ensinamentos de seu Napoleão.
CANINDÉ
Área: 3.218,42 km
População (2006): 75.347
IDH (2000): 0,634 (82º no Ceará e 4.042º no Brasil)
Localização: Sertão Central
Distância de Fortaleza: 120 km
Índice pluviométrico (média histórica): 756 mm
Toponímia: Denominação de tribo tapuia que habitava a região. Etimologicamente existem três versões: "teu seio" ou "tua cama" e ainda "teu mato"
ARATUBA
Área: 142,538 km
População (2006): 13.675
IDH (2000): 0,633 (87º no Ceará e 4.069º no Brasil)
Localização: Maciço de Baturité
Distância de Fortaleza: 128 km
Índice pluviométrico (média histórica): 1.753 mm
Toponímia: Palavra originária do tupi, significa "abundância de pássaros"
Fonte: Anuário do Ceará 2007
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