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Desertos do Sertão

DESERTOS DO SERTÃO

De maluco e mestre

Luiz Henrique Campos e Rafael Luis - textos e Dário Gabriel (Fotos)
Enviados a Jaguaribe

No distrito de Brum, em Jaguaribe, um técnico agrícola descobriu como fazer para que agricultura e pecuária não acelerem o processo de degradação do solo


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31/10/2007 02:55

Neto do Brum virou referência ao deixar de fazer queimadas para o plantio, ao manter o gado preso e fabricar adubo
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Neto do Brum virou referência ao deixar de fazer queimadas para o plantio, ao manter o gado preso e fabricar adubo


Ele já foi tachado de "maluco" no lugar onde mora. Quando começou a ter suas idéias tidas como "diferentes", na década de 1980, todos no distrito de Brum, em Jaguaribe, estranharam. Afinal, até hoje ainda é pouco comum, no Interior do Ceará, alguém manter o gado preso em estábulos, não fazer queimada na preparação da terra para o plantio e fabricar adubo de maneira natural. Francisco Nogueira Neto, 48, foi pioneiro na luta contra o processo de desertificação na região. Hoje, graças às orientações aos produtores vizinhos, é chamado de "mestre". Tanto que a localidade de 180 habitantes acabou incorporada ao seu nome.

O papel transformador de Neto do Brum em sua comunidade começou em 1986, quando passou a notar o desgaste do solo da região. Seus pais possuíam desde os anos 50 uma propriedade de 413 hectares. Durante uma década, quase todas as famílias do distrito receberam financiamento público para o desmatamento. A ordem era aumentar a produção na agricultura e pecuária, seja com queimadas na preparação do solo e superpopulação de gado nas pastagens. A exploração da natureza, no entanto, cobrou seu preço.

"As queimadas davam uma falsa impressão de que aumentavam a produção, mas na segunda ou na terceira safra a queda já era visível, por causa da falta de nutrientes no solo. Já o grande número de cabeças de gado compactou a terra, o que acelerou o processo de degradação", relembra Neto do Brum. Quando os próprios bancos estancaram os financiamentos, restou ao agricultor buscar alternativas. "Em 1986, vi que tínhamos que mudar nossa cultura".

Sozinho, ele descobriu várias alternativas. No plantio, Neto do Brum utiliza o sistema rotacionado, em que, enquanto uma parte da terra está sendo cultivada, a outra fica sob descanso, para a recuperação dos nutrientes. Para o gado, ele compacta o capim, processo conhecido como cilagem, que garante alimento para os animais por até dois anos. Além disso, para não prejudicar o solo da propriedade, o gado é mantido no estábulo.

PRESTÍGIO

A experiência rendeu a Neto do Brum a formação como técnico agrícola e o emprego de agente rural da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) em Jaguaribe, ampliando sua fama além do distrito. Durante 11 anos, ele foi voluntário do sindicato dos agricultores da cidade. Há cinco anos, ele foi indicado para uma troca de experiência com agricultores de Santa Catarina. De lá, trouxe mais uma novidade: a uréia orgânica, produzida de forma natural num galão de combustível, que acelera o crescimento do cultivo e atua como repelente. "Somente eu faço isso em todo o Estado", gaba-se.

No momento, Neto do Brum está na espera de uma proposta da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) que deseja utilizar uma área de sua propriedade para projeto de recuperação natural de solo degradado. Méritos de quem, muito antes do debate em torno do aquecimento global, já estava preocupado com o meio ambiente. "Não precisamos de políticas para acabar com a seca. Temos é que aprender a conviver com ela", filosofa.


O SAPO QUE FAZIA BRUM

A explicação do nome do distrito de Brum, em Jaguaribe, é inusitada. Até a década de 1930, a localidade, que ficava dentro da fazenda da família Soares, chamava-se Curral Velho. Para facilitar a travessia do riacho de mesmo nome, iniciou-se a construção de uma ponte. Todos os dias, os trabalhadores observavam a presença de um enorme sapo. Conta-se que o animal fazia o barulho “brum, brum, brum”. Depois disso, a ponte, o rio e o distrito receberam o nome Brum.

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