31/10/2007 02:55
Foi-se o tempo em que a laranja era o principal produto da economia de Russas. Ela ainda é lembrada como símbolo do município, mas é a indústria ceramista que atualmente domina a cidade. Até o ano passado, eram 78 empresas no setor. Este ano, já são 102, deixando o rastro por onde passam. No lugar de onde se tira o barro para produção de tijolos e telhas, sobram buracos que impedem a utilização da terra para agricultura e pecuária.
Pelo último estudo de desertificação da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), realizado em 1994, Russas ainda não sofria com o processo de degradação do solo. Mas os danos ao meio ambiente causados pela indústria ceramista da cidade são indicação de que já existem áreas susceptíveis à desertificação. "A natureza nunca mais vai se recuperar destes buracos. A única serventia seria a utilização como tanques para piscicultura", sugere o chefe do escritório regional da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce), Tarcísio de Paiva.
O consumo de madeira nos fornos é alto. Cada cerâmica utiliza cerca de 120 mil quilos por mês como combustível. Para diminuir o desmatamento da mata nativa, a Associação dos Ceramistas de Russas incentivou o uso de madeira da poda de cajueiros, que corresponde hoje a 70% do combustível utilizado. Outros 15% saem de projetos de manejo, enquanto o restante é de origem duvidosa. "É difícil convencer as pessoas a fazer o correto. A gente tem que dar o exemplo", aponta Célio Gomes, vice-presidente da entidade e dono da cerâmica Irmãos Gomes.
A saída para a diminuição no consumo de madeira poderia ser a utilização de gás natural como combustível, mas os custos são impeditivos. "Como teríamos que pagar alto pelo gás natural, o negócio ficaria inviável", explica Célio. Diante do bombardeio que sofre, o empresário apela para a economia na defesa do setor. "Cada empresa fatura R$ 50 mil por mês e emprega 35 pessoas. Sem as cerâmicas, Russas não seria nada", argumenta Célio. "A natureza existe para o homem explorá-la e tirar dela o dinheiro".
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