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Desertos do Sertão

DESERTOS DO SERTÃO

A cidade que pede socorro

Luiz Henrique Campos, Rafael Luis (textos) e Dário Gabriel (fotos)
Enviados ao Vale do Jaguaribe

A derrubada de madeira da caatinga para alimentar a economia carvoeira ameaça tornar Jaguaretama um imenso deserto


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31/10/2007 02:55

Em Jaguaretama, existem cerca de 700 fornos utilizados para a produção de carvão a partir da madeira retirada da caatinga
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Em Jaguaretama, existem cerca de 700 fornos utilizados para a produção de carvão a partir da madeira retirada da caatinga

O trânsito de caminhões lotados de madeira ocorre às claras. Alguns passam tão carregados que parecem que vão virar a qualquer momento. Não são toras majestosas como na Floresta Amazônica, região que mais sofre com o desmatamento no Brasil, mas pedaços de pau que na frente delas lembram gravetos. Este é o cenário de Jaguaretama, município a 239 quilômetros de Fortaleza, no Médio Jaguaribe, em que a falta de oportunidades na economia local tem empurrado a população para um negócio que está trazendo sérios danos ao meio ambiente.

Situada numa das regiões mais secas do Ceará, onde não chove mais do que três meses por ano, o clima em Jaguaretama é adversário implacável para a agricultura. Enquanto os rios ainda têm água, quem mora próximo ao leito consegue cultivar milho, feijão e arroz, prioridades do dia-a-dia de uma família do semi-árido nordestino. No restante do ano, quem possui um pedaço de terra se vê obrigado a desmatar arbustos para não passar fome.

O destino da madeira são as produtoras de carvão do Vale do Jaguaribe, que abastecem o mercado da região. No imaginário do povo de Jaguaretama, a economia carvoeira vaga entre o céu e o inferno. Enquanto garante renda na compra da lenha, incentiva o desmatamento da caatinga. Com cerca de 15% do território da cidade em áreas susceptíveis ao processo de desertificação, a derrubada de arbustos tem acelerado a degradação do solo.

O problema já é grave em localidades como Cumbi, Freitas, Serrote do Mato e Serrote do Branco. Não existe estimativa de quantas toneladas de madeira são retiradas por ano, mas já se percebe que a natureza tem tido dificuldade para reflorescer. "A cidade já teve uma mata densa no passado. Agora, tem época que não existe pau nem para fazer enxada", relata o secretário da Agricultura, Recursos Hídricos e Meio Ambiente da Prefeitura, José Auri Leite, que aponta a empresa Ligas do Brasil S/A (Libra), produtora de ferro-liga de Banabuiú, como uma das responsáveis pelo processo de desertificação na região.

Para aumentar os ganhos, são muitos os proprietários de terra que produzem diretamente o carvão, a partir da madeira de suas áreas. Em Jaguaretama, são cerca de 700 fornos queimando madeira dia e noite. Na fazenda Favela, que possui autorização da Superintendência Estadual de Meio Ambiente (Semace) para explorar uma área de manejo florestal sustentável, são 100 fornos. Na fazenda Freitas, outra grande produtora de carvão, são mais 20.

A agricultura não faz frente à economia carvoeira em Jaguaretama por causa da intermitência dos rios e da conseqüente falta d'água em boa parte do ano. Uma contradição para uma cidade situada às margens do açude Castanhão, construído na divisa entre Jaguaribara e Alto Santo. Fora o funcionalismo público, não há opção de emprego no município. Dezesseis das 18 mil famílias dependem do Bolsa Família para sobreviver. "Quem não tem criança e aposentado em casa passa fome", diz o agricultor Francisco Diassis Ferreira, 32. Este ano, a safra teve perda de 70% e o Seguro Safra pago pelo Governo Federal se tornou renda extra.

A ajuda pública não impede o abandono de casas na zona rural. É difícil até numerá-las. Algumas seguem de pé, outras o próprio tempo trata de derrubar, transformando o cenário semelhante a uma cidade de pós-guerra. "Somos um município muito pobre. As pessoas desmatam porque não têm outra opção", constata José Auri Leite. Enquanto Jaguaretama agoniza, poucos acreditam que o panorama irá mudar se não for encontrada outra vocação econômica para o município. "O problema é cultural. Desde criança a pessoa é acostumada pelo avô e o pai a ganhar dinheiro com o desmatamento", aponta o professor Francisco Luiz Barreto.


JAGUARETAMA

Área: 1.759,72 km
População (2006): 18.352 habitantes
IDH (2000): 0,645 (58º no Ceará e 3.850º no Brasil)
Localização: Médio Jaguaribe
Distância de Fortaleza: 239 km
Índice pluviométrico (média histórica): 782,8 mm
Toponímia: Palavra originária do tupi, significa "lugar onde moram as onças"

Terra de Adolfo Bezerra de Menezes, espírita que viveu no século 19 e ficou conhecido como "médico dos pobres", Jaguaretama tem como principal ponto turístico o Pólo de Divulgação Espírita Bezerra de Menezes, localizado a 10 quilômetros da sede do município.

Fonte: Anuário do Ceará 2007


RUSSAS

Área: 1.588 km

População (2006): 65.268 habitantes
IDH (2000): 0,698 (8º no Ceará e 3.025º no Brasil)
Localização: Baixo Jaguaribe
Distância de Fortaleza: 160 km
Índice pluviométrico (média histórica): 857,7 mm
Toponímia: Proveniente da criação de cavalos e éguas

A cidade se formou como entreposto de vaqueiros do Interior que se dirigiam com o gado para o porto de Aracati. O município, que já foi referência na produção de laranja, tem sua economia baseada atualmente nas indústrias ceramista e de calçados.

Fonte: Anuário do Ceará 2007

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