31/10/2007 02:55
Angico, fim de mundo enfurnado na serra Manuel Dias, em Irauçuba, fica numa baixada erodida que ninguém imagina existir. Chega-se por lá, depois do carro escalar e descer com dificuldades uns elevados de pedra e piçarra. Guiados pelas distâncias de Chico Neo, depois de quase uma hora, se encontra a casa de taipa do agricultor Antonio Barbosa Medeiros, 43, sua mulher, quatro filhos e um grupo de amigos que o ajudavam a levantar um banheiro ao lado da cisterna seca dos 15 dias de chuva de janeiro. A água salobra de um barreiro auxiliava na mistura construção. Também pra tomar banho, beber e coser.
Parte da serra Manoel Dias está na rota da desertificação traçada pela Universidade Federal do Ceará (UFC). O lugar é cheio de depressões e a mata cinza, de repente, dá lugar a pedaços extensos de terra que foi queimada, restos de toco e fendas. Quem ficou por lá pra contar história se admira da chegada do carro e um bando de gente que se diz do jornal. "A última visita aqui foi dos homens do IBGE, em 2000. Eu acho", brinca.
Ele tem motivo mesmo pra se admirar com a comitiva. O vizinho mais próximo fica a mais de meia hora dali. A casa onde morava os tios, a 300 metros, foi transformada em curral e um cavalo branco é o único inquilino. Com o focinho, metido no vão do barro que caiu da taipa velha, ele dá o ar da graça. "Meus quatro irmãos moravam tudo aqui, mas foram embora pra Itapajé em 1982 atrás de viver. Trabalho na serra é difícil. Só quando chove (pra plantar) ou aparece um serviçinho (com gado) com diária a R$ 10,00. Eu voltei, gosto daqui. Mesmo sendo um fim de mundo". Um Deserto. "É, né!". Em Angico, a noite é um breu se não tiver querosene para as lamparinas. E o endereço de seu Antonio Barbosa não consta nos Correios. "Carta? Nunca recebi não. Comé que chega?".
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