Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Desertos do Sertão

DESERTOS DO SERTÃO

O deserto que engole Irauçuba

Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio - textos e Evilázio Bezerra -Fotos
Enviados a Irauçuba

A aridez, a derrubada da mata nativa e o surgimento de um grande pasto para o gado fizeram de Irauçuba o maior deserto do Ceará


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

31/10/2007 02:55


Clique para ampliar foto

Pelo rastro que a terra deixou de marcar, a vida ali rareou. Indica ter desertado. O vento quente durante o dia, e gelado noite adentro, sopra pegada que seja ainda. De gente, que dificilmente passa por lá, e de bicho. Nativo, quase nenhum, ou dos terreiros dos restins de povoados. Testemunho de uma casa ali, outra não sei onde. Distante. Longe da vista que não alcança e olhos encandeados da medonha claridade - do cinza e azul. Também há quase nenhum sinal de caminho de automóvel ou carroça de burro em Cacimba Salgada, distrito de Irauçuba. Tem de ter negócio pra ir aos confins onde mora o caboclo Chico Neo.

Em Irauçuba, sertão centro-norte do Ceará, a pedra brota e há grotões de medir um homem comprido. Em 47% do estirão do município é assim, segundo escrita da Funceme e Universidade Federal do Ceará (UFC). Deserto. O chão, cada vez mais descampado, há muito não se cobre com manta de folha seca e salada de galhos. Resultado: deu ainda mais na fraqueza da terra rasa. Há pouca sustância, sedimentos para agüentar a vinga. No entendimento de quem é doutor, a raiz do destroço está na aridez do clima, nos anos e anos de estiagem, na cria extensiva do gado que compactou o solo (Irauçuba já foi o segundo maior pólo bovino do Ceará), nas queimadas e na derrubada da mata primeira.

Na fazenda Aroeira, e em quase toda Irauçuba, são dois os cenários reinantes. Em períodos de chuvas, léguas tiranas de pastagens verdes empestadas por gramíneas e herbáceas anuais. Cocho a céu aberto. Vem o tempo de seco, esse ano só choveu 15 dias em janeiro por lá, e a paisagem, agora gris, ganha o campo repleto de vãos e um, ou aquele, testemunho de árvore.

Pudera. Deram fim a mata. Angico, aroeira, imburana, embuzeiro, sabiá, jucá, jurema-branca, trapiá, marmeleiro, catingueira... Difícil de se ver hoje. Por derradeiro, o machado e a coivara desapareceram com o que havia de mufumbo e jurema. Na tese hereditária da habitante Josefa Pinheiro dos Santos, 71, os tais pés-de-pau só "serviam para dar cobra de cegar e matar". Cascavel, jararaca. Segundo a velha, a sombra traiçoeira do mufumbal fez muitas vítimas em outros tempos. Homem e animal. Então foice.

Vila Mimosa de dona Josefa dos Santos, lugarejo esquadrinhado por pesquisadores da UFC, e mais da metade dos 1.384,9 km de Irauçuba, vem se desequilibrando na mão do homem, se desmanchando em areia e tornando o solo cada vez mais desidratado e impermeável. Se chove grosso, a água escorre e lava o que era pra sedimentar.

Desertificou-se também no vão das políticas públicas de prevenção e recuperação da terra. É de 1974, segundo Marta Celina Linhares e José Gerardo Beserra de Oliveira, pesquisadores do Mestrado em Geografia da UFC, o primeiro alerta sobre a situação de degradação em Irauçuba. Veio pelo olho do agrônomo-profeta pernambucano João Vasconcelos Sobrinho, nascido nos 1908 e falecido em 1989. O homem que prenunciou, há 33 anos, que parte do Sertão do Ceará e outras áreas do Nordeste arriscavam se transformar em um grande deserto.


IRAUÇUBA

Área: 1.384,9 km
População (2006): 21.338
IDH (2000): 0,618
Localização: Centro-norte (microrregião de Sobral). Acesso pelo BR-222
Distância de Fortaleza: 168 km
Índice pluviométrico (média histórica): 539,5 mm (média histórica). Clima tropical quente semi-árido com chuvas de janeiro a abril.
Toponímia: A palavra Irauçuba é originária do tupi e significa amizade. A cidade nasceu pelo desmembramento de terras de Itapajé, em 20 de maio de 1957. Irauçuba tem suas raízes históricas ligadas a um poço denominado Cacimba do Meio. Devido a escassez d´água, a existência deste poço fez com que, em torno dele, se desenvolvesse a criação de gado. A denominação Cacimba do Meio foi até 1899.

Fonte: Anuário do Ceará 2007

Leia mais sobre esse assunto


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato