31/10/2007 02:55
Iapi é distrito de Independência. Fica a cerca de 40 quilômetros da sede do município. Chega-se por uma estrada carroçável. Caminho que quase só tem como única paisagem um extenso vale seco. Desertificado. Cactos, erosões, pedras brotando, riachos secos, mofumbo e xique-xique. Onde há resto de água da última chuva também está o camaleão, os currupiões, sabiás e ninhos escondidos de jararaca e cascavel. Só há verde próximo dessas pequenas poças. O demais é galho sem folha. Iapi, em tupi, significa "vertente de água".
Conta a história local que, quando o bando de Lampião corria das volantes e entrava cidades adentro para saquear mantimentos, o teto da igreja de São Vicente Ferrer, a maior construção do lugarejo, foi usado por moradores para um confronto a tiros. Do alto, a vista alcançava longe. Não há indiferença em Iapi. Nem de quem é de lá, nem de quem só está de passagem. Pelo próprio tamanho da localidade e pela paisagem ao redor. São cerca de 600 moradores apenas e sequidão por todos os lados. Tudo que acontece é percebido.
Logo na entrada, de frente, o templo de paredes brancas e uma rachadura mal encoberta. Dizem que a fachada caiu inteira, certa vez, e foi reconstruída. A datação da igreja seria do século XVIII, erguida por escravos. Dentro, com grafia da época, uma placa em mármore de bordas trabalhadas: "Restos mortaes do Cel. Antonio Gomes Coutinho, fallecido a 10 de outubro de 1870, que em sua memoria mandou collocar sua mulher, d.Francisca Ignacia de Macedo". Foi o então coronel da região, agora para sempre ao lado de sua senhora. No teto, entre manchas de infiltrações, duas corujas são as guardiãs. Já roubaram moedas de ouro de lá. O sino e a imagem original do padroeiro se mantêm.
A rede elétrica só chegou a Iapi em 2002. O único orelhão, ainda com uma placa da antiga Teleceará em cima, fica em frente ao posto dos Correios. Até pouco tempo, ainda se morria muito da doença de Chagas em Iapi. Seu José Pereira de Sousa, 52, agente de saúde, perdeu o pai para a mazela do barbeiro, 24 anos atrás. Passou a trabalhar contra o besouro. Há quatro anos, uma mulher ficou doente, mas fez tratamento.
Em Iapi, senta-se na porta para ver conversa, ter vento ou notar alguém de fora passar. "Aqui sempre foi assim", diz seu Pereira. (CR/DT)
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