Cláudio Ribeiro e Demitri Túlio - textos, Evilázio Bezerra - fotos
Enviados a Tauá e Independência
Chuva pouca de alguns dias, chão raso que bate na pedra, pisoteado pelo gado. Quadro de aridez
31/10/2007 02:55

Ao lado da BR-020, na saída da estrada carroçável de Santo Antônio de Carrapateiras, o cenário de uma das principais áreas erodidas do município de Tauá. E do Ceará. Epicentro do semi-árido. Local permanente de estudo de pesquisadores nacionais e internacionais. Que buscam respostas e analisam a capacidade de sobrevivência humana. No terreno inclinado, de solo raso, grandes pedras cercadas de cactos. Paisagem recorrente. Em se plantando, nada. O capim ralo entre pés de jurema e favela, que renascem sozinhos. Uma ou outra aroeira perdida. O carcará pousa numa delas atrás de algum preá ou ninho alheio. A ave também é sobrevivente do lugar. Em Tauá, a degradação ambiental chega próxima à casa dos 30% do território de 4.306 km2.
Há quase duas décadas, as clareiras desertificadas de Tauá vêm sendo monitoradas por mestres e doutores da Universidade Federal do Ceará. Estudos coordenados pela professora Vládia Pinto Vidal de Oliveira, do Departamento de Geografia da UFC. Pesquisadores alemães do projeto Waves (Water Availability and Vulnerabilty of Ecossystems and Society in the Semiarid Northeast of Brazil) também monitoram a região por fotografias de satélite. Já estiveram algumas vezes nos locais degradados. Constataram a baixa regeneração do solo e as práticas usadas para o pouco cultivo agrícola e o pasto.
Sem perspectivas para a agricultura, a pecuária puxa a economia local. O município tem o maior rebanho do Estado. São 60 mil animais, entre bovinos, ovinos e caprinos. Dá mais de um animal para cada habitante (53 mil). O ciclo do gado foi áureo no Ceará a partir da região dos Inhamuns. Segundo a professora, a degradação acentuada de Tauá é um processo histórico, decorrente do clima seco e árido, mas principalmente da ação humana. "Em Tauá você teve o desmatamento, queimadas, o pisoteio do gado, a erosão do solo. O algodão e o gado foram determinantes para essa situação degradada", explica. Com a movimentação do imenso rebanho numa área pequena, o solo se compactou, o que dificulta a infiltração de água na época das poucas chuvas.
Mas a desertificação é um conjunto de fatores. A degradação que se expande pelo homem e pelo clima impiedoso. Em Tauá, o sol arde na cabeça o ano todo. Em 2007, choveu por 15 dias em fevereiro. E só. Mesmo assim, um inverno regular, na média milimétrica. Quase 600 milímetros. Mas não chove desde então. Há anos em que a chuva local não passa dos 200 mm, segundo o pedagogo Marcos Antônio Vieira. Ele é professor e diretor da Escola Agrícola Francisca Cavalcante Fialho, localizada na comunidade Cachoeirinha do Pai Senhor. Lá, 280 alunos, de 10 a 17 anos, estudam práticas agrícolas e zootécnicas. Estudam educação ambiental como disciplina. Aprendem a corrigir erros históricos com o semi-árido.
Segundo a professora Marta Celina, também da Geografia da UFC, Tauá e Irauçuba, cidade da Zona Norte, são os dois territórios cearenses com evidências de quadro árido. Pior que o semi-árido. O índice de aridez é medido pela razão entre a precipitação e a evapotranspiração. Ou seja, entre a chuva ocorrida num curtíssimo espaço de tempo e a água de reservatórios e rios que se perde rapidamente pela evaporação. A diferença entre as duas cidades estaria basicamente no tipo de solo. Ambos rasos, com 30 a 40 centímetros de espessura. Na língua sertaneja, se cavar bate logo na pedra.
Dona Dolores Feitosa, 83, superintendente do Meio Ambiente de Tauá, descreve o cenário local como parte de um grande problema. "A dificuldade é botar apenas Tauá em foco. Porque é uma coisa mundial. Por ser mundial, a gente às vezes até deixa de focar o que está mais próximo". Por ironia da natureza, é da secura da região que sai toda a água do Jaguaribe. A nascente do maior rio cearense fica a 4 km da sede do município.
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