A desertificação, causada pela aridez do clima e descaminhos do homem, devasta o chão, expulsa, ou isola ou extingue gerações, sonhos, bicho e flor. Na década de 70, o ecólogo José Vasconcelos Sobrinho havia enxergado longe e projetado desertos para o Ceará, Piauí e Pernambuco
31/10/2007 02:55

Dos desertos e dos desertados tratam as narrativas a seguir, colhidas ao longo de 3.500 quilômetros pelos sertões do Ceará. Em Irauçuba, uma angústia: no maior desterrado do Estado (47%), há tempo para recriar nascentes raras e fazer rebrotar a caatinga? No Vale Jaguaribe, como estancar o desmatamento para a queima de carvão e o avanço da indústria ceramista?
A desertificação, causada pela aridez do clima e descaminhos do homem, devasta o chão, expulsa, ou isola ou extingue gerações, sonhos, bicho e flor. Na década de 70, o ecólogo José Vasconcelos Sobrinho havia enxergado longe e projetado desertos para o Ceará, Piauí e Pernambuco.
Em 2007, o alerta volta a soar. Os relatórios sobre aquecimento global, divulgados em fevereiro deste ano pelo Ministério do Meio Ambiente, apontam que a região Nordeste - até 2100 - poderá ter um deserto superior a 400 mil Km
. No cálculo de tendências, o correspondente a quase metade do semi-árido brasileiro. Atualmente, a desertificação no Brasil engloba mais de 1.500 municípios de nove estados nordestinos e algumas cidades no norte de Minas Gerais e noroeste do Espírito Santo.
A projeção indica que o deserto, até o fim do Século XXI, devastaria uma área 23 vezes maior do que atinge atualmente o Nordeste. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), a desertificação é o último estágio da degradação do solo e compromete, a cada minuto, 12 hectares de terra do Globo. O solo, seco e erodido, perde a capacidade de se recriar. Segundo as pesquisas, a fauna e a flora se fragilizariam com a subida da temperatura que também causaria o aumento da evaporação da água no solo. Reduzidas as reservas d´água, a caatinga não resistiria.
Em artigo publicado na revista científica Geophysical Research Letters, os cientistas Carlos Nobre, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (Cptec-Inpe), Luiz Salazar (Inpe) e Marcos Oyama (Instituto de Aeronáutica e Espaço (ITA) informam que dos 15 cenários projetados para 2100, dez apontam para a desertificação ou semidesertificação do Nordeste.
O Ceará está nessa rota, mas experiências como do PhD João Ambrósio, de Sobral, ou do agricultor Neto do Brum, em Jaguaribe, podem refazer descaminhos no cinza, no azul e no verde dos sertões.
Distâncias percorridas
Roteiro 1 - 2.128 quilômetros
Equipe: repórteres Cláudio Ribeiro, Demitri Túlio e fotógrafo Evilázio Bezerra)
Roteiro 2 - 1.262 quilômetros
Equipe: repórteres Luiz Henrique Campos e Rafael Luis e fotógrafo Dário Gabriel)
- Áreas já desertificadas
- Susceptíveis à desertificação
Fonte do mapa: Funceme (estudo de 1994)
DEPOIMENTOS
Já tinha ido outras vezes a municípios do Vale Jaguaribano e visitado lugares em processo de degradação acentuado. Nunca, porém, tinha direcionado o olhar para a questão da desertificação tão a fundo como foi necessário para a elaboração deste caderno. Após percorrer as veredas e entranhas de sete municípios, enfrentando terra de chão batido e um calor infernal, a primeira impressão é que enfrentamos uma situação quase sem volta. Ver famílias inteiras em casas localizadas em terrenos onde não há mais perspectiva de plantio ou água, chega a ser surreal para quem mora na área urbana e passa boa parte do tempo trabalhando com o ar-condicionado ligado. Fico a me questionar se vale a pena mostrar essas situações em uma grande reportagem. Mas também me questiono se não seria comodismo calar diante desse drama. Como jornalista, o que me resta é isso. E você, caro leitor, o que pode fazer para melhorar esse quadro?
Luiz Henrique Campos, repórter
É de impressionar o calor no Vale do Jaguaribe. Na zona rural, o gado disputa uma sombrinha em meio às poucas árvores. Próximo ao meio-dia, não se vê pessoas nas ruas. Na passagem por Jaguaribe, sem vaga nos hotéis, ficamos numa pequana pousada sem ar-condicionado. O ventilador mandava uma brisa quente. Banho tomado, depois de escovar os dentes, já estava todo suado. A toalha da pousada, pendurada no banheiro, estava quente como se tivesse saído de um forno. O mesmo acontecia com o colchão. Diante disso, dei boas gargalhadas com o depoimento da aposentada do Brum, distrito de Jaguaribe, que disse que amava o calor do Sertão e odiava o frio de serra da vizinha Pereiro. Nessa viagem, aprendi uma lição: o problema do Nordeste é que as políticas contra seca são feitas por gente da Capital que, assim como eu, não conhece a realidade e os gostos do sertanejo.
Rafel Luís, repórter
Nesses seis dias de viagem pelo Sertão, fotografei não somente a seca, a situação climática que o sertanejo vive, também conheci muito bem verdadeiros desertos de terras improdutivas. Tudo devido à ação devastadora do homem, que está acabando até com a caatinga, em troca de pasto para o gado. Com isso, a natureza responde: vemos o aumento da desertificação, provocando verdadeiras fendas abertas no solo. Mais existem bons exemplos de como barrar o avanço da desertificação. É preciso que os nossos governantes invistam e olhem com mais carinho para o sertanejo, pois este, já é forte por natureza. Evilázio Bezerra, repórter fotográfico
O que mais me impressionou neste trabalho foi a ausência do elemento humano. Você percorre ruas e estradas sem ver vivalma. É assim nas áreas em processo de desertificação. O calor é quase insuportável. É muito sol na moleira e até os animais são raros. O juízo não esfria. Chega a noite e você ainda está agoniado. A vontade é ficar parado. É por isso que a vida rareia. Para humanizar minhas fotos, o jeito foi buscar os animais. Um bode aqui, uma cabra acolá, um boi paradinho. Eles se aquietam. Procuram uma sombrinha e lá ficam a olhar o tempo. Agora está assim, imagina aí com a acentuação do processo de desertificação. Queria ter mais esperança.
Dário Gabriel, repórter fotográfico
Saímos atrás até de poeira. Batizamos o redemoinho que o sertanejo vê todo dia de "Severina". Alusão aos furacões mais danosos. Rimos dentro do carro da maluquice, mas pensávamos como jornalistas. Queríamos mostrar a rotina de uma área desertificada. A foto não deu tão certo porque o Severina nos driblou. Mas o trabalho todo foi muito bom. Chegamos a andar 14 km a pé por uma mata de caatinga. Dias pelas estradas para mostrar o mal do homem sobre o meio. A natureza reage. O chão seca porque o indivíduo agride. A pedra aparece fácil porque o plantio poderia ter sido feito corretamente, sem queimadas, sem o desgaste da terra. Mas não foi assim por muitos anos. Ainda bem que nossos desertos são reversíveis.
Cláudio Ribeiro, repórter
A mata cinza, seca na casca do pau, aparentemente não tem vida. Engano. A caatinga segue seus ciclos, femininos até. Derruba as folhas no instinto de proteger os seus e garantir mais e mais a recriação. Cobre os solos e, assim, permite que se renovem as gerações dos que andam, dos que voam, dos que se arrastam ou dos que têm outras formas de ir se reciclando. Só não perpetua, porque os que pensam ser inteligentes usam das queimadas e do degradante para se servir dela. A resposta vem em desertos e a renovação perde o rumo. Mesmo assim, a terra ainda espera, resiste, gesta. Vi desertos e desertados nos sertões do Ceará, mas há tempo para a refazenda.
Demitri Túlio, repórter
Todos voces testemunharam um fato que vem perpassando por séculos, a seca.Durante o percurso visitando as localidades em processo de desertificação,sentiram na pele o quanto é calamitoso para os habitantes daqueles lugares íngremes os quais estiveram. Agora, imagine aquele povo sofrido,faminto sem água, à espera de uma solução, pelo visto,remota onde os dirigentes público levam tempo para tomadas de decisão,até encontrar um paliativo que reanime aqueles coitados,a desventura assoma em primeira instância.É um fato aterrador e patético que não dá para ficar sob relato, urge que toda sociedade, ongs, governo, imprensa sejam resoluto nas ações :COBRANÇA DE IMEDIATO ! É hora de uma análise técnica-geológica no sentido de salvaguardar alguns solos que ainda se há esperança de recuperação.Pelo o drama do sertão agreste que se perpetua,as capitais sentirão esse impacto desastroso, tendo em vista que o alimento o qual cosumimos, é proveniente do solo sertanejo, e por isso,os investimentos primordiais têm que ser direcionados ao homem do campo.
Antonio Ricardo Viana Câmara