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TOSTÃO

1968, também se jogava futebol


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31/05/2008 16:22

No Brasil e em todo mundo, tem acontecido grande número de palestras e publicações sobre 1968, ano importante de fatos políticos, sociais e de excepcionais realizações culturais.

Foi o ano da peça Roda Viva, do Álbum Branco dos Beatles, do assassinato de Martin Luther King, de grandes protestos pelo mundo, do famigerado AI-5, da invasão da Tchecoslováquia, dos Jogos Olímpicos do México e tantos outros. Não pensem que tenho uma ótima memória. Escrevi isso com a ajuda do Google. Será que o Google não tira férias?

Dizem que a internet vai acabar com a memória. Não acredito. O Google não tem nada a ver com a nossa memória afetiva. "O que a memória amou, ficou eterno" (Adélia Prado).

Em 1968, também se jogava futebol. O Cruzeiro foi tetracampeão mineiro, diziam que Pelé estava decadente e a Seleção, sem Pelé, fez uma longa excursão por vários continentes.

Nos anos após o fracasso na Copa de 1966, a crônica esportiva brasileira exaltava a força física, a disciplina tática e a correria dos europeus. Nelson Rodrigues chamava os comentaristas de "entendidos" e de "idiotas da objetividade".

Na longa excursão do Brasil em 1968, já existia grande interesse da ditadura no sucesso da Seleção. Houve grandes mordomias, como ocorre hoje. Um avião fretado, cheio de convidados da CBD, ficava à disposição do time brasileiro.

Na primeira partida, contra a Alemanha, levamos um baile. Aí, eu, Gerson e Rivellino, por nossa conta, formamos um trio de canhotos no meio-campo. Eu jogava pela direita, Gerson pelo meio e Rivellino pela esquerda. Gerson era o técnico. Ganhamos a maioria das partidas. O treinador Aimoré Moreira foi bastante elogiado.

Jogamos contra Portugal em Lourenço Marques, capital de Moçambique, que era colônia portuguesa. Uma multidão de negros gritava o nome de Pelé. Será que sabiam da ausência do Rei? Para minha surpresa, o novo estádio ficou vazio, quase só com portugueses. Enquanto isso, a multidão de negros continuava gritando o nome de Pelé fora do estádio. O ingresso era muito caro.

Nunca mais conversei com o zagueiro Marinho. Falávamos muito de futebol, ditadura e outras coisas, para estranheza dos outros. Não havia nenhuma proibição oficial de falar da ditadura, como não houve na Copa de 1970, porém existia um silêncio, uma mistura de alienação e de medo.

Em 1969, nas Eliminatórias para o Mundial de 1970, a Seleção recuperou o prestígio com o torcedor. Desconfiava que Saldanha não ficaria muito tempo. Um visionário, humanista, político militante da esquerda e que falava o que pensava, não daria certo em um ambiente militar. A comissão técnica e o governo queriam a saída do técnico e ele, incomodado, parecia não querer continuar.

Por curiosidade, gostaria de voltar a 1968 e aos anos próximos desta data. Com a visão que tenho hoje da vida e do mundo, certamente enxergaria alguns fatos de outra forma e faria algumas coisas diferentes. São 40 anos. O mundo é outro. Já as minhas grandes dúvidas continuam as mesmas.


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Comentários

È prazeroso ler a coluna do mestre Tostão, na realidade a temática do futebol é apenas uma digressão para suas reflexões, de caráter político e profundamente filosófico. Tudo isso sem perder a ternura. Na minha humilde opinião é o legítimo herdeiro do decano Armando Nogueira. Um forte abraço. Júlio Fernandes

Júlio Cesar Fernandes da Silva

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