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Sextante

SEXTANTE

Braga para além de Braga

Felipe Araújo


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28/07/2007 16:28


Em 1989, pouco antes de morrer, Rubem Braga teve uma crônica censurada no Estado de São Paulo porque afirmava que votaria em Lula para presidente e não em Collor, candidato apoiado pelo grupo Estadão. A censura foi o último episódio controverso na trajetória de um escritor que, ao contrário do senso comum - que costuma aprisionar a lira de Braga apenas entre o assombro com as curvas femininas, o encanto com passarinhos e as confissões de amigos em tardes ensolaradas da Zona Sul carioca -, foi marcada por algumas perseguições, fugas e processos políticos. Não era a temática preferida de Braga. Mas o Mestre capixaba nunca se furtou de se engajar em polêmicas e não raro dividia sua crônica do cotidiano - supostamente alienada - com textos críticos e panfletários.

Braga para além de Braga (II)
2 Um apanhado dessa produção “alternativa” de Braga é feita pela jornalista Ana Karla Dubiela em A traição das elegantes pelos pobres homens ricos - uma leitura da crítica social em Rubem Braga. O livro, editado pela editora da Universidade Federal do Espírito Santo (Edufes), é resultado da monografia de conclusão do curso de especialização em Estudos Literários e Culturais (UFC), em 2004. “Nossos homens de governo têm uma pasmosa desambição de governar (...). Homens públicos, sem sentimento público, homens ricos que são, no fundo, pobres-diabos - que não descobriram ainda que a grande vantagem real de ter dinheiro é não ter que pensar, a todo momento, em dinheiro...”, alfineta o cronista, citado por Ana Karla, em A Traição da elegantes (1967). O livro de Dubiela, que tem apresentação de Affonso Romano de Sant´Anna, será lançado em Fortaleza na próxima quinta-feira (2/8).

Disco da semana
“Por que razão Baden Powell não se transfere para a Europa ou para os Estados Unidos? Por que razão ele não quer ser o maior violonista do mundo?”, foi a pergunta que Stan Getz fez, certa vez, ao maestro Júlio Medaglia, que respondeu, incontinente: “Porque talvez ele já o seja há muito tempo”. Sou dos que pensa como o maestro em relação a Baden. Em vez de se verticalizar em alguma escola (aprofundando-se no choro ou na música erudita, por exemplo); ou, por outra, de se horizontalizar em vários gêneros (o que lhe garantiria uma versatilidade de interlocutores musicais), Baden construiu ao longo de sua obra verdadeiras espirais de referências em que a inspiração popular era a chave para libertar sua requintada excelência musical. Da dissonância do jazz, que assumiu logo em seus primeiros discos; ao choro, onde reinventava escalas e frases aprendidas entre Lino de Aquino, seu pai; o mito Garoto e o gigante Meira, fundador de uma escola em que se alfabetizou meio mundo de grandes violonistas brasileiros, Baden foi único. Difícil escolher apenas um disco em sua vasta discografia. Esse Baden Powell à Vontade (1963), cuja capa é reproduzida acima, fica apenas como uma referência. O disco desta semana, na verdade, são todos os discos de Baden. “O violão é minha metade”, dizia o homem.

O clube de Palahniuk
Assombro, o novo livro de Chuck Palahniuk, o controverso autor de Cantiga de Ninar, No sufoco e Clube da Luta (que virou filme com Brad Pitt e Edward Norton Jr. no elenco, acima na foto), está chegando ao Brasil através da editora Rocco. Mesmo dividido em textos supostamente independentes, o livro é um romance cuja narração é compartilhada entre todos os personagens. No caso, 18 escritores que acabam trancafiados num sinistro retiro criativo dentro de um teatro abandonado. Enquanto lutam pela sobrevivência, eles escrevem os 23 contos e 21 poemas de horror que compõem o livro - mais uma vez, como é praxe na obra de Palahniuk, marcado por muito humor negro, escatologia e impiedosas críticas à sociedade norte-americana. “Nesses dias em que a nossa sensibilidade está embotada pelos excessos da TV e dos filmes, quando os ultrajes do terror vêm apenas em terceiro ou quarto lugar na escalada das manchetes e chamadas dos jornais, eu me tornei mais endurecido quanto a histórias de horror. A leitura de Tripas (um dos contos que formam Assombro) me provou o contrário. Apesar de não me fazer desmaiar, com certeza me fez desistir do almoço. É uma passagem extraordinária, num livro extraordinário, o mais original trabalho de ficção do ano”, disparou o crítico Cristopher Priest, do The Guardian.

Curtas
O Governo do Estado, através da Secretaria de Cultura, está firmando um acordo com a Capitania dos Portos para utilizar o prédio da entidade, localizado na Rua Dragão do Mar (Praia de Iracema), como nova sede para o que promete ser o redivivo Instituto Dragão do Mar. A Capitania migraria para o Mucuripe.

Informações do Palácio Iracema também dão conta de que a Biblioteca Pública Menezes Pimentel, que completou 140 anos na última quarta-feira, também vai ganhar, em breve, uma ampla reforma em suas instalações.


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