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Responsabilidade Social e Ética

Da caridade à responsabilidade social: 450 anos de evolução

Engel Paschoal
17 Mar 2008 - 01h01min

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Claro que a caridade (do latim "caritas"), o primeiro estágio dentro da escala de ações sociais, sempre existiu. Mas no Brasil há uma data marcante: em 1543 foi inaugurada a Santa Casa de Misericórdia de Santos, SP. Ou seja, a caridade começou praticamente com o descobrimento, pois em história 43 anos não são nada.

E o que caracteriza a caridade é uma ação que acaba em si própria: uma pessoa tem fome e eu dou comida. A ação acaba aí e não resolve o problema, porque a pessoa volta a ter fome. A caridade começou com a igreja e, depois, chegou às pessoas.

No segundo estágio, a filantropia (do grego, boa vontade para com as pessoas, a humanidade), damos um passo: colocamos quem está sendo atendido, por exemplo, num asilo, no qual vai ter ao menos alimentação e moradia. A ação se prolonga.

Modificar e multiplicar
O terceiro estágio, a responsabilidade social (RS), surgiu nos anos 90 nos EUA e América Latina. O ponto é que a RS implica em ação modificadora: faço algo que muda outra pessoa, que também vai provocar mudanças, num movimento contínuo. Por exemplo, montamos uma creche na qual as mães deixam os filhos quando saem para trabalhar e ainda aprendem atividades que podem render dinheiro. Os filhos também desenvolvem ações diversas. São chances para todos mudarem.
A grande transformação foi a relação direta da RS com os negócios das empresas, porque não só elas perceberam a importância de dar mais atenção a seus funcionários, ao entorno de onde estão localizadas, como passaram a fazer produtos e prestar serviços melhores, envolvendo também os fornecedores. Foi uma revolução. Claro que essa divisão - caridade, filantropia, RS - não é rígida e a caridade ainda se faz necessária em alguns casos.

A evolução via pesquisas
Desde 2000, o Instituto ADVB (Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil) de Responsabilidade Social faz pesquisas anuais. Em 2002, das 3.910 empresas pesquisadas 2.330 responderam. Dois pontos revelavam que a RS passava a fazer parte dos negócios: para 97%, a RS estava integrada à visão estratégica das decisões e, em 98%, a alta administração participava dos projetos sociais.
Em maio de 2002, o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulgou a Pesquisa Ação Social das Empresas: cerca de 465 mil empresas com um ou mais empregados atuavam de forma voluntária em questões sociais tendo aplicado, em 2000, R$ 4,7 bilhões, 0,4% do PIB do Brasil. As maiores eram mais atuantes (88%), mas as menores se destacavam: 54% das com um a dez empregados e 69% das com onze a cem também atuavam em RS.
E havia uma diferença nas ações das empresas pesquisadas pelo Instituto ADVB, definidas como de RS, e as do Ipea, tidas como filantrópicas. Apesar da ADVB não explicar o que entendia por RS, o Ipea falava em "filantropia" e "compromisso social", salientando que as diferenças entre os dois termos "nem sempre são nítidas e as atitudes não são, necessariamente, excludentes".
Para o Ipea, na filantropia, as motivações são humanitárias, com atuação reativa e ações isoladas, tendo como resultados a gratificação pessoal de poder ajudar. E no compromisso social, as motivações são sentimento de responsabilidade, a atuação é proativa, as ações integradas e os resultados ligados a objetivos e metas. Daí que prefiro RS ao "compromisso social" do Ipea, porque é mais abrangente. Há uns cinco anos fala-se em sustentabilidade, mas para mim ela já está implícita em RS.
Em 2006, o Instituto ADVB mostrou que 80% das empresas não procuravam saber se o consumidor entendia como diferencial a atuação em RS e as premiava por isso. Mas desde 2004, o estudo -RS Empresarial " Percepção do Consumidor Brasileiro", dos Institutos Ethos e Akatu revelava que os consumidores valorizavam as práticas de RS: 37% pensaram ou de fato premiaram as empresas tidas como socialmente responsáveis, comprando seus produtos ou falando bem delas, enquanto 29% puniram - ou pelo menos cogitaram punir - as "irresponsáveis", não comprando seus produtos ou falando mal delas.
Em 2007, o Instituto ADVB descobriu que 81% das empresas divulgaram suas ações sociais com todos os públicos com os quais se relacionam. E 89% estudavam aumentar em 20% os recursos para 2008 em relação a 2007. A novidade foi que 34% das empresas já faziam algo para organizar uma ?Rede de Fornecedores Socialmente Responsáveis?, como eu disse aí atrás; e 33% tinham políticas de compras de "materiais verdes" ou "ambientalmente certificados".
Ou seja, a RS não só está entranhada na vida das empresas, como se espalha entre elas. Como empresas são pessoas, não há mais volta. Apesar de 450 anos depois. * Com Lucila Cano.

(*) Engel Paschoal (engelpaschoal@uol.com.br) é jornalista e dá cursos e palestras sobre responsabilidade social. Este artigo somente poderá ser reproduzido ou publicado com autorização prévia do autor.

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