Política
POLÍTICA
Projetos de poder definem alianças no Brasil
Fábio Campos
20 Mar 2008 - 01h14min
Na política brasileira, os embates eleitorais costumam esfarelar supostos confrontos. A disputa pelos legados ideológicos entre, por exemplo, "direita" e "esquerda", serve mesmo é para manter a militância em estado de alerta e para justificar um ou outro interesse momentâneo. Na prática, a conversa é outra. O conflito entre petistas e tucanos acaba se tornando uma grande mentira e, em muitos casos, não se sustenta diante das pragmáticas necessidades eleitorais. O que define os procedimentos são os projetos de poder. As eleições estão se aproximando e algumas articulações refletem bem essa realidade política. A eleição é municipal e as circunstâncias locais acabam se impondo. Porém, possíveis acordos podem se firmar muito mais em função de necessidades nacionais de que municipais. No O Globo de terça-feira, reportagem assinada pelo jornalista Gerson Camarotti, relata que, pressionado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já avalizou algumas alianças municipais de seu partido com adversários, o Diretório Nacional do PT deve permitir na próxima semana "alguns" acordos regionais do partido com o PSDB.
CASO DE MINAS MOVE PRESIDENTE LULA
O caso de Belo Horizonte continua chamando a atenção. Atentem para o seguinte trecho da reportagem do jornal carioca: "Apesar da recomendação prioritária para alianças municipais com partidos da base aliada no plano nacional, a decisão que será tomada pelos dirigentes (petistas), na segunda-feira, deve abrir uma brecha para eventuais acordos com legendas de oposição. Isso vai beneficiar diretamente a aliança que está sendo costurada em Belo Horizonte entre o prefeito Fernando Pimentel (PT) e o governador Aécio Neves (PSDB), em torno da candidatura do secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas, Márcio Lacerda (PSB)". Tal situação pouco tem a ver com a política mineira, mas está sendo fortemente estimulada pelas articulações em torno da sucessão do presidente Lula. Aécio, o tucano, é visto como uma alternativa de Lula, o petista, para a próxima sucessão presidencial. Aécio é tucano hoje, mas pode ser peemedebista amanhã. Pudores? Ora, pudores. Aécio apenas voltaria ao seu berço original. Não é? E é óbvio que a aliança entre PT e PMDB será, salvo possíveis terremotos, a grande condutora do candidato de Lula em 2010.
OS BOBOS SÃO ESPÉCIES EM RÁPIDA EXTINÇÃO
Em São Paulo, estado sede principal do suposto grande confronto ideológico entre tucanos em petistas, há muitas conversas entre PT e PSDB. Hoje, fala-se em acordos entre em pelo menos 26 cidades. Poucas se considerarmos que há mais 500 municípios lá. Não importa. Mesmo que fosse só em uma ou duas cidades, as alianças confirmam o papo-furado ideológico. O que determina uma aliança é a política real baseada nas necessidades eleitorais. A base são os projetos de manutenção do poder conquistado e os projetos de chegar ao poder. Na mesma reportagem, o seguinte relato: "Numa reação à aliança entre PSDB e PT em BH, o vice-presidente José Alencar (PRB) fez pacto com o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB), para tentar atrapalhar as negociações entre tucanos e petistas". Querem até atrair o DEM em torno de uma candidatura para a capital mineira. "Caso não consigam reverter o acordo PSDB-PT, Alencar e Costa pretendem pelo menos rachar os petistas e ganhar a adesão de uma tendência importante do partido". Notaram? Enquanto isso, proliferam bobos a pregar supremacias ideológicas de um lado e de outro. Conversa fiada. Se jogarmos uma luz sobre esses, acabaremos por descobrir que, em boa parte, são movidos por interesses bem pessoais, inclusive os de manutenção de um empreguinho. Então não são bobos. São espertos.
JOGO POLÍTICO ESPECIAL COM CID GOMES
Será especial o programa Jogo Político da próxima segunda-feira. Uma parceria entre a TV O POVO e TV Assembléia, o programa, apresentado pelo editor desta Coluna, vai entrevistar o governador Cid Gomes (PSB). Ao vivo, com início às 21 horas, o "Jogo" vai ter uma hora e quarenta minutos de duração. Política, economia, gestão, o presente e o futuro do Ceará em cem minutos de conversa. Os leitores podem fazer perguntas ao governador através do e-mail da Coluna (fabiocampos@opovo.com.br ). Que sejam objetivas. De preferência com a identificação e a localização do autor (bairro, cidade).
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