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Os Ferreira Gomes e o modo "Piauí" de ver o Brasil

Fábio Campos
17 Mar 2007 - 14h14min


Nas bancas, a edição de março da revista "Piauí" traz um perfil de três páginas da família Ferreira Gomes. A chamada de capa já diz a que veio: "A Oligarquia Ciro Gomes". Dentro, o título é "Oligarquia irritada". Não há nada de relevante no texto assinado por Daniela Pinheiro. É um amontoado de impressões pessoais bem ao modo, digamos, paulista de ver o Brasil situado na linha do Equador. O Brasil não paulista. Não sudestino. O termo oligarquia já vem carregado de sentido pejorativo. Significa, literalmente, governo de poucos exercido em benefício próprio. Entre tais benefícios, o pecuniário. "Piauí" - o batismo soa a provocação? - sataniza a política, essa atividade moralmente condenável a que os Ferreira Gomes se entregaram. O texto é construído à maneira dos roteiros de novela da Globo, que se passa em alguma cidadezinha do interior baiano. Gente ignorante, exótica, afetada, com sotaque carregado, gestos e atitudes não civilizadas. Gente dos trópicos expostas como piadas para a audiência. Nota-se que os membros da família falaram para "Piauí" com boa vontade e espírito desarmado. Talvez estejam arrependidos.


UMA IDÉIA ORGINAL FINANCIADA POR UM BANCO
A certa altura do texto de "Piauí" está dito o seguinte: "Depois (Ciro) foi ministro da obscura pasta da Integração Nacional". Pois é. O que não cuida de São Paulo torna-se algo obscuro. A pasta tem responsabilidades de grande importância para as regiões mais pobres do País. É lá, por exemplo, que está o projeto de integração da bacia do rio São Francisco com bacias hídricas do semi-árido. Com o "sertão", como diria "Piauí". Noutro trecho, o perfil diz que Ciro candidatou-se à Presidência por duas vezes, mas "é difícil lembrar alguma idéia sua, original ou não". A reportagem não lembra nem fez questão de pesquisar se há por aí alguma idéia de Ciro, original ou não. Fez-se a opção de relembrar bobagens que o candidato cometeu na última campanha presidencial. O "clã" é exposto numa vitrine da avenida Paulista, financiada pelo Itaú, como uma curiosidade produzida nos rincões pobres do País. Um exotismo político sem virtudes que teve a petulância de lançar um candidato a presidente da República. Vamos esperar de "Piauí" o perfil de José Serra ou de Fernando Henrique Cardoso. Ahh, mas esses têm idéias originais.


"PIAUÍ" DESCOBRE QUE SOBRAL TEM RICOS E MISERÁVEIS
O texto de "Piauí" é carregado de preconceito. Ao tratar de Sobral, o berço do "clã", mostra-se os dois perfis da cidade. Um, digamos, incluído, com uma "réplica do Arco do Triunfo, um jóquei clube, ônibus escolares amarelos, escola de línguas pública, um museu de arte moderna, um de arte sacra, um casario tombado pelo Patrimônio Histórico e locais onde é possível acessar a internet sem fios". "Um dos restaurantes mais chiques, o Pinos, fica no prédio de um supermercado no estacionamento de um posto de gasolina". É claro, não se poderia falar do positivo sem mostrar os modos rudes de uma elitezinha rural que quer imitar Paris e freqüenta restaurante em posto de gasolina. "Na outra Sobral, campeiam as favelas, a miséria a sujeira. Nela, as promessas eleitorais dos Gomes não saíram do papel". De qual cidade o texto fala mesmo? Do Rio de Janeiro? De São Paulo? Ora, a peculiaridade sobralense serve para qualquer ajuntamento urbano do Brasil. Mas não importa. "Piauí" decidiu que era preciso carimbar os Ferreira Gomes. E isso foi feito.


COLÉGIO PÚBLICO EM TEMPO INTEGRAL
Há uma boa novidade na educação pública do Ceará. Pela primeira vez teremos um estabelecimento de ensino público que manterá os alunos em tempo integral. O Colégio Justiniano de Serpa iniciará a experiência com os estudantes do primeiro ano do ensino médio. Na verdade, o formato teve início no ano passado, mas de forma não ideal. Agora, o Colégio ganhou uma cozinha industrial. Antes, os estudantes eram levados para o Colégio Militar e comiam quentinhas. Nas manhãs, as aulas. Após o almoço, reforço escolar, aulas de línguas, educação física e leitura. O dia inteiro na escola. A idéia é estender o formato para as duas séries seguintes. A idéia é fazer com que o Justiniano de Serpa se transforme em um pré-vestibular, um colégio universitário, para os alunos do ensino público cearense. Uma escola de referência capaz de aumentar a inclusão dos estudantes mais pobres nas universidades públicas. Hoje, apenas 23% das vagas da UFC são ocupadas pro estudantes oriundos do ensino público.

Curiosidade histórica: o prédio do Justiniano de Serpa, localizado no início da avenida Santos Dumont, perto do Centro, foi construído sob a orientação do engenheiro José Gonçalves da Justa, para sediar a Escola Normal, inspirado no modelo de um colégio suíço. Sua construção teve início em 11 de agosto de 1922, em frente à Praça Filgueira de Melo e em frente ao Imaculada Conceição, um colégio da elite ligado à Igreja Católica. A idéia era justamente essa: uma instituição pública em frente a uma referência privada. Um belo modelo arquitetônico, o prédio passou por recente reforma.

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