Política
POLÍTICA
Parecia o nome certo para o lugar certo, mas...
Fábio Campos
21 Fev 2007 - 01h07min
Mário Mamede para a direção da Escola de Saúde Pública (ESP) parecia o nome certo para o lugar certo. Mas não é bem assim. Quando o governador Cid Gomes decidiu nomeá-lo para o cargo havia impedimentos legais. O regulamento da ESP determinava que o superintendente seria nomeado pelo governador entre os indicados por uma lista tríplice preparada pelo Conselho Diretivo da instituição. Os componentes da lista tríplice obrigatoriamente deveriam possuir titulação de mestre ou doutor. O nome de Mamede chegou ao Conselho logo depois da posse do governador. O petista estava na cota de um dos grupos do partido para compor o Governo. Entre os membros do Conselho, até que não havia restrições ao indicado. Pelo contrário. De caráter elevado, sério, Mamede é o tipo de gente que todos gostam. Era um médico respeitado e se tornou um político respeitado. Mas não se tratava apenas de acatava a "sugestão" do governador. O Conselho foi obrigado a dizer não porque Mamede não possui a titulação requerida. Ele é médico, mas não possui o mestrado ou o doutorado. Sendo assim, o que fazer? Ora, na visão do Governo, mudam-se as regras.
UM DECRETO COM A CARA
DA NECESSIDADE POLÍTICA
Não era um preciosismo a regra da titulação obrigatória para dirigir a Escola de Saúde Pública. Trata-se de uma instituição de nível superior. Nada mais adequado que se leve em conta uma formação acadêmica conveniente. Mas, em tempos lulistas, isso virou uma circunstância, digamos, elitista. Para eliminar o conteúdo de um decreto baixa-se outro decreto. Assim fez Cid Gomes. Um novo decreto, publicado no Diário Oficial de 23 de janeiro, acabou com essa conversa de lista tríplice (para que intermediários, não é mesmo?) e eliminou a necessidade de um currículo com mestrado ou doutorado. Além da canetada superior, basta agora o escolhido ter uma pós-graduação. Uma especialização, por exemplo. Foi um decreto com a cara da necessidade política do Governo. O atual Conselho Diretivo da ESP engoliu a seco e em silêncio. Afinal, Mamede é amigo. Não é tão difícil de engolir assim. Como reagiria o mundo caso o indicado fosse Carlomano Marques? O homem é do PMDB, é da base do Governo, é médico e possui uma especialização. Está apto. E que tal o Dr. Sarto, especializado, amigo e partidário do governador? Daqui por diante, absolutamente nada vai impedir que um governador, o que estiver de plantão, banque o nome que achar politicamente conveniente.
A QUESTÃO É DE DEMOCRACIA
E CONTRA CASUÍSMOS
É provável que o governador Cid Gomes ache que tudo o que se argumenta aqui seja uma grande bobagem. Afinal, se não achasse não teria agido da maneira que agiu. A questão é de democracia, de preservação das instituições de pesquisa e ensino e de rigor técnico para uma área técnica. A questão é que casuísmos desse tipo precisam ser repudiados. É provável que o deputado Mário Mamede esperneasse se o governador Tasso Jereissati mudasse uma regra para abrigar um aliado no Governo. O nome de Mário Mamede talvez até seja adequado para o exercício da função para o qual foi designado, mas não é essa a discussão. Além de uma arriscada eliminação de rigores técnicos, o problema é também de democracia, esse detalhe que vem sendo solenemente atropelado. A idéia da lista tríplice tem origem em nossas universidades. Não é um capricho e diz respeito à preciosa autonomia das instituições de ensino superior. Ao acabar com a lista, Cid acabou com a autonomia da ESP, uma instituição de ensino superior. Quanto a Mamede, é de se perguntar: o senhor concorda com o fim dos rigores técnicos e com o fim da lista tríplice?
UM RETROCESSO E OUTRA
INDICAÇÃO SUGESTIVA
O decreto de Cid Gomes é um atraso. Um passo atrás. Ou, na linguagem de campanha, um salto para trás. Um retrocesso. Pena que nessa história esteja envolvido até o pescoço o ex-deputado e ex-ministro Mário Mamede. Quem o conhece é capaz de sustentar que, delicadamente, ele rejeitaria o casuísmo e o convite. A sua louvável e exemplar trajetória assim sugerem. Mas, os tempos são outros. A era Lula rebaixou as expectativas. Também é pena que Cid Gomes, que se elegeu em cima da idéia do novo, venha assimilando essas velhas facilidades. É o caso também da indicação de um sindicalista para o Instituto de Desenvolvimento do Trabalho (IDT). Parece haver um raciocínio singular: se o instituto é do trabalho por que não colocamos lá o chefe da CUT? Ora, às favas com a técnica e com os técnicos.
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