Fábio Campos
21/10/2006 16:16

As mentiras vicejam nas campanhas políticas. Que história é essa de o presidente Lula apresentar a futura siderúrgica do Ceará como uma obra do Governo Federal? Lula fez isso no primeiro e no segundo debate. Lula vem fazendo isso com intensidade em seu horário gratuito. É mentira. O projeto foi articulado e pensado pelos tucanos cearenses. Não se trata de um obra pública, embora o financiamento seja em boa parte oriundo do BNDES, via BNDESpar (é pra isso que essa instituição existe). Batizada de Ceara Steel, a siderúrgica é formada pelos grupos Dongkuk Steel (Coréia do Sul), Danieli (Itália) e a brasileira Companhia Vale do Rio Doce. A usina, que entrará em operação em 2009, recebe investimentos de US$ 750 milhões. 80% advindos do exterior.
Em construção no Pecém, a siderúrgica produzirá 1,5 milhão de toneladas/ano de placas de aço totalmente destinadas à exportação; metade da produção está comprometida com Dongkuk Steel, na Coréia do Sul. Além de parte do financiamento, o papel público no negócio será no fornecimento (pago) de insumos. A saber: gás natural (Petrobras) e energia elétrica (CHESF).
APÓS PRESSÃO, PETROBRAS PARTICIPOU
É certo que o papel do Governo Federal no empreendimento foi decisivo, mas não é correto caracterizar a obra como um feito do Palácio do Planalto. Aliás, a participação da Petrobras (fornecedora de gás natural) no projeto foi arrancada a fórceps. A decisão da estatal só saiu após uma conflituosa reunião em Brasília que envolveu o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrieli, o deputado federal Inácio Arruda e os senadores Tasso Jereissati e Patrícia Saboya, entre outros menos votados. Só depois de muita pressão, a estatal aceitou entrar como fornecedora do insumo. Além disso, toda a articulação para juntar os sócios da siderúrgica foi trabalhada no Ceará. O vice-governador Maia Júnior tem a história na ponta da língua.
EVENTO COM CARA POLÍTICA DOS ANOS 90
Até onde se saiba, o papel do presidente Lula para conquistar a refinaria, se existe, é desconhecido. Lula nem sequer veio para o lançamento das obras. Foi representado pelo então ministro Ciro Gomes num evento marcantemente tucano. Parecia um encontro dos tempos em que a aliança Tasso-Ciro dominava a política do Ceará (veja foto do evento). Na platéia, que lotava um auditório refrigerado improvisado no canteiro de obras, o único petista que se visualizava era o presidente do Banco do Nordeste, Roberto Smith. Não é à toa que a bancada petista do Ceará em Brasília e na Assembléia jamais cite a Ceara Steel como um dos feitos de nosso guia. Lula se apropriou do que não era dele.
CID GOMES E A EMENDA MODERNIZANTE
Mais importante que o fim do nepotismo é acabar com a farra de nomeações para os tais cargos de confiança. É esta a porta de entrada para o familismo, o compadrio e o aparelhamento partidário do serviço público e das empresas estatais. Até certo ponto, a emenda Mauro Filho, que tramita na Assembléia Legislativa, cumpre essa função ao determinar que 80% dos cargos de indicação vão passar a ser exclusivos dos servidores públicos de carreira. O futuro da emenda deve ser acompanhado bem de perto. O desenrolar dos acontecimentos em torno da matéria será um bom referencial para saber o que o futuro governador Cid Gomes (PSB) pensa a respeito da modernização do serviço público.
O QUE PENSA A PREFEITA DA PROPOSTA?
Cid Gomes já disse que iria diminuir a quantidade de secretarias e cortar cargos comissionados. Ótimo. Sua fala se sustenta na prática como prefeito de Sobral. Lá, o quadro era enxuto e o serviço público ganhou muito em eficiência. Porém, na imensidão do Governo do Estado é bom ver para crer. Cid já deu opiniões públicas a respeito da sucessão na Assembléia Legislativa. Coisa que não é muito adequada a quem vai sentar na cadeira de governador. Melhor seria que concedesse opinião a respeito da emenda apresentada por seu correligionário. O fato de partir de Mauro Filho já é um bom sinal. Trata-se de uma pessoa da confiança do futuro governador. É improvável que o deputado estivesse tão animado com sua emenda se ela desagradasse ao futuro governador. Em tempo: que tal colher a impressão de Luizianne Lins a respeito da proposta? Na prefeitura de Fortaleza nunca se falou em corte de gastos e de cargos. Pelo contrário.