Sérgio Redes
05/09/2008 00:11
Outro dia palestrando numa faculdade fui questionado por um ouvinte. Professor! Isso aí não é do meu tempo. Não deixei a bola cair e respondi de primeira. É verdade! Tem gente que pensa que a vida começa quando ela nasce. É bom ter cuidado porque gente sem memória vira fantasma de si mesmo. O nome do filme é O Mistério do Samba tem a produção musical da Marisa Monte e está passando num daqueles cinemas do Centro Cultural Dragão do Mar. Começou a ser feito há dez anos quando a cantora resgatou sambas antigos para o seu disco "Tudo Azul".
Durante oitenta e oito minutos, quase um jogo de futebol, a câmera passeia pela Velha Guarda da Portela, e, através das melodias e das letras vai desfiando as histórias de cada sambista, de cada pastora, de Madureira, de Oswaldo Cruz e do cotidiano da Escola.
Conforme diz uma das diretoras do filme, paira no ar um misto de saudade que pode até ser confundido com melancolia, mas como diz o próprio Jair do Cavaco, falecido em 2006, "sem tristeza não tem samba bom". Comum aos sambas daquela época o andamento lento marcado pelo surdo.
Esse toque nostálgico da batida de um surdo sempre me emociona, e, mais ainda quando sustenta e dá ritmo a um coral de vozes do samba. No conteúdo dessas músicas estão sempre presentes a malícia, a malevolência, a ginga, e outros elementos que compõem a nossa cultura.
Com uma identidade nacional construída em cima do branco, do negro e do índio a nossa história de samba e futebol é uma fabulosa irradiação dos conceitos que formaram essa identidade. Evidente que hoje em dia não se produzem sambas como antigamente assim como também não se joga futebol como antes.
O andamento lento dos desfiles das escolas de samba bem como o estilo cadenciado e compassado dos jogos de futebol deu lugar a movimentos de ritmo vertiginoso e rápido. O futebol, nos dias de hoje, parece um jogo de ping e pong e uma escola de samba desfila em alta velocidade.
Os mais antigos elevaram o nosso futebol e o nosso samba ao seu ponto mais alto. Compositores como Cartola e Paulinho da Viola, e jogadores como Pelé e Garrincha são os maiores expoentes de gerações que escreveram no campo de jogo e na pauta das canções momentos sublimes da nossa arte.
Também é verdade que nada se conserva eternamente. Isso é muito natural, até porque as coisas são assim. Como diz o Alvaiade da Velha Guarda da Portela no samba O Mundo é Assim. "O mundo passa por mim todos os dias enquanto eu passo pelo mundo uma vez".